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Num casamento, a casa entrega a página a Tomás Antônio Gonzaga, o poeta da Inconfidência Mineira, e às liras de Marília de Dirceu, publicadas em Lisboa em 1792.
A lira serve ao altar porque o noivo se apresenta com o que tem, sem fingir riqueza nem poses.
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Eu, Marília, não sou algum vaqueiro, Que viva de guardar alheio gado; De tosco trato, de expressões grosseiro, Dos frios gelos e dos sóis queimado.
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Tomás Antônio Gonzaga, Marília de Dirceu, lira I, 1792.
Gonzaga era o modelo que Magalhães quis deixar para trás. Os árcades (os poetas da Arcádia, que se fingiam pastores) escreviam sob nome de pastor e punham a amada no campo.
Dirceu é o pastor que Gonzaga inventou para si. Marília é Maria Doroteia Joaquina de Seixas, a moça de Vila Rica com quem ele ia se casar.
Mesmo debaixo da máscara, a primeira lira diz uma verdade. O noivo avisa que não é um vaqueiro qualquer, de trato tosco e pele queimada.
Ele tem casa, tem gado próprio, tem ofício. Era ouvidor (o juiz da comarca) em Vila Rica, e fala à noiva como quem apresenta a vida que vai dividir.
A estrofe tem quatro versos de dez sílabas, os decassílabos do soneto e da epopeia. A rima cruza vaqueiro com grosseiro e gado com queimado.
O casamento nunca aconteceu. Em 1789, Gonzaga foi preso como um dos conjurados da Inconfidência e mandado para o degredo em Moçambique.
Lá ele casou com outra mulher, Juliana de Sousa Mascarenhas. Maria Doroteia ficou em Vila Rica e não se casou.
As liras saíram do cárcere e correram o mundo de língua portuguesa. Ganharam edições sucessivas ao longo do século XIX, quando Magalhães já escrevia.
No altar, a estrofe funciona pela franqueza. O noivo diz quem é e quem não é, e a noiva ouve um retrato honesto.
Quem lê para os noivos troca o nome Marília pelo nome da noiva, se o casal quiser. A métrica aguenta nomes de três sílabas.
• O tom: firme, de quem se apresenta.
• O corte: só a primeira estrofe.
• O leitor: alguém da família do noivo.
Na hora de ler
Diga Eu, Marília com uma vírgula longa no meio.
Olhe para a noiva em Que viva de guardar alheio gado, e sorria no verso do sol queimado.
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