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ED 073
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Em 1769, um poeta mineiro contou a guerra dos Sete Povos sem rima

O Uraguai, de Basílio da Gama, saiu em Lisboa com cinco cantos em verso solto e a queda de Sepé Tiaraju dentro dele.

Livro antigo aberto sobre uma mesa, com o título O Uraguai e um mapa das missões ao lado.

Cinco cantos sem rima sobre os Sete Povos

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Camões abriu Os Lusíadas em 1572 com o verso “As armas e os barões assinalados”, e a linha mostra hoje o molde que um poeta mineiro teve coragem de quebrar.

O molde vinha inteiro. Dez cantos, estrofes em oitava rima (oito versos que rimam num esquema fixo) e um herói navegador cantado do primeiro verso ao último.

Por dois séculos, quem quisesse escrever epopeia em língua portuguesa seguia a receita. Contar uma guerra em verso era contar como Camões.

Em 1769, saiu em Lisboa, pela Régia Oficina Tipográfica, um livro fino chamado O Uraguai. Tinha cinco cantos. Não tinha uma rima sequer.

O autor era José Basílio da Gama, nascido em 1741 em Minas Gerais, na comarca do Rio das Mortes. Estudara com os jesuítas no Rio de Janeiro e vivia em Portugal havia pouco.

O assunto era recente. Entre 1754 e 1756, tropas de Portugal e da Espanha marcharam juntas contra os guaranis dos Sete Povos das Missões, as sete aldeias fundadas pelos jesuítas a leste do rio Uruguai.

A guerra nasceu de um papel. O Tratado de Madri, de 1750, entregava aquelas terras a Portugal e mandava os guaranis saírem dali, deixando igrejas, gado e lavouras.

Eles se recusaram. Em 7 de fevereiro de 1756, o chefe guarani Sepé Tiaraju caiu em combate. Três dias depois, na batalha de Caiboaté, a resistência acabou.

Basílio escreveu sobre a guerra uma década depois, a favor do lado vencedor, e dedicou o livro ao irmão do Marquês de Pombal. Mesmo assim, quem sai maior dos cinco cantos são os vencidos.

As notas em prosa que fecham o volume atacam a Companhia de Jesus, expulsa de Portugal em 1759. Nos versos, Sepé e Cacambo falam com mais grandeza do que qualquer general.

Na primeira faixa vêm os versos que abrem o poema, o campo de batalha ainda quente e o homem que resolveu escrever sem rima.

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I  O Poema do Dia

Os lagos de sangue

A resposta de ontem

Que cargo do Estado Augusto Gil ocupou em Lisboa?

Augusto Gil foi diretor-geral das Belas-Artes, o posto do Estado português que cuidava de museus, monumentos e escolas de arte. Conciliou o gabinete em Lisboa com a advocacia e com os livros de versos, e só deixou a capital no fim da vida, quando voltou para a Guarda, onde partiu em 1929.

José Basílio da Gama abriu o primeiro canto de O Uraguai pelo campo de batalha, com os corpos ainda à mostra e a fumaça subindo da praia.

O poema abre a leitura porque entrega a guerra pelo que sobrou dela, sem bandeira e sem glória.

Fumam ainda nas desertas praias
Lagos de sangue tépidos e impuros
Em que ondeiam cadáveres despidos,
Pasto de corvos.

Basílio da Gama, O Uraguai, canto I, 1769.

Tépido quer dizer morno. O sangue ainda está quente quando o leitor chega, e os corpos boiam nus, comida para as aves.

A cena vem antes de qualquer herói. Só depois o poeta conta quem lutou, contra quem e por qual pedaço de terra.

Repare que nenhum verso rima com o seguinte. Praias não chama impuros, despidos não chama corvos.

A abertura também dispensa a invocação às musas, o pedido de ajuda às deusas da poesia que toda epopeia clássica fazia logo nos primeiros versos. Basílio vai direto ao estrago.

O verso solto

Verso solto, ou verso branco, é o verso medido que dispensa a rima. Cada linha tem o decassílabo (verso de dez sílabas contadas até a última tônica) de Camões, livre do eco no final.

A escolha já tinha precedente fora de Portugal. John Milton escrevera o Paraíso Perdido assim em 1667; em português, quase ninguém tinha arriscado numa epopeia.

Sem rima, a frase corre de um verso para o outro. O período da abertura atravessa quatro linhas antes de achar pausa.

O tamanho também encolheu. Os Lusíadas tem dez cantos e 8.816 versos; O Uraguai cabe numa tarde de leitura.

Os críticos de Lisboa estranharam a falta de eco. Os leitores do Brasil, décadas depois, viram no livro a primeira paisagem americana tratada como cenário de epopeia: rios, matas, aldeias e gente da terra.

O que os cinco cantos contam

• Canto I: o general Gomes Freire de Andrade reúne as tropas e relembra o Tratado de Madri.

• Canto II: os chefes Cacambo e Sepé negociam com o general, a conversa falha e Sepé cai na batalha.

• Canto III: Sepé aparece em sonho a Cacambo, que incendeia o acampamento inimigo e volta à aldeia para ser envenenado.

• Canto IV: Lindoia, viúva de Cacambo, é achada no bosque com uma serpente enrolada no corpo.

