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ED 081
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Em 1922, Mário de Andrade pagou o próprio livro

Paulicéia Desvairada saiu com dinheiro do autor, um prefácio interessantíssimo e uma São Paulo de garoa, bonde e fábrica.

Rua de São Paulo em 1922 sob garoa, com bonde elétrico e chaminés de fábrica ao fundo.

Uma São Paulo de garoa posta em verso em 1922

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“São Paulo! comoção de minha vida...” Mário de Andrade abriu Paulicéia Desvairada com esse verso em 1922, e ele ainda serve a quem chega numa cidade grande e sente, no mesmo minuto, susto e paixão.

O livro saiu naquele ano em São Paulo, impresso na Casa Mayença. Nenhuma editora quis bancar a tiragem. O autor pagou a conta com o próprio dinheiro de professor de piano do Conservatório Dramático e Musical.

Mário tinha 28 anos. Morava com a mãe e a tia na rua Lopes Chaves, na Barra Funda, e dava aulas particulares de piano para completar o salário do mês.

Antes dos poemas, ele pôs um texto longo em prosa e deu a ele um nome sem modéstia: Prefácio Interessantíssimo. Ali explicava a própria pressa, a pontuação estranha e as reticências espalhadas pela página.

O prefácio começa com uma piada séria. Mário anuncia que acaba de fundar uma escola, o Desvairismo, e logo avisa que ninguém precisa segui-la.

Em fevereiro do mesmo ano, no Theatro Municipal, a Semana de Arte Moderna tinha reunido pintores, músicos e escritores dispostos a provocar a plateia paulistana. Mário leu trechos dos poemas novos no palco e ouviu vaia.

A recepção do livro seguiu o tom da noite. Parte da crítica achou os versos desconexos, sem rima, sem métrica, cheios de pontos de exclamação. O poeta respondia nos jornais e nas cartas, sem recuar de uma vírgula.

Os poemas falam de uma cidade em obra. São Paulo passava de meio milhão de moradores, abria fábricas no Brás e na Mooca, enchia as ruas de bondes elétricos da Light e de automóveis importados.

A garoa aparece por toda parte, a neblina fina das tardes de inverno, e o poeta a trata como roupa da cidade.

A primeira faixa entra pelo poema de abertura, Inspiração, onde São Paulo ganha um traje de arlequim.

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I  O Poema do Dia

A cidade vestida de arlequim

O poema que abre Paulicéia Desvairada se chama Inspiração. Tem duas estrofes curtas, e as duas começam pelo mesmo grito.

Mário vestiu São Paulo com a roupa de losangos do arlequim, o palhaço da comédia italiana.

São Paulo! comoção de minha vida...
Os meus amores são flores feitas de original...
Arlequinal!... Trajes de losangos... Cinza e ouro...
Luz e bruma... Forno e inverno morno...

Mário de Andrade, Inspiração, Paulicéia Desvairada, 1922.

Em prosa: São Paulo mexe com o poeta por inteiro; os amores dele nascem originais, e a cidade parece um arlequim, com roupa de losangos cinza e dourados, luz e neblina, calor de forno e um inverno morno.

Arlequinal é palavra inventada. Vem de Arlequim, o criado esperto da commedia dell'arte, sempre de roupa remendada em losangos coloridos.

Os losangos da cidade

A imagem tem lastro na rua. A São Paulo de 1922 misturava casarão de café, cortiço de imigrante, chaminé de fábrica e prédio novo de cimento armado.

O cinza vinha da fumaça e da garoa. O ouro vinha do dinheiro do café, que pagava os palacetes da avenida Paulista.

Cada losango da roupa é um pedaço da cidade costurado ao lado de outro, sem combinar, e o conjunto anda como um corpo só.

As reticências

Repare na pontuação. Quase todo verso termina em reticências ou em exclamação. No Prefácio Interessantíssimo, Mário explica a escolha: queria que as palavras soassem juntas, como notas de um acorde ao piano.

Ele chamou esse recurso de verso harmônico. Várias imagens ficam no ar ao mesmo tempo, sem verbo ligando uma à outra, e o leitor ouve o conjunto.

Luz e bruma soam juntas. Forno e inverno morno também, com a rima interna escondida no meio do verso.

O galicismo

A segunda estrofe repete o grito e fecha com outro verso famoso: “Galicismo a berrar nos desertos da América!”

Galicismo é palavra ou costume copiado do francês, e o verso inteiro soa como um anúncio berrado num deserto.

O deserto é exagero de propósito. Mário sabia do tamanho do Brasil fora da capital, das léguas de mato e de fazenda entre uma cidade e outra.

Galicismo, para ele, era sintoma. A elite paulistana falava francês, comprava perfume de Paris e mandava os filhos estudar na Europa. O poeta vê a cidade inteira como um francesismo gritado no meio do continente.

Na hora de ler

Leia o primeiro verso alto, com a exclamação no nome da cidade, e deixe as reticências durarem um segundo cada.

Não corra nos losangos. Cada imagem pede a própria pausa.

