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ED 083
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Em 1911, Pascoaes deu voz à serra do Marão

Teixeira de Pascoaes escreveu Marânus na casa da família em Amarante, onde viveu até os 75 anos.

Serra do Marão ao amanhecer, com névoa sobre o vale e uma casa de pedra na encosta.

A serra do Marão vista de Amarante

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Almeida Garrett abriu o poema Camões, em 1825, com o verso “Saudade! gosto amargo de infelizes”. Oitenta e seis anos depois, em 1911, um advogado de Amarante fez dessa palavra o centro de um livro inteiro, e o livro pôs uma montanha para conversar com quem já tinha partido.

O advogado se chamava Joaquim Pereira Teixeira de Vasconcelos. Assinava Teixeira de Pascoaes, nome tirado da casa onde nasceu em 1877, no lugar de Gatão, a poucos quilômetros do centro de Amarante, no norte de Portugal.

A casa de Pascoaes fica numa encosta virada para a serra do Marão, a montanha de granito que separa o Douro litoral de Trás-os-Montes. Da janela, o poeta via o mesmo cume todas as manhãs.

Ele estudou Direito em Coimbra e abriu escritório. Advogou por cerca de dez anos, entre Amarante e o Porto. Depois fechou a banca, voltou para a casa da família e não morou em nenhum outro lugar até o fim da vida.

Na casa, escreveu quase toda a obra: poemas, livros de ideias sobre Portugal e biografias de São Paulo, de São Jerónimo e de Camilo Castelo Branco.

Marânus saiu em 1911, no Porto. É um poema longo, narrativo, e o herói tem o nome tirado da serra: Marânus é o Marão feito gente, um pastor e poeta que anda pelos montes e ouve as vozes deles.

No livro, falam as pedras, as árvores, as sombras dos mortos e a própria serra. O leitor entra numa paisagem onde a fronteira entre os vivos e os que partiram fica fina como a névoa da manhã sobre o rio Tâmega.

Em 1912, Pascoaes ajudou a fundar no Porto a Renascença Portuguesa, um grupo de escritores, e passou a dirigir a revista A Águia. Ali defendeu o saudosismo (a ideia de que a saudade é o traço mais fundo da alma portuguesa).

A primeira faixa abre Marânus: quem é o herói, o que a serra diz a ele e por que um morto entra na conversa.

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I  O Poema do Dia

A montanha que responde

O poema Marânus, de Teixeira de Pascoaes, foi impresso no Porto em 1911 e nasceu da serra que o poeta via da janela em Gatão, a casa onde passou a vida.

Pascoaes deu à montanha três papéis ao mesmo tempo: mãe do herói, confessora e voz dos mortos.

Saudade! gosto amargo de infelizes,
Delicioso pungir de acerbo espinho,

Almeida Garrett, Camões, canto I, 1825.

Em prosa: a saudade é um gosto amargo de quem sofre e, junto, a picada gostosa de um espinho áspero. Pungir quer dizer picar, ferir com a ponta. Acerbo é áspero, azedo.

Pascoaes herdou essa ideia dos românticos e a levou ao limite. A dor da ausência, que Garrett pôs em dois versos, ganhou em Marânus corpo, lugar e nome de montanha.

Quem é Marânus

O nome do herói junta Marão e uma terminação latina, à moda dos nomes antigos. Marânus é filho espiritual da serra: nasce dela, anda por ela e volta para ela.

Ele é pastor e poeta. Passa os dias nas encostas, entre o gado, os carvalhos e os penedos (grandes blocos de pedra soltos no monte), e escuta a paisagem como quem escuta uma pessoa.

A crítica portuguesa leu nele um retrato do próprio Pascoaes: o homem que largou o escritório da cidade e foi viver com a montanha na janela.

O morto e a serra

No poema, a serra não fica no fundo da cena. Fala, pergunta e responde. Entre as vozes que Marânus ouve está a de um morto, que volta para conversar com a montanha onde viveu.

A conversa não tem susto nem fantasma de lençol. O morto fala com calma, e a serra responde como quem guarda tudo o que passou por ela: a pedra lembra, o carvalho lembra, a névoa lembra.

Para Pascoaes, a saudade fazia essa ponte. Quem parte continua presente na lembrança de quem fica, e a paisagem é a casa onde essa lembrança mora.

O livro tem versos longos, ritmo lento e muitas páginas de descrição: o sol no cume, o vento nos pinhais, o Tâmega correndo ao pé de Amarante.

A crítica do tempo dividiu-se. Uns acharam o poema comprido e nebuloso; outros viram nele o livro em que a saudade deixou de ser só um sentimento e virou uma forma de olhar o mundo, com a paisagem como testemunha.

Na hora de ler

Marânus é longo demais para uma leitura inteira em voz alta. Escolha uma página de paisagem e leia devagar, com pausa no fim de cada verso, como quem descreve a vista de uma janela.

