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Em 1871, Maria Firmina dos Reis cantou à beira-mar

Doze anos depois de Úrsula, a professora primária de Guimarães publicou em São Luís um livro de poemas sobre o mar e a saudade.

Baía de águas rasas ao entardecer, com barcos de pesca encostados no mangue e um livro antigo aberto na margem.

A baía de Cumã, diante da vila de Guimarães

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“Mesquinho e humilde livro é este que vos apresento, leitor.” Maria Firmina dos Reis abriu assim o prólogo de Úrsula, em 1859, e a frase ainda mostra como uma mulher do Maranhão precisava pedir licença para ser lida.

O romance saiu em São Luís sem o nome dela na capa. A assinatura dizia só “uma maranhense”. A cidade tinha jornais, tipografias e um público pequeno, quase todo de homens brancos com dinheiro para comprar livro.

Maria Firmina era mulher, filha de mãe solteira e mestiça. Nascera em São Luís, em 1822, e fora criada na vila de São José de Guimarães, do lado de lá da baía de São Marcos, numa casa de tias e primas.

Aprendeu a ler quase sozinha, com os livros que caíam na mão. Em 1847, aos 25 anos, passou num concurso público para a cadeira de primeiras letras de Guimarães. Virou a professora da vila.

O cargo pagava pouco e exigia muito. A mestra ensinava a ler, escrever e contar a meninas da vila, numa sala com bancos de madeira, giz e cartilha. Em casa, à noite, escrevia.

Doze anos depois do concurso veio Úrsula, o romance que pôs um escravizado para falar da própria dor com voz e nome. Os críticos de hoje leem nele um dos primeiros romances escritos por uma brasileira e um dos primeiros contra a escravidão.

Em 1871, mais doze anos tinham passado. A professora seguia na mesma escola pública e mandou para a tipografia de São Luís um livro de outro gênero: poemas.

O título amarrava a obra ao lugar onde ela vivia. Guimarães fica diante da baía de Cumã, aberta para o Atlântico, com maré grande, mangue e barco de pesca encostado na lama.

O livro se chamou Cantos à beira-mar. Trazia poemas de saudade, de amizade, de fé e de amor, escritos por quem via o mar da janela todo dia antes da aula.

A primeira faixa abre esse mar: o que a poesia do Maranhão cantava antes dela, e onde a professora de Guimarães pôs a própria voz.

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I  O Poema do Dia

O mar da província

Quando Cantos à beira-mar saiu, em 1871, o Maranhão já tinha um poeta famoso no Brasil inteiro: Antônio Gonçalves Dias, nascido em Caxias em 1823, um ano depois de Maria Firmina.

Toda criança alfabetizada na província sabia de cor a canção de Gonçalves Dias, e a professora de Guimarães ensinava a ler com ela por perto.

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Gonçalves Dias, Canção do Exílio, Primeiros Cantos, 1846.

Em prosa: a minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá, e os pássaros deste lugar estrangeiro não cantam como os de lá.

Gonçalves Dias escreveu os versos em Coimbra, em 1843, estudando direito longe de casa. Gorjear é cantar em trinados, como fazem os passarinhos.

A forma da redondilha

Os versos têm sete sílabas poéticas, a medida que os manuais chamam de redondilha maior. É a medida da cantiga de roda, do repente e da quadrinha popular.

Repare na rima. Sabiá rima com lá, e só o segundo e o quarto verso rimam. O ouvido espera o som de volta no fim da estrofe, e ele volta.

Maria Firmina conhecia a medida. Muitos dos poemas de Cantos à beira-mar andam no mesmo passo curto, fácil de decorar, bom para ler em voz alta numa sala de aula.

A voz da professora

O livro dela se abre com uma dedicatória à memória da mãe. Dali em diante, os poemas falam com amigas, com Deus, com o mar e com quem partiu.

A saudade de Gonçalves Dias era a de um estudante em Portugal. A saudade de Maria Firmina era a de quem ficou na vila e viu os outros embarcarem.

Na beira da baía de Cumã, o embarque era rotina. Barcos levavam peixe, farinha e gente para São Luís, e voltavam com cartas, jornais e notícias da capital.

A professora escrevia nesse vaivém. O mar trazia o mundo até a vila e levava embora quem ela amava, e os poemas guardam as duas viagens.

Na hora de ler

Leia a quadra em voz alta e marque as sete sílabas com o dedo na mesa. O sabiá cai na sétima, sempre.

 
 

II  Pra Ler no Altar

O fogo de Camões

Para um casamento, a página vai ao poeta que Maria Firmina e todo leitor de português aprendeu na escola: Luís de Camões, o soneto mais citado da língua.