• Canto V: as tropas entram nas aldeias, e o poeta acusa os jesuítas de terem armado a revolta.

A morte de Sepé no segundo canto segue de perto a história registrada. O chefe guarani cai lutando, e o poema, escrito para o lado vencedor, o trata como guerreiro valente.

Na hora de ler

Leia Fumam ainda devagar, como quem chega tarde a um lugar.

Faça a pausa só em Pasto de corvos, e deixe as três linhas anteriores correrem sem respirar.

 
 

II  Pra Ler no Altar

O fogo que arde sem se ver

Num casamento, a casa volta ao poeta cujo molde Basílio da Gama quebrou: Luís Vaz de Camões, nos sonetos das Rimas, impressas em Lisboa em 1595, quinze anos depois da partida dele.

O soneto serve ao altar porque tenta definir o amor e admite, verso a verso, que não consegue.

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

Luís Vaz de Camões, Amor é fogo que arde sem se ver, Rimas, 1595.

Cada verso junta duas forças que brigam. Fogo invisível, ferida sem dor, alegria descontente.

A figura se chama paradoxo (ideia que parece negar a si mesma). Camões empilha quatro deles em quatro linhas, e nenhum desfaz o outro.

Aqui a rima trabalha. Ver rima com doer, sente rima com descontente, no esquema ABBA (o primeiro verso rima com o quarto, o segundo com o terceiro).

Foi esse fecho sonoro que Basílio recusou na epopeia. No soneto, ele segue firme: a rima segura o ouvido de quem está de pé diante do altar.

O poema continua por mais dez versos. No terceto final, Camões pergunta como o amor pode trazer amizade aos corações, sendo tão contrário a si mesmo.

O soneto deixa a pergunta sem resposta de propósito. A contradição é a definição, e o leitor fica com ela.

Para os noivos, a lição é prática. Ninguém precisa entender o amor para prometê-lo diante da família.

O soneto chegou ao público por mãos alheias. Camões não reuniu a própria lírica em vida, e o editor Fernão Rodrigues Lobo Soropita juntou os poemas que circulavam em cópias para a edição de 1595.

Por isso o texto varia um pouco entre as edições antigas. A versão citada aqui segue a grafia atualizada que as antologias escolares adotaram.

Como dividir a leitura

• Primeira voz: lê os dois quartetos, as estrofes de quatro versos.

• Segunda voz: lê os dois tercetos, as estrofes de três.

• Os noivos: dizem juntos o último verso.

Na hora de ler

Diga Amor é fogo sem pressa, e deixe que arde sem se ver cair um tom abaixo.

Em contentamento descontente, separe as duas palavras com um respiro curto.

 

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III  Pra Dizer Adeus

A serpente no bosque de Lindoia

Numa despedida, a página volta a O Uraguai, de José Basílio da Gama, e ao quarto canto, quando Lindoia, a viúva de Cacambo, é encontrada no bosque com uma serpente enrolada no corpo.

A estrofe serve ao adeus porque olha para quem partiu e acha beleza onde todos esperavam só dor.

Inda conserva o pálido semblante
Um não sei quê de magoado e triste,
Que os corações mais duros enternece.
Tanto era bela no seu rosto a morte!

Basílio da Gama, O Uraguai, canto IV, 1769.

Inda é a forma antiga de ainda. Semblante é o rosto, a expressão de quem está ali.

Lindoia deixou a cobra picar o peito para não se casar com Baldetta, o protegido do padre Balda, o jesuíta que mandara envenenar Cacambo.

Quem a encontra é o irmão, Caitutu. Ele mata a serpente com uma flecha, sem poder salvar a irmã.

O último verso virou o mais citado do poema. A palavra morte chega depois de bela, e a frase termina numa exclamação.

Décadas depois, os românticos brasileiros leram Lindoia como a primeira heroína indígena da poesia do país. Gonçalves Dias e José de Alencar vieram depois dela.

Para uma despedida, a estrofe ensina a olhar o rosto de quem foi. A dor fica nos corações duros; a beleza, no semblante.

A estrofe funciona em velório, em missa de sétimo dia ou numa carta a quem ficou. São quatro versos, e o último pode ser dito sozinho, se a voz falhar.

O verso solto ajuda nessa hora. Sem rima a perseguir, quem lê fala como quem conversa, e a frase final pesa pelo próprio sentido.

Basílio da Gama viveu o resto da vida em Lisboa, onde partiu em 1795. Nunca voltou a Minas Gerais.

Antes do poema, em Roma, ele já tinha entrado para a Arcádia Romana, a academia de poetas que se fingiam pastores, assinando Termindo Sipílio.

Na hora de ler

Diga Inda conserva baixo, quase para si.

Pare antes de Tanto era bela e solte o verso inteiro de uma vez.

O poema que acusava os jesuítas saiu da pena de um ex-aluno deles, preso em Lisboa em 1768 como amigo da ordem e condenado ao degredo em Angola. Ele nunca embarcou.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Que poema livrou Basílio da Gama do degredo em Angola?

 
 
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O Tratado de Madri, que entregou as terras dos Sete Povos a Portugal e mandou os guaranis saírem dali, foi assinado em que ano?

A1756
B1750
C1759
D1769

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