 
 

II  Pra Ler no Altar

Quem ama vira o amado

Para um casamento, a página vai a Luís de Camões, o poeta que os saudosistas da Renascença Portuguesa, com Teixeira de Pascoaes à frente, liam como antepassado.

Os dois versos servem ao altar porque dizem dos noivos o que Marânus diz da serra: quem ama passa a carregar o amado dentro.

Transforma-se o amador na cousa amada,
por virtude do muito imaginar;

Luís de Camões, soneto Transforma-se o amador na cousa amada, Rimas, 1595.

Em prosa: quem ama se transforma naquilo que ama, de tanto pensar nele. Amador, aqui, é quem ama, sem o sentido de hoje (quem pratica algo sem ser profissional). Virtude, no verso, quer dizer força, poder.

Cousa é a grafia antiga de um substantivo que hoje se escreve com oi. Na leitura em voz alta, mantenha a forma de Camões: o som antigo dá ao verso a idade dele.

Camões em Pascoaes

Os saudosistas viam nos sonetos de Camões a saudade antes de ela ganhar nome de movimento. O amor que vive da distância e da imaginação era, para eles, o mesmo sentimento que dava forma à alma do país.

Em Marânus, o pastor faz o movimento do soneto. Olha tanto o Marão que se torna parte dele, e o nome do herói já carrega essa fusão entre o homem e a montanha.

A casa como promessa

A casa de Gatão também tem lição para o altar. O lugar deu nome ao poeta, e o poeta deu ao lugar a fama: hoje quem fala em Pascoaes pensa nos dois ao mesmo tempo.

Num casamento, o verso de Camões diz o mesmo dos noivos, sem exagero. Depois de muito olhar um para o outro, cada um leva o outro consigo, como Marânus leva a serra.

Por que funciona no altar

O soneto fala de união sem prometer eternidade. Quem ouve entende a promessa pela imagem de duas pessoas que se misturam.

• O corte: só os dois primeiros versos do soneto.

• O tom: baixo, quase conversado.

• O leitor: o padrinho ou a madrinha mais antigos do casal.

Na hora de ler

Explique antes, numa frase, que amador quer dizer quem ama. Depois leia os dois versos sem pressa e pare em imaginar, olhando para os noivos.

 

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III  Pra Dizer Adeus

Alma minha gentil

Numa despedida, a página fica com outro soneto de Luís de Camões, o adeus mais conhecido da língua portuguesa e o parente mais próximo da conversa entre o morto e a serra em Marânus, de Teixeira de Pascoaes.

Os versos servem ao adeus porque fazem o que Pascoaes fez com o morto: falam com quem partiu como quem ainda escuta.

Alma minha gentil, que te partiste
tão cedo desta vida, descontente,
repousa lá no Céu eternamente,
e viva eu cá na terra sempre triste.

Luís de Camões, soneto Alma minha gentil, Rimas, 1595.

Em prosa: alma querida, que foste embora cedo demais e sem ter vivido o que querias, descansa no céu para sempre, e eu fico aqui na terra, triste. Gentil, no português de Camões, quer dizer nobre, delicada.

A conversa com quem partiu

O soneto é uma fala dirigida a uma morta. Camões não descreve o luto de fora; conversa com ela, como se a resposta pudesse vir.

A tradição liga o poema a Dinamene, nome poético de uma amada que teria morrido num naufrágio. Nenhum documento confirma quem ela foi, nem se existiu fora dos versos, e os biógrafos tratam a história como lenda.

Pascoaes fez a mesma escolha em Marânus. O morto do poema não é lembrado de longe: volta, fala, e a serra responde. Para o poeta de Gatão, a saudade impedia o adeus de ser completo.

Os últimos anos em Gatão

Pascoaes ficou na casa até o fim. Recebia escritores que subiam do Porto e de Lisboa para visitá-lo, e seguiu escrevendo poemas e livros de ideias até a velhice. Os visitantes contavam da biblioteca cheia e das conversas longas, sempre com a serra no fundo da sala.

O nome dele chegou a ser indicado ao Prêmio Nobel de Literatura, e o prêmio nunca veio.

Morreu em 14 de dezembro de 1952, aos 75 anos, na casa onde tinha nascido. A casa segue de pé, guardada pela família, com a biblioteca e os papéis do poeta.

Na hora de ler

Diga o primeiro verso de uma vez, sem respirar depois de minha.

Faça a pausa só em descontente e deixe sempre triste cair devagar, como quem fala baixo com alguém da família.

O Marão segue na janela.

 
 
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Segundo a edição, quantos anos separam o poema Camões, de Almeida Garrett (1825), do livro Marânus, de Teixeira de Pascoaes (1911)?

A61 anos
B100 anos
C86 anos
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