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Em 1836, o Romantismo brasileiro saiu de uma gráfica de Paris

Gonçalves de Magalhães imprimiu Suspiros Poéticos e Saudades longe de casa, e a poesia do Brasil mudou de rumo.

Livro antigo aberto sobre mesa de gráfica em Paris, com o título Suspiros Poéticos e Saudades.

Um livro brasileiro numa gráfica de Paris

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Gonçalves de Magalhães escreveu em 1836 a frase “São poesias de um peregrino”, e a linha ainda explica por que a poesia romântica do Brasil nasceu longe do Brasil.

Ela está no prólogo de Suspiros Poéticos e Saudades. O livro saiu em Paris naquele ano, impresso em português numa cidade onde quase ninguém lia a língua.

O autor tinha 25 anos. Era médico formado na corte do Império e estava na França desde 1833, adido à representação diplomática brasileira.

Paris era a capital das letras novas. Nos teatros e nas livrarias, Victor Hugo e Lamartine tinham trocado as regras antigas pela confissão da alma.

Magalhães leu, ouviu e decidiu. O Brasil, independente havia catorze anos, ainda escrevia versos como Portugal ensinava.

Os poetas da colônia usavam pastores, ninfas e deuses gregos. A paisagem era de livro, e o sentimento obedecia a um molde.

O rapaz quis um caminho próprio. Juntou poemas escritos em viagem, diante das ruínas de Roma, no alto dos Alpes, dentro de catedrais góticas.

Somou a eles uma segunda parte, As Saudades. Ali estão a despedida da pátria, a família deixada, a tempestade no mar e o adeus final à Europa.

No mesmo ano, com dois amigos, lançou em Paris a revista Niterói. O livro e a revista chegaram ao Brasil como um recado de quem estava fora.

A história literária guardou a data. Suspiros Poéticos e Saudades é tido como o marco de abertura do Romantismo brasileiro.

O livro não é o mais lido da época. Muitos leitores de hoje nunca abriram uma página dele.

Mesmo assim, ele abriu a porta pela qual passariam os poetas das décadas seguintes. A voz do eu, a fé e a saudade da terra viraram matéria de verso.

O gesto pesa tanto quanto os poemas. Um brasileiro precisou atravessar o oceano para enxergar a própria casa.

Na primeira faixa vêm o prólogo do livro, o poema que abre a obra e o que Magalhães prometeu ao leitor.

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I  O Poema do Dia

A voz que sobe da alma

A resposta de ontem

Em que igreja João de Deus foi sepultado em 1896?

No Mosteiro dos Jerónimos, em Belém, onde terminou o funeral nacional de janeiro de 1896. Em 1966 os restos de João de Deus foram levados para o Panteão Nacional, na Igreja de Santa Engrácia, e lá estão hoje, ao lado de outros nomes grandes de Portugal.

Domingos José Gonçalves de Magalhães nasceu em 13 de agosto de 1811, na capital do Império, e abriu Suspiros Poéticos e Saudades com uma invocação.

O poema abre a leitura porque mostra o poeta procurando a origem da própria voz e achando a resposta dentro do peito.

Quando da noite o véu caliginoso
Do mundo me separa,
E da terra os limites encobrindo,
Vagar deixa minha alma no infinito,
Como um sutil vapor no aéreo espaço;

Gonçalves de Magalhães, Invocação ao Anjo da Poesia, Suspiros Poéticos e Saudades, 1836.

Caliginoso quer dizer escuro, cheio de névoa. A noite cobre o mundo e solta a alma do poeta.

Logo depois, uma voz misteriosa soa em volta dele, como uma flauta debaixo de abóbadas sagradas. O poeta pergunta duas vezes de onde ela vem.

Não é a voz de uma moça à espera do noivo. Também não é o coro dos anjos que recebe uma alma inocente no céu.

A resposta chega no fim da estrofe. Esta voz é minha alma que se espraia, escreve Magalhães: o canto nasce do próprio poeta.

Ali está o programa do livro inteiro. A poesia deixa de imitar modelos e passa a sair do sentimento de quem escreve.

O prólogo e a promessa

O prólogo se chama Lede, a forma antiga de “leiam”. Nele, o autor descreve o livro como poesias escritas segundo as impressões dos lugares.

Ele lista os cenários: as ruínas da antiga Roma, o cimo dos Alpes, a catedral gótica, os ciprestes sobre os túmulos.

Depois promete ao leitor um eco. Quem já se separou dos pais e chorou sobre a campa (a sepultura) de um amigo vai achar nestas folhas um suspiro que combine com o seu.

Quanto à forma, Magalhães avisa que não seguiu ordem fixa de estrofes. Escreveu as ideias como elas vieram, para não destruir o acento da inspiração.

Para um leitor de 1836, a frase soava como heresia. As poéticas da época mandavam medir cada verso pelo molde dos clássicos.

A revista Niterói

A revista saiu em Paris no mesmo 1836, com o subtítulo Revista Brasiliense. Os parceiros eram Manuel de Araújo Porto-Alegre, pintor e poeta, e Francisco de Sales Torres Homem, jornalista.