Os quatro versos servem ao altar porque explicam o amor pelas contradições dele, e cada noivo reconhece uma delas.

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

Luís de Camões, Rimas, 1595.

Em prosa: o amor queima sem chama visível, machuca sem ferida aparente, alegra e inquieta ao mesmo tempo, e enlouquece sem causar dor.

Desatinar é perder o tino, o juízo. Camões morreu em Lisboa em 1580, e o soneto só saiu impresso quinze anos depois, na primeira edição das Rimas.

A figura do paradoxo

Cada verso junta duas ideias opostas: arde e não se vê, dói e não se sente, contenta e descontenta. A retórica chama a figura de paradoxo.

Os poetas do século XIX, Maria Firmina entre eles, cresceram com esse soneto nos livros de leitura. A escola primária do Império ensinava português pelos clássicos, e Camões abria a lista.

Uma lei de 1827 mandou criar escolas de primeiras letras em todas as vilas do Império e incluiu a leitura dos clássicos da língua no programa. A cadeira de Guimarães nasceu dessa lei.

A professora e os versos de cor

Na sala de Guimarães, a lição terminava muitas vezes com um poema decorado. A professora dizia o verso, as meninas repetiam em coro, até a estrofe sair inteira.

O soneto de Camões aguenta a repetição. Tem verbo no presente, palavra comum e ritmo firme de dez sílabas.

O soneto inteiro tem catorze versos e segue no mesmo passo até o fim. Para o altar, a primeira quadra basta: os quatro versos dizem o essencial e cabem num minuto de leitura.

Por que funciona no altar

No altar, o soneto avisa os noivos sem assustar ninguém. Quem casa sabe da alegria; Camões lembra a inquietação junto.

• O corte: só a primeira quadra.

• O tom: firme, com um sorriso no terceiro verso.

• O leitor: um amigo que conhece os dois há anos.

Na hora de ler

Faça uma pausa curta depois de cada ponto e vírgula. Cada verso é uma definição inteira.

Diga “contentamento descontente” devagar, olhando para os noivos. O riso da plateia costuma vir ali.

 

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III  Pra Dizer Adeus

As palmeiras do Sabiá

Numa despedida, a página volta a Gonçalves Dias, à última estrofe da canção que o Maranhão inteiro sabia de cor.

Os versos servem ao adeus porque pedem uma única graça, a de voltar para casa, e quem fica entende o pedido.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Gonçalves Dias, Canção do Exílio, Primeiros Cantos, 1846.

Em prosa: que Deus não me deixe partir deste mundo antes de voltar à minha terra, de provar as belezas dela e de ver de novo as palmeiras onde canta o sabiá.

Primores são as belezas, o que há de melhor. Qu’inda é a forma encurtada de “que ainda”, para caber na medida.

O naufrágio na costa

Em 1864, Gonçalves Dias voltava da Europa, doente, no navio francês Ville de Boulogne. O navio encalhou nos baixios de Atins, perto da costa do Maranhão.

A tripulação e os passageiros se salvaram. O poeta, preso ao leito no camarote, ficou a bordo e se afogou à vista da terra que tinha cantado.

A notícia correu a província. Sete anos depois, o livro de Maria Firmina saiu com o mar no título, e o leitor maranhense de 1871 lembrava daquele navio.

Na despedida, a estrofe pede pouco de quem ouve. Todo mundo já desejou voltar a um lugar, a uma casa ou a uma mesa onde não senta mais. O verso deixa a saudade falar sem nomear ninguém.

Os últimos anos da professora

Maria Firmina se aposentou em 1881. Antes, em 1880, abriu em Maçaricó, perto de Guimarães, uma escola gratuita para meninos e meninas na mesma sala, tida como a primeira escola mista da província.

Em 1888, com a abolição, escreveu um hino à liberdade dos escravizados. Seguiu publicando em jornais de São Luís até a velhice, já quase cega.

Úrsula sumiu das livrarias por um século. Em 1962, o pesquisador Horácio de Almeida achou um exemplar num sebo do Rio, e o romance voltou a ser impresso em 1975.

Na hora de ler

Diga os seis versos de uma vez, sem parar nas vírgulas do meio. A estrofe é uma frase só.

Deixe “Onde canta o Sabiá” sair mais baixo, como quem já está longe.

Maria Firmina dos Reis passou a vida inteira no Maranhão.

Morreu lá em 1917.

 
 
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Quantos anos depois da publicação de Úrsula Maria Firmina dos Reis lançou Cantos à beira-mar, em 1871?

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