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ED 077
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Em 1920, um elogio espalhou o Eu de Augusto dos Anjos

O irmão pagou a primeira edição, que encalhou. Um amigo da Paraíba reabriu o livro seis anos depois, com um prefácio longo.

Capa da primeira edição do Eu, de Augusto dos Anjos, impressa no Rio de Janeiro em 1912.

O Eu, de Augusto dos Anjos, Rio, 1912

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Augusto dos Anjos imprimiu em 1912, no soneto Versos Íntimos, a linha “Vês! Ninguém assistiu ao formidável enterro de tua última quimera”, e quimera ali é o sonho impossível. A frase serve hoje a quem já lançou um projeto para uma sala vazia, e serviu primeiro ao próprio autor.

O volume se chamava Eu e saiu no Rio de Janeiro em junho de 1912. Quem pagou a impressão foi Odilon dos Anjos, irmão do poeta, junto com o próprio Augusto. Nenhuma editora quis apostar num paraibano de 28 anos que escrevia sobre vermes, células e cadáveres.

A crítica da capital torceu o nariz. O vocabulário vinha dos manuais de biologia, com palavras como protoplasma (a matéria viva dentro da célula), e leitores acostumados aos sonetos limpos de Olavo Bilac acharam os versos mórbidos e de mau gosto.

Os exemplares encalharam. Augusto seguia sem emprego fixo no Rio, dando aulas em colégios e em casas de família para sustentar a mulher, Ester Fialho, e os filhos pequenos, Glória e Guilherme.

Em 1914 aceitou dirigir o Grupo Escolar Ribeiro Junqueira, em Leopoldina, na Zona da Mata mineira. Chegou com a família no meio do ano. Em 12 de novembro, uma pneumonia o levou, aos 30 anos.

Deixou um único volume, poucos leitores e uma viúva com duas crianças para criar. Para os jornais do Rio, era um poeta esquisito que passou depressa.

Seis anos depois, um amigo da Paraíba, o escritor Órris Soares, reuniu os poemas do Eu, juntou versos que tinham ficado de fora em 1912 e escreveu para abrir tudo um texto longo, o Elogio de Augusto dos Anjos.

A nova edição saiu em 1920, pela Imprensa Oficial da Paraíba. O prefácio apresentava o amigo como um homem tímido, magro, de voz baixa, que compunha os sonetos de cabeça andando pela casa e só depois os passava para o papel.

O retrato pegou. Quem abria o volume encontrava primeiro a pessoa, e só então os vermes e as células, e os versos deixaram de assustar como antes.

A primeira faixa começa pelo soneto em que o poeta se apresenta ao leitor, catorze versos de química e de dor.

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I  O Poema do Dia

O filho do carbono

A resposta de ontem

Em que hospital do Porto Ângelo de Lima foi internado primeiro?

No Hospital de Alienados do Conde de Ferreira, aberto no Porto em 1883 com a fortuna deixada em testamento pelo Conde de Ferreira. Ângelo de Lima passou por lá ainda nos anos 1890, teve alta e só depois foi levado a Rilhafoles, em Lisboa, onde ficou até 1921.

Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos, nascido em 1884 no engenho Pau d'Arco, na Paraíba, pôs no Eu o soneto Psicologia de um Vencido, o autorretrato mais citado de tudo o que escreveu.

O soneto abre a leitura porque descreve uma pessoa inteira com as palavras de um laboratório, sem pedir pena a ninguém.

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Augusto dos Anjos, Psicologia de um Vencido, Eu, Rio de Janeiro, 1912.

Rutilância é brilho intenso. Epigênese (a formação do embrião, etapa por etapa) é termo de biologia, e aqui marca o começo da vida do poeta.

O primeiro verso faz o retrato pela química. Carbono e amoníaco são matéria comum, a mesma de qualquer corpo vivo ou em decomposição.

No segundo, o poeta junta os dois extremos de si: escuridão e brilho, monstro e estrela. Não escolhe um lado.

O quarto verso traz a astrologia para dentro do laboratório. A má sorte vem dos signos do zodíaco, e o poeta a sofre desde a primeira célula.

De onde vinham as palavras

Augusto estudou Direito no Recife e se formou em 1907. Na faculdade, leu Ernst Haeckel, biólogo alemão que defendia o monismo (a ideia de que mente e matéria são uma substância só), e Herbert Spencer, filósofo inglês da evolução.

Desses livros saíram os termos que a crítica de 1912 achou intragáveis. Nenhum poeta brasileiro da época punha célula, verme e embrião dentro de um soneto.

A forma era a mais clássica possível. São catorze versos de dez sílabas, os decassílabos, com rimas raras e sonoras: amoníaco com zodíaco, rutilância com infância.

O título do volume reforça o gesto. Eu, com uma palavra só, avisava que o assunto seria o corpo e a cabeça do próprio poeta, sem paisagem, sem musa e sem pátria. Em 1912, a escolha soou como arrogância de estreante.

No resto do soneto, o verme aparece como o operário que espera o corpo para roer, e o poeta conversa com ele sem medo.

Órris Soares, no prefácio de 1920, defendeu essa mistura de ciência e forma antiga como a marca própria do amigo, e foi esse argumento que fez o volume ser relido.

