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Numa despedida, a página volta a Gonçalves Dias, à última estrofe da canção que o Maranhão inteiro sabia de cor.
Os versos servem ao adeus porque pedem uma única graça, a de voltar para casa, e quem fica entende o pedido.
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Não permita Deus que eu morra, Sem que eu volte para lá; Sem que desfrute os primores Que não encontro por cá; Sem qu’inda aviste as palmeiras, Onde canta o Sabiá.
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Gonçalves Dias, Canção do Exílio, Primeiros Cantos, 1846.
Em prosa: que Deus não me deixe partir deste mundo antes de voltar à minha terra, de provar as belezas dela e de ver de novo as palmeiras onde canta o sabiá.
Primores são as belezas, o que há de melhor. Qu’inda é a forma encurtada de “que ainda”, para caber na medida.
O naufrágio na costa
Em 1864, Gonçalves Dias voltava da Europa, doente, no navio francês Ville de Boulogne. O navio encalhou nos baixios de Atins, perto da costa do Maranhão.
A tripulação e os passageiros se salvaram. O poeta, preso ao leito no camarote, ficou a bordo e se afogou à vista da terra que tinha cantado.
A notícia correu a província. Sete anos depois, o livro de Maria Firmina saiu com o mar no título, e o leitor maranhense de 1871 lembrava daquele navio.
Na despedida, a estrofe pede pouco de quem ouve. Todo mundo já desejou voltar a um lugar, a uma casa ou a uma mesa onde não senta mais. O verso deixa a saudade falar sem nomear ninguém.
Os últimos anos da professora
Maria Firmina se aposentou em 1881. Antes, em 1880, abriu em Maçaricó, perto de Guimarães, uma escola gratuita para meninos e meninas na mesma sala, tida como a primeira escola mista da província.
Em 1888, com a abolição, escreveu um hino à liberdade dos escravizados. Seguiu publicando em jornais de São Luís até a velhice, já quase cega.
Úrsula sumiu das livrarias por um século. Em 1962, o pesquisador Horácio de Almeida achou um exemplar num sebo do Rio, e o romance voltou a ser impresso em 1975.
Na hora de ler
Diga os seis versos de uma vez, sem parar nas vírgulas do meio. A estrofe é uma frase só.
Deixe “Onde canta o Sabiá” sair mais baixo, como quem já está longe.
Maria Firmina dos Reis passou a vida inteira no Maranhão.
Morreu lá em 1917.
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