Se a sala for pequena, fale mais baixo no verso das flores e suba de novo no Arlequinal, como quem anuncia a entrada de um palhaço no circo.

 
 

II  Pra Ler no Altar

Flores feitas de original

Para um casamento, a página fica com o segundo verso de Inspiração, o mais curto de explicar e o mais fácil de dizer em voz alta diante de um casal.

O verso serve ao altar porque fala de um amor sem molde, inventado pelos dois e por mais ninguém.

Os meus amores são flores feitas de original...

Mário de Andrade, Inspiração, Paulicéia Desvairada, 1922.

Em prosa: os amores do poeta são como flores nascidas pela primeira vez, sem cópia nem modelo anterior.

Original, no verso, funciona como matéria. As flores são feitas de original como um vaso é feito de barro. O poeta pegou um adjetivo e o transformou em substância.

A palavra torta

O Prefácio Interessantíssimo defende esse tipo de liberdade. Mário escreve ali que a gramática apareceu depois das línguas, e que o poeta pode torcer a frase para caber o que sente.

Os críticos de 1922 leram o verso como erro. Hoje ele soa como promessa: um amor que não copia o de ninguém.

A pontuação ajuda. As reticências do fim deixam o verso aberto, como se a lista de flores continuasse depois do papel, uma por ano de casamento.

Para os noivos, a imagem dispensa explicação longa. Todo casal acha que inventou o próprio jeito de se gostar, e o verso dá razão a eles.

A cidade como amada

Na Paulicéia, a amada do poeta é São Paulo. Ele a chama de comoção, de arlequim, de Londres de neblina. Briga com ela, xinga os burgueses dela e volta para ela no poema seguinte.

Um casamento pede pouco mais do que essa fidelidade teimosa. O poeta conhece os defeitos da cidade, a fumaça, o frio, a pose francesa, e continua apaixonado.

Por que funciona no altar

• O corte: só o verso das flores, sem o arlequim.

• O tom: leve, quase sorrindo.

• O leitor: alguém da família ou um amigo antigo do casal.

Na hora de ler

Diga “Os meus amores” devagar, olhando para os dois. Depois deixe “feitas de original” sair inteiro, com a voz um pouco mais baixa.

Segure as reticências do fim antes de voltar ao lugar.

 

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III  Pra Dizer Adeus

Londres das neblinas finas

Numa despedida, a página vai a Paisagem nº 1, o poema em que Mário de Andrade chama a cidade pelo nome de outra.

O verso serve ao adeus porque guarda a cidade na neblina, do jeito como a memória guarda quem foi embora.

Minha Londres das neblinas finas!

Mário de Andrade, Paisagem nº 1, Paulicéia Desvairada, 1922.

Em prosa: São Paulo é a Londres do poeta, coberta pela mesma neblina fina das tardes frias.

A comparação era conhecida. Os paulistanos do começo do século chamavam a própria cidade de Londres brasileira por causa da garoa, e o poeta pegou o apelido da rua e o pôs no verso com um pronome possessivo na frente.

A garoa

Minha é a palavra de peso. A Londres do poema pertence a ele, como uma casa pertence a quem morou nela por muitos anos.

A garoa paulistana ficou famosa nos relatos de viajantes do século XIX. Os estudantes da Faculdade de Direito do largo de São Francisco escreviam sobre ela nas cartas para a família no interior.

Quem cresceu em São Paulo reconhece o frio úmido das seis da tarde, o farol do carro aceso cedo, o guarda-chuva que não chega a abrir.

Numa despedida, a neblina diz o que a voz não consegue. A pessoa amada fica visível e meio apagada ao mesmo tempo, como uma rua vista da janela numa tarde de inverno.

O livro depois

Paulicéia Desvairada vendeu pouco. Os exemplares ficaram com o autor, que os mandou de presente a amigos e a escritores de outros estados.

Um desses leitores foi Manuel Bandeira, no Rio de Janeiro. A correspondência entre os dois começou por causa do livro e durou mais de vinte anos.

A casa da Barra Funda hoje abriga uma oficina cultural com o nome do poeta. As cartas, os livros e os cadernos de anotação dele foram parar no Instituto de Estudos Brasileiros, na Universidade de São Paulo.

Mário seguiu na rua Lopes Chaves até o fim da vida. Escreveu Macunaíma, dirigiu o Departamento de Cultura da cidade e recolheu canções populares pelo interior do país.

Na hora de ler

Diga “Minha Londres” como quem chama alguém pelo apelido de casa.

Faça a pausa depois de “Londres” e deixe “das neblinas finas” sair devagar, quase sem voz.

Ele pagou a edição sozinho.

 
 
Quiz da edição

Como Mário de Andrade pagou a impressão de Paulicéia Desvairada em 1922, já que nenhuma editora quis bancar a tiragem?

ACom uma bolsa do governo paulista
BCom o salário de professor de piano do Conservatório Dramático e Musical
CCom a venda antecipada de assinaturas do livro
DCom uma herança recebida da família

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