A resposta de ontem Que cargo do Estado Augusto Gil ocupou em Lisboa? Augusto Gil foi diretor-geral das Belas-Artes, o posto do Estado português que cuidava de museus, monumentos e escolas de arte. Conciliou o gabinete em Lisboa com a advocacia e com os livros de versos, e só deixou a capital no fim da vida, quando voltou para a Guarda, onde partiu em 1929. |
José Basílio da Gama abriu o primeiro canto de O Uraguai pelo campo de batalha, com os corpos ainda à mostra e a fumaça subindo da praia.
O poema abre a leitura porque entrega a guerra pelo que sobrou dela, sem bandeira e sem glória.
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Fumam ainda nas desertas praias Lagos de sangue tépidos e impuros Em que ondeiam cadáveres despidos, Pasto de corvos.
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Basílio da Gama, O Uraguai, canto I, 1769.
Tépido quer dizer morno. O sangue ainda está quente quando o leitor chega, e os corpos boiam nus, comida para as aves.
A cena vem antes de qualquer herói. Só depois o poeta conta quem lutou, contra quem e por qual pedaço de terra.
Repare que nenhum verso rima com o seguinte. Praias não chama impuros, despidos não chama corvos.
A abertura também dispensa a invocação às musas, o pedido de ajuda às deusas da poesia que toda epopeia clássica fazia logo nos primeiros versos. Basílio vai direto ao estrago.
O verso solto
Verso solto, ou verso branco, é o verso medido que dispensa a rima. Cada linha tem o decassílabo (verso de dez sílabas contadas até a última tônica) de Camões, livre do eco no final.
A escolha já tinha precedente fora de Portugal. John Milton escrevera o Paraíso Perdido assim em 1667; em português, quase ninguém tinha arriscado numa epopeia.
Sem rima, a frase corre de um verso para o outro. O período da abertura atravessa quatro linhas antes de achar pausa.
O tamanho também encolheu. Os Lusíadas tem dez cantos e 8.816 versos; O Uraguai cabe numa tarde de leitura.
Os críticos de Lisboa estranharam a falta de eco. Os leitores do Brasil, décadas depois, viram no livro a primeira paisagem americana tratada como cenário de epopeia: rios, matas, aldeias e gente da terra.
O que os cinco cantos contam
• Canto I: o general Gomes Freire de Andrade reúne as tropas e relembra o Tratado de Madri.
• Canto II: os chefes Cacambo e Sepé negociam com o general, a conversa falha e Sepé cai na batalha.
• Canto III: Sepé aparece em sonho a Cacambo, que incendeia o acampamento inimigo e volta à aldeia para ser envenenado.
• Canto IV: Lindoia, viúva de Cacambo, é achada no bosque com uma serpente enrolada no corpo.
• Canto V: as tropas entram nas aldeias, e o poeta acusa os jesuítas de terem armado a revolta.
A morte de Sepé no segundo canto segue de perto a história registrada. O chefe guarani cai lutando, e o poema, escrito para o lado vencedor, o trata como guerreiro valente.
Na hora de ler
Leia Fumam ainda devagar, como quem chega tarde a um lugar.
Faça a pausa só em Pasto de corvos, e deixe as três linhas anteriores correrem sem respirar.
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