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Em 1893, Teófilo Braga salvou os poemas soltos de João de Deus

O autor da Cartilha Maternal largava os versos em jornais e cadernos alheios, e um historiador foi buscá-los um por um.

Recortes de jornal antigo com poemas, reunidos sobre uma mesa junto de um livro aberto chamado Campo de Flores.

Poemas recortados de jornais antigos

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Em 1893, Teófilo Braga pôs numa página o verso “Foi-se-me pouco a pouco amortecendo”, de João de Deus, e a linha mostra o que o livro inteiro fazia: guardar uma luz antes que ela apagasse.

O volume se chama Campo de Flores. Saiu em Lisboa, organizado por Teófilo Braga, e juntou poemas escritos ao longo de quatro décadas.

O autor não tinha ajudado muito. João de Deus de Nogueira Ramos, nascido em 1830 em São Bartolomeu de Messines, no Algarve, escrevia versos e os largava onde caíssem.

Muitos foram parar em jornais de Coimbra, de Beja e de Lisboa. Outros ficaram em cadernos de amigos, em álbuns de moças, em folhas copiadas à mão pelos colegas de faculdade.

Em Coimbra, onde entrou para estudar Direito em 1849, ele ficou uma década. Os estudantes sabiam os poemas dele de cor antes de qualquer edição existir.

Ele próprio não fazia questão de imprimir. As primeiras reuniões vieram de outras mãos: Flores do Campo, em 1868, e Ramo de Flores, em 1869, montadas por admiradores.

Em 1876 João de Deus publicou um livro de outra natureza. A Cartilha Maternal ensinava a criança a ler pela sílaba falada, com a palavra inteira na boca desde a primeira lição.

A cartilha correu o país e entrou nas escolas. Por ela, Portugal guardou dele a imagem do homem das primeiras letras.

Teófilo Braga, historiador da literatura e mais tarde presidente da República, achou que a obra lírica não podia ficar dispersa. Saiu à caça dos poemas nas folhas velhas e nos papéis guardados pelos amigos.

O título invertia o das primeiras coletâneas. Flores do Campo virou Campo de Flores: a colheita pequena tinha virado um terreno inteiro.

O livro ficou pronto três anos antes da partida do poeta, em janeiro de 1896, em Lisboa. João de Deus ainda viu a obra reunida em vida.

Na primeira faixa está o soneto que abre a leitura de hoje e o caminho que ele fez até chegar ao livro.

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I  O Poema do Dia

A luz que se apagava

A resposta de ontem

Que poema livrou Basílio da Gama do degredo?

Um epitalâmio, poema de casamento, escrito para as núpcias de Maria Amália, filha do Marquês de Pombal. Preso em Lisboa em 1768 como suspeito de ligação com os jesuítas e condenado ao degredo em Angola, Basílio ganhou com os versos o perdão do ministro e um posto na Secretaria do Reino.

João de Deus de Nogueira Ramos escreveu o soneto que começa em Foi-se-me pouco a pouco amortecendo e o viu circular por anos antes de Teófilo Braga recolhê-lo em Campo de Flores.

O soneto abre a leitura porque conta a perda de quem guiava o poeta com a calma de quem já aceitou.

Foi-se-me pouco a pouco amortecendo
A luz que nesta vida me guiava,
Olhos fitos na qual até contava
Ir os degraus do túmulo descendo.

João de Deus, soneto, Campo de Flores, 1893.

Amortecendo quer dizer perdendo a força, como chama que baixa. A luz do soneto é uma pessoa: a mulher amada, em quem o poeta fixava os olhos.

O quarto verso carrega o plano antigo. Ele contava descer os degraus do túmulo olhando para ela, ou seja, envelhecer ao lado dela até a última hora.

A frase gira em volta de um “na qual” que hoje soa torto. Olhos fitos na qual significa com os olhos presos nela; a ordem invertida é a gramática do soneto clássico.

O metro é o decassílabo (verso de dez sílabas). A rima abraça a estrofe: amortecendo com descendo nas pontas, guiava com contava no meio.

João de Deus escrevia assim, simples na palavra e rigoroso na forma. O vocabulário é de conversa; o trabalho está na medida e na rima.

O segundo quarteto do soneto segue a perda. A luz que guiava se foi, e o poeta descreve o caminho que sobra sem ela, num tom de quem conta e não de quem grita.

Os poemas sem endereço

Versos como esse chegavam ao público pela imprensa. Nos anos 1860 ele morou em Beja, no Alentejo, e trabalhou como redator de jornal.

Também mandava poemas para folhas de Coimbra e de Lisboa, às vezes sem assinatura. Raramente guardava cópia do que enviava.

Sem cópia, cada poema dependia da memória de quem o recebeu ou da sorte de um número de jornal ter sobrevivido numa biblioteca. Alguns versos circulavam em duas ou três versões diferentes.

