|
O poema que abre Paulicéia Desvairada se chama Inspiração. Tem duas estrofes curtas, e as duas começam pelo mesmo grito.
Mário vestiu São Paulo com a roupa de losangos do arlequim, o palhaço da comédia italiana.
|
São Paulo! comoção de minha vida... Os meus amores são flores feitas de original... Arlequinal!... Trajes de losangos... Cinza e ouro... Luz e bruma... Forno e inverno morno...
|
Mário de Andrade, Inspiração, Paulicéia Desvairada, 1922.
Em prosa: São Paulo mexe com o poeta por inteiro; os amores dele nascem originais, e a cidade parece um arlequim, com roupa de losangos cinza e dourados, luz e neblina, calor de forno e um inverno morno.
Arlequinal é palavra inventada. Vem de Arlequim, o criado esperto da commedia dell'arte, sempre de roupa remendada em losangos coloridos.
Os losangos da cidade
A imagem tem lastro na rua. A São Paulo de 1922 misturava casarão de café, cortiço de imigrante, chaminé de fábrica e prédio novo de cimento armado.
O cinza vinha da fumaça e da garoa. O ouro vinha do dinheiro do café, que pagava os palacetes da avenida Paulista.
Cada losango da roupa é um pedaço da cidade costurado ao lado de outro, sem combinar, e o conjunto anda como um corpo só.
As reticências
Repare na pontuação. Quase todo verso termina em reticências ou em exclamação. No Prefácio Interessantíssimo, Mário explica a escolha: queria que as palavras soassem juntas, como notas de um acorde ao piano.
Ele chamou esse recurso de verso harmônico. Várias imagens ficam no ar ao mesmo tempo, sem verbo ligando uma à outra, e o leitor ouve o conjunto.
Luz e bruma soam juntas. Forno e inverno morno também, com a rima interna escondida no meio do verso.
O galicismo
A segunda estrofe repete o grito e fecha com outro verso famoso: “Galicismo a berrar nos desertos da América!”
Galicismo é palavra ou costume copiado do francês, e o verso inteiro soa como um anúncio berrado num deserto.
O deserto é exagero de propósito. Mário sabia do tamanho do Brasil fora da capital, das léguas de mato e de fazenda entre uma cidade e outra.
Galicismo, para ele, era sintoma. A elite paulistana falava francês, comprava perfume de Paris e mandava os filhos estudar na Europa. O poeta vê a cidade inteira como um francesismo gritado no meio do continente.
Na hora de ler
Leia o primeiro verso alto, com a exclamação no nome da cidade, e deixe as reticências durarem um segundo cada.
Não corra nos losangos. Cada imagem pede a própria pausa.
Se a sala for pequena, fale mais baixo no verso das flores e suba de novo no Arlequinal, como quem anuncia a entrada de um palhaço no circo.
|