Na hora de ler

Diga Eu e pare um segundo inteiro antes do resto do verso.

Leia carbono e amoníaco sem pressa, sílaba por sílaba, como quem lê um rótulo.

 
 

II  Pra Ler no Altar

As catedrais do coração

Num casamento, a página fica com o mesmo Augusto dos Anjos e com Vandalismo, soneto do Eu em que o coração vira uma igreja enorme, cheia de luz.

O soneto serve ao altar porque transforma o peito de quem ama num templo, e o casamento já acontece num.

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Augusto dos Anjos, Vandalismo, Eu, Rio de Janeiro, 1912.

Priscas quer dizer antigas. Nume (uma divindade, um deus menor) é palavra latina que o português guardou.

A segunda estrofe continua a decoração do templo. Há ogivas (os arcos pontudos das igrejas góticas), colunatas, lâmpadas suspensas, ametistas e pratas.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Augusto dos Anjos, Vandalismo, Eu, Rio de Janeiro, 1912.

Lustrais são as águas que purificam. Fúlgida é brilhante.

Repare na ordem das imagens. Primeiro vem o tamanho, as catedrais; depois a idade, as datas antigas; por fim o som, a serenata e a aleluia. Quem ouve monta a igreja na cabeça antes de entender que ela fica dentro de um peito.

Augusto se casou com Ester Fialho em 1910, na Paraíba, dois anos antes da publicação. As catedrais do soneto foram escritas por um homem que sabia o que era subir ao altar.

O cuidado com os tercetos

O título avisa a surpresa. Nos dois tercetos finais, o poeta entra nas catedrais como um templário (cavaleiro das cruzadas) e, no desespero dos iconoclastas (quem destrói imagens sagradas), quebra a imagem dos próprios sonhos.

Para um casamento, o corte é claro: só os dois quartetos. Assim o templo fica de pé, inteiro, iluminado.

• O tom: firme, de quem descreve um lugar que conhece.

• O corte: as duas primeiras estrofes, oito versos.

• O leitor: um dos padrinhos, de frente para os noivos.

Quem conhece o soneto inteiro vai notar a ausência dos tercetos. Para os outros convidados, a imagem acaba na luz das lâmpadas.

Na hora de ler

Diga Meu coração devagar e deixe catedrais imensas soar largo.

Respire antes da segunda estrofe, como quem atravessa a porta da igreja.

 

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III  Pra Dizer Adeus

O filho de sete meses

Numa despedida, a página volta ao Eu e ao soneto que Augusto dos Anjos escreveu em 1911 para o primeiro filho, nascido sem vida aos sete meses de gestação.

O soneto serve ao adeus porque dá ao luto mais pesado a dignidade de uma linguagem exata, sem uma lágrima fácil.

Agregado infeliz de sangue e cal,
Fruto rubro de carne agonizante,
Filho da grande força fecundante
De minha brônzea trama neuronial,

Augusto dos Anjos, Ao Meu Primeiro Filho Nascido Morto com 7 Meses Incompletos, Eu, Rio de Janeiro, 1912.

Agregado é um conjunto de partes. Trama neuronial é a rede de nervos do próprio pai, de onde o filho também veio.

O poeta chama a criança de fruto rubro, vermelho, e de agregado de sangue e cal. A química que assustou a crítica aqui serve para não fugir do corpo.

Na estrofe seguinte, ele pergunta que poder destruiu, na morfogênese (a formação do corpo) do filho, a herança de toda a família.

O casal perdeu o bebê no começo de 1911, um ano depois do casamento. Glória nasceu em 1912 e Guilherme em 1913, e os dois cresceram em Leopoldina e no Rio, criados pela mãe.

Para uma despedida, o soneto ensina a nomear a perda pelo que ela foi. Quem fala não consola; descreve.

O poema também cabe num velório de adulto. Basta ler o primeiro quarteto e trocar a palavra filho, na cabeça, pelo parentesco de quem partiu: a frase sobre sangue, cal e herança continua exata para qualquer família.

O volume depois do poeta

Ester Fialho viveu décadas depois do marido e guardou os papéis dele. Órris Soares precisou dela para montar a edição de 1920.

A edição paraibana circulou no Nordeste e chegou aos leitores do Rio por mão de amigos. Oito anos depois, uma terceira edição carioca se esgotou em poucas semanas.

Daí em diante, o Eu nunca mais ficou fora das livrarias. Hoje está entre os volumes de poesia brasileira mais reimpressos, com leitores que decoram sonetos inteiros.

Na hora de ler

Diga Agregado infeliz em voz baixa, sem drama, como um dado de laudo.

Pare depois de sangue e cal e deixe o quarto verso terminar sem peso.

O poeta não viu nenhuma dessas tiragens.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual livraria do Rio lançou a terceira edição do Eu, em 1928?

 
 
Quiz da edição

Quem pagou a impressão da primeira edição do Eu, em 1912?

AÓrris Soares, amigo da Paraíba
BOdilon dos Anjos, irmão do poeta
CEster Fialho, esposa do poeta
DUma editora do Rio de Janeiro

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