A resposta de ontem Em que hospital do Porto Ângelo de Lima foi internado primeiro? No Hospital de Alienados do Conde de Ferreira, aberto no Porto em 1883 com a fortuna deixada em testamento pelo Conde de Ferreira. Ângelo de Lima passou por lá ainda nos anos 1890, teve alta e só depois foi levado a Rilhafoles, em Lisboa, onde ficou até 1921. |
Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, nascido em 1884 no engenho Pau d'Arco, na Paraíba, pôs no Eu o soneto Psicologia de um Vencido, o autorretrato mais citado de tudo o que escreveu.
O soneto abre a leitura porque descreve uma pessoa inteira com as palavras de um laboratório, sem pedir pena a ninguém.
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Eu, filho do carbono e do amoníaco, Monstro de escuridão e rutilância, Sofro, desde a epigênese da infância, A influência má dos signos do zodíaco.
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Augusto dos Anjos, Psicologia de um Vencido, Eu, Rio de Janeiro, 1912.
Rutilância é brilho intenso. Epigênese (a formação do embrião, etapa por etapa) é termo de biologia, e aqui marca o começo da vida do poeta.
O primeiro verso faz o retrato pela química. Carbono e amoníaco são matéria comum, a mesma de qualquer corpo vivo ou em decomposição.
No segundo, o poeta junta os dois extremos de si: escuridão e brilho, monstro e estrela. Não escolhe um lado.
O quarto verso traz a astrologia para dentro do laboratório. A má sorte vem dos signos do zodíaco, e o poeta a sofre desde a primeira célula.
De onde vinham as palavras
Augusto estudou Direito no Recife e se formou em 1907. Na faculdade, leu Ernst Haeckel, biólogo alemão que defendia o monismo (a ideia de que mente e matéria são uma substância só), e Herbert Spencer, filósofo inglês da evolução.
Desses livros saíram os termos que a crítica de 1912 achou intragáveis. Nenhum poeta brasileiro da época punha célula, verme e embrião dentro de um soneto.
A forma era a mais clássica possível. São catorze versos de dez sílabas, os decassílabos, com rimas raras e sonoras: amoníaco com zodíaco, rutilância com infância.
O título do volume reforça o gesto. Eu, com uma palavra só, avisava que o assunto seria o corpo e a cabeça do próprio poeta, sem paisagem, sem musa e sem pátria. Em 1912, a escolha soou como arrogância de estreante.
No resto do soneto, o verme aparece como o operário que espera o corpo para roer, e o poeta conversa com ele sem medo.
Órris Soares, no prefácio de 1920, defendeu essa mistura de ciência e forma antiga como a marca própria do amigo, e foi esse argumento que fez o volume ser relido.
Na hora de ler
Diga Eu e pare um segundo inteiro antes do resto do verso.
Leia carbono e amoníaco sem pressa, sílaba por sílaba, como quem lê um rótulo.
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