Em 1868 foi eleito deputado por Silves, no Algarve. Deixou a política pouco depois, sem gosto pelos debates da Câmara.

Teófilo Braga trabalhou como quem monta um quebra-cabeça. Pediu papéis aos amigos do poeta, comparou versões e escolheu a lição (a forma do texto) mais segura.

Campo de Flores reuniu poemas de amor, de fé, de ironia e de circunstância. Muitos leitores viram ali, pela primeira vez, a extensão da obra lírica de João de Deus.

Na hora de ler

Diga Foi-se-me pouco a pouco devagar, uma sílaba atrás da outra.

Segure a voz em Ir os degraus do túmulo descendo, e pare no ponto final.

 
 

II  Pra Ler no Altar

O amador e a amada

Num casamento, a casa entrega a página a Luís Vaz de Camões, o mestre da lírica portuguesa que Teófilo Braga estudou por anos, e ao soneto Transforma-se o amador na cousa amada, das Rimas de 1595.

O soneto serve ao altar porque diz que quem ama passa a carregar a pessoa amada dentro de si.

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho, logo, mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Luís Vaz de Camões, Rimas, 1595.

Amador aqui quer dizer quem ama, sem nenhum sentido de principiante. Cousa é a grafia antiga da palavra que hoje se escreve com oi.

O primeiro verso descreve uma mudança. De tanto imaginar a amada, o amante vira parte dela.

Os dois versos seguintes tiram a conclusão com um logo, de raciocínio. Se a parte desejada já mora nele, nada falta a desejar.

Teófilo Braga dedicou uma vida a Camões. Escreveu a História de Camões nos anos 1870 e organizou em Lisboa as festas do tricentenário do poeta, em 1880.

A mesma mão que estudou Camões juntou Campo de Flores. Para Teófilo, João de Deus continuava a linhagem lírica aberta pelo autor de Os Lusíadas.

Para os noivos, a quadra tem uma virtude: não promete paixão eterna nem riqueza. Fala de duas pessoas que se misturam pelo pensamento.

A ideia vem de longe. Platão, no Banquete (diálogo grego do século IV antes de Cristo), já descrevia o amor como desejo de completar uma metade perdida, e Camões conhecia essa tradição pelos humanistas do Renascimento.

Nos tercetos, a amada aparece como semideia (meio deusa) que mora no pensamento do poeta. O amor procura nela a forma, como a matéria simples busca um molde.

No altar, basta a primeira quadra. Os tercetos pedem a filosofia das escolas medievais, e o convidado perde o fio.

• O tom: sereno, de quem constata.

• O tempo: menos de trinta segundos de leitura.

• O corte: só a primeira quadra.

• O leitor: um padrinho ou uma madrinha.

Na hora de ler

Diga Transforma-se o amador olhando para os dois noivos.

Faça uma pausa antes de Pois em mim tenho, e baixe a voz na última palavra.

 

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III  Pra Dizer Adeus

A escada estreita

Numa despedida, a página vai a Antero de Quental, poeta que também passou por Coimbra na geração de João de Deus, e ao soneto Na mão de Deus, dos Sonetos Completos de 1886.

O soneto serve ao adeus porque termina uma vida de procura numa imagem de repouso.

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Antero de Quental, Na mão de Deus, Sonetos Completos, 1886.

A passo e passo quer dizer degrau por degrau, sem pressa. O poeta não cai: desce.

O palácio encantado da Ilusão é o mundo dos sonhos de moço. O poeta sai dele por uma escada estreita, sozinho, e chega ao chão em paz.

Antero escreveu o soneto no fim de uma vida de dúvida religiosa e filosófica. A mão direita de Deus aparece como lugar de descanso, sem juízo e sem castigo.

No fecho do soneto, ele se compara a uma criança levada ao colo pela mãe numa jornada lôbrega (sombria), atravessando selvas e mares sem medo.

Para um adeus, a imagem acolhe sem pregar. Quem fica ouve que o cansaço acabou e que alguém segura quem partiu.

João de Deus também chegou ao fim cercado de cuidado. Em 8 de março de 1895, dia dos 65 anos dele, Lisboa fez uma homenagem nacional ao poeta, com estudantes e professores nas ruas.

A festa celebrava sobretudo a Cartilha Maternal, que àquela altura já tinha ensinado gerações de portugueses a ler pelo método do poeta. O professor das primeiras letras era também o lírico de Campo de Flores.

Ele partiu em 11 de janeiro de 1896, em Lisboa. O governo português decretou funeral nacional para o autor da Cartilha Maternal.

Na hora de ler

Diga Na mão de Deus devagar, com a voz baixa.

Faça a pausa depois de Descansou afinal, e só então diga meu coração.

O poeta que não guardava os próprios versos teve, no fim, um lugar guardado para ele.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Em que igreja de Lisboa o corpo de João de Deus foi sepultado em 1896?

 
 
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