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O poema de Manuel Botelho de Oliveira se chama “À Ilha de Maré, termo desta cidade da Bahia”. Termo, na língua da época, era o território que respondia a uma cidade; Maré pertencia a Salvador.
Botelho escolheu a silva, a forma mais solta do barroco, para caber uma ilha inteira.
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Jaz em oblíquas formas prolongada a terra de Maré toda cercada de Netuno, que tendo o amor constante, lhe dá muitos abraços por amante.
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Manuel Botelho de Oliveira, À Ilha de Maré, Música do Parnaso, 1705.
Em prosa: a terra de Maré se estende em formas tortas, cercada pelo mar, e o mar, apaixonado e fiel, a abraça muitas vezes, como faz um amante.
Netuno é o deus romano do mar. Jaz quer dizer está deitada, estendida. Oblíquas são as linhas inclinadas, fora do esquadro.
A forma da silva
A silva (poema longo de versos livres na ordem) mistura versos de dez sílabas com versos de seis, sem número fixo de estrofes. As rimas andam em pares, e o poeta decide onde encurtar a linha.
Repare nos quatro versos citados. Os dois primeiros rimam entre si, prolongada com cercada; os dois seguintes também, constante com amante. O ouvido recebe uma rima a cada dois passos, como ondas na praia.
A forma veio da Espanha. Luís de Góngora, poeta de Córdoba morto em 1627, usou a silva nas Soledades, e os poetas do barroco ibérico copiaram o tom: metáfora puxada, palavra rara, verbo deslocado para o fim da frase.
Botelho aprendeu esse estilo em Coimbra e nos livros que chegavam a Salvador. Na Música do Parnaso, quase tudo segue a escola. A ilha de Maré é a página em que a escola encontra a terra dele.
As frutas em fila
Depois do mar, o poema faz um inventário. Passam os peixes, os mariscos, as hortaliças e, sobretudo, as frutas: laranjas, limões, uvas, melões, bananas, cocos e o ananás (o abacaxi).
A ordem segue o caminho de quem desembarca. Primeiro a praia e o peixe da rede, depois o quintal, por fim o pomar. O leitor atravessa a ilha a pé, de barriga cheia.
Cada fruta ganha a sua estrofe e o seu elogio. O ananás aparece como rei das frutas, coroado pela própria folhagem.
A crítica leu nesse catálogo um dos primeiros sinais de orgulho da terra na poesia escrita aqui. O poeta compara as frutas da Bahia às da Europa, e as da Bahia ganham.
Na hora de ler
Leia os dois primeiros versos de uma vez, sem parar no fim da linha. A frase só termina em amante, e a voz precisa chegar lá com fôlego.
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