Teve só dois números. No primeiro, Magalhães publicou o Ensaio sobre a História da Literatura do Brasil, pedindo uma poesia ligada à natureza e à história do país.

Na hora de ler

Diga Quando da noite devagar, como quem apaga a luz.

Faça a pausa antes de Vagar deixa minha alma, e deixe a frase seguir sem pressa.

 
 

II  Pra Ler no Altar

O pastor que não era pastor

Num casamento, a casa entrega a página a Tomás Antônio Gonzaga, o poeta da Inconfidência Mineira, e às liras de Marília de Dirceu, publicadas em Lisboa em 1792.

A lira serve ao altar porque o noivo se apresenta com o que tem, sem fingir riqueza nem poses.

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, de expressões grosseiro,
Dos frios gelos e dos sóis queimado.

Tomás Antônio Gonzaga, Marília de Dirceu, lira I, 1792.

Gonzaga era o modelo que Magalhães quis deixar para trás. Os árcades (os poetas da Arcádia, que se fingiam pastores) escreviam sob nome de pastor e punham a amada no campo.

Dirceu é o pastor que Gonzaga inventou para si. Marília é Maria Doroteia Joaquina de Seixas, a moça de Vila Rica com quem ele ia se casar.

Mesmo debaixo da máscara, a primeira lira diz uma verdade. O noivo avisa que não é um vaqueiro qualquer, de trato tosco e pele queimada.

Ele tem casa, tem gado próprio, tem ofício. Era ouvidor (o juiz da comarca) em Vila Rica, e fala à noiva como quem apresenta a vida que vai dividir.

A estrofe tem quatro versos de dez sílabas, os decassílabos do soneto e da epopeia. A rima cruza vaqueiro com grosseiro e gado com queimado.

O casamento nunca aconteceu. Em 1789, Gonzaga foi preso como um dos conjurados da Inconfidência e mandado para o degredo em Moçambique.

Lá ele casou com outra mulher, Juliana de Sousa Mascarenhas. Maria Doroteia ficou em Vila Rica e não se casou.

As liras saíram do cárcere e correram o mundo de língua portuguesa. Ganharam edições sucessivas ao longo do século XIX, quando Magalhães já escrevia.

No altar, a estrofe funciona pela franqueza. O noivo diz quem é e quem não é, e a noiva ouve um retrato honesto.

Quem lê para os noivos troca o nome Marília pelo nome da noiva, se o casal quiser. A métrica aguenta nomes de três sílabas.

• O tom: firme, de quem se apresenta.

• O corte: só a primeira estrofe.

• O leitor: alguém da família do noivo.

Na hora de ler

Diga Eu, Marília com uma vírgula longa no meio.

Olhe para a noiva em Que viva de guardar alheio gado, e sorria no verso do sol queimado.

 

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III  Pra Dizer Adeus

As margens deixadas

Numa despedida, a página volta a Gonçalves de Magalhães e ao Adeus à Pátria, o segundo poema de As Saudades, datado de 1833, o ano em que ele embarcou para a Europa.

O poema serve ao adeus porque nomeia, uma por uma, os lugares que ficam na margem enquanto o navio parte.

Adeus, ó Pátria amada,
Terra saudosa, onde eu abri meus olhos
Pela vez prima ao sol americano;
Onde nos braços maternais suspenso,
O teu amor co’a vida
No albor dos anos meus fruí gostoso.

Gonçalves de Magalhães, Adeus à Pátria, Suspiros Poéticos e Saudades, 1836.

Pela vez prima quer dizer pela primeira vez. Albor é a primeira luz da manhã, aqui o começo da vida.

A estrofe mistura versos de seis e de dez sílabas. O verso curto respira, o longo carrega a lembrança, e a voz alterna os dois.

Depois do primeiro adeus, o poeta chama as margens do Janeiro, a baía da cidade natal. Diz que se ausenta delas com mágoa e pranto.

Em seguida, ele se despede do céu brilhante, das serras que subiu, das várzeas onde passeava pensando. Cada adeus abre um verso.

Então vêm as torres da igreja onde se confessava. O som dos sinos ainda chega aos ouvidos e acorda lembranças tristes.

Por fim, ele aponta a montanha à beira-mar onde se sentava sozinho. O mesmo mar que olhava dali agora vai levá-lo embora.

Para uma despedida, o poema ensina um caminho. Nomear o que se perde, lugar por lugar, ajuda a voz a atravessar o luto.

Magalhães voltou ao Brasil em 1837. Escreveu teatro, ensinou filosofia e publicou em 1856 o poema épico A Confederação dos Tamoios.

O jovem José de Alencar atacou o épico em cartas de jornal, no mesmo 1856. A briga ficou famosa e marcou a geração seguinte.

Magalhães entrou para a diplomacia de carreira. Representou o Brasil em vários países e recebeu de Dom Pedro II o título de Visconde de Araguaia.

Na hora de ler

Diga Adeus, ó Pátria amada sem pressa, olhando para longe.

Pare antes de No albor dos anos meus e baixe a voz.

O livro de 1836 nasceu de um embarque, e a vida do autor terminou num último embarque.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Em que cidade Gonçalves de Magalhães passou os últimos anos, longe do Brasil outra vez?

 
 
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