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Em 1705, um baiano pôs a ilha de Maré em verso

Manuel Botelho de Oliveira foi o primeiro nascido no Brasil a publicar um livro de poemas em vida, impresso em Lisboa.

Livro antigo aberto com um poema impresso, ao lado de laranjas e de um abacaxi sobre a mesa.

Um livro de poemas impresso em Lisboa em 1705

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Manuel Botelho de Oliveira imprimiu em 1705 os versos “Jaz em oblíquas formas prolongada / a terra de Maré toda cercada”. Mais de três séculos depois, a dupla ainda serve de mapa: quem olha a ilha numa foto de satélite vê a mesma terra comprida e torta, presa na água da baía de Todos os Santos.

O livro se chamava Música do Parnaso e saiu de uma oficina tipográfica de Lisboa. O autor tinha 69 anos. Nascera em Salvador em 1636, estudara leis em Coimbra e voltara à Bahia como advogado, vereador da Câmara e capitão-mor (o chefe das tropas de moradores de um distrito).

A viagem do livro até a prensa explica o atraso. A colônia não tinha tipografia: a Coroa proibia imprimir no Brasil, e a proibição durou até 1808, quando a Impressão Régia desembarcou no Rio de Janeiro com a corte.

Um poeta da Bahia mandava o manuscrito pelo Atlântico, esperava a licença do Santo Ofício e do Desembargo do Paço (os censores da Igreja e do rei) e só então via o volume pronto.

Outro poema impresso já falava do Brasil. A Prosopopeia, de Bento Teixeira, saiu em Lisboa em 1601, mas Bento Teixeira nasceu no Porto. Gregório de Matos, baiano como Botelho, morreu em 1696 sem ver um verso seu na prensa; os poemas dele correram em cópias de mão.

Por esse caminho, o título de primeiro fica com Manuel Botelho de Oliveira.

A obra vinha dividida em quatro coros (quatro partes) de rimas: portuguesas, castelhanas, italianas e latinas. No fim, duas comédias em espanhol. A dedicatória ia para o Duque de Cadaval, um dos homens mais poderosos da corte de Lisboa.

Entre sonetos para uma dama chamada Anarda e madrigais (poemas curtos de amor, à moda italiana), um poema destoa do resto: a ilha de Maré, com o mar, os peixes e as frutas da Bahia postos em fila.

A primeira faixa abre essa ilha: como Botelho mediu a terra em versos de dez e de seis sílabas, e por que escolheu um pedaço de chão a poucas léguas de casa.

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I  O Poema do Dia

A ilha medida em silva

O poema de Manuel Botelho de Oliveira se chama “À Ilha de Maré, termo desta cidade da Bahia”. Termo, na língua da época, era o território que respondia a uma cidade; Maré pertencia a Salvador.

Botelho escolheu a silva, a forma mais solta do barroco, para caber uma ilha inteira.

Jaz em oblíquas formas prolongada
a terra de Maré toda cercada
de Netuno, que tendo o amor constante,
lhe dá muitos abraços por amante.

Manuel Botelho de Oliveira, À Ilha de Maré, Música do Parnaso, 1705.

Em prosa: a terra de Maré se estende em formas tortas, cercada pelo mar, e o mar, apaixonado e fiel, a abraça muitas vezes, como faz um amante.

Netuno é o deus romano do mar. Jaz quer dizer está deitada, estendida. Oblíquas são as linhas inclinadas, fora do esquadro.

A forma da silva

A silva (poema longo de versos livres na ordem) mistura versos de dez sílabas com versos de seis, sem número fixo de estrofes. As rimas andam em pares, e o poeta decide onde encurtar a linha.

Repare nos quatro versos citados. Os dois primeiros rimam entre si, prolongada com cercada; os dois seguintes também, constante com amante. O ouvido recebe uma rima a cada dois passos, como ondas na praia.

A forma veio da Espanha. Luís de Góngora, poeta de Córdoba morto em 1627, usou a silva nas Soledades, e os poetas do barroco ibérico copiaram o tom: metáfora puxada, palavra rara, verbo deslocado para o fim da frase.

Botelho aprendeu esse estilo em Coimbra e nos livros que chegavam a Salvador. Na Música do Parnaso, quase tudo segue a escola. A ilha de Maré é a página em que a escola encontra a terra dele.

As frutas em fila

Depois do mar, o poema faz um inventário. Passam os peixes, os mariscos, as hortaliças e, sobretudo, as frutas: laranjas, limões, uvas, melões, bananas, cocos e o ananás (o abacaxi).

A ordem segue o caminho de quem desembarca. Primeiro a praia e o peixe da rede, depois o quintal, por fim o pomar. O leitor atravessa a ilha a pé, de barriga cheia.

Cada fruta ganha a sua estrofe e o seu elogio. O ananás aparece como rei das frutas, coroado pela própria folhagem.

A crítica leu nesse catálogo um dos primeiros sinais de orgulho da terra na poesia escrita aqui. O poeta compara as frutas da Bahia às da Europa, e as da Bahia ganham.

Na hora de ler

Leia os dois primeiros versos de uma vez, sem parar no fim da linha. A frase só termina em amante, e a voz precisa chegar lá com fôlego.

 
 

II  Pra Ler no Altar

O mar que abraça a terra

Para um casamento, a página fica com a imagem central do poema de Manuel Botelho de Oliveira: o mar que cerca a ilha de Maré e a abraça sem cansar.

Os dois versos servem ao altar porque descrevem um amor que volta todo dia, na maré seguinte.

de Netuno, que tendo o amor constante,
lhe dá muitos abraços por amante.

Manuel Botelho de Oliveira, À Ilha de Maré, Música do Parnaso, 1705.

Constante, no verso, é a palavra de peso. O mar de Botelho não abraça a ilha uma vez, num arroubo. Abraça muitas vezes, porque o amor dele dura.

A imagem tem lastro no mundo. A maré sobe e desce duas vezes por dia na baía de Todos os Santos, e a cada subida a água cobre de novo a areia da ilha. O poeta transformou o horário das águas em promessa.

O nome da ilha

O nome Maré já carrega o movimento. O poeta brinca com essa coincidência: a ilha se chama como o fenômeno que a abraça.

Os barrocos adoravam esse tipo de jogo, em que o nome de um lugar vira argumento do poema. Botelho usa o recurso sem explicar, e o leitor da Bahia, que conhecia a ilha, pegava a graça na primeira leitura.

Anarda, a outra amada

Na mesma Música do Parnaso, Botelho escreveu dezenas de poemas para Anarda, nome poético de uma dama. Nenhum documento conhecido diz quem ela foi, ou se existiu fora do papel: os biógrafos não encontraram registro, e o nome segue a moda pastoril, em que poetas davam às amadas nomes inventados.

Os poemas a Anarda brilham pelo engenho e são frios na emoção. O abraço do mar na ilha de Maré soa mais terno. O poeta parece mais apaixonado pela paisagem.

Por que funciona no altar

No altar, os dois versos falam de fidelidade sem usar a palavra. Quem ouve entende a promessa pela imagem.

• O corte: só os dois versos de Netuno.

• O tom: firme, sem pressa.

• O leitor: alguém criado perto do mar.

Na hora de ler

Explique antes, numa frase, quem é Netuno: o mar. Depois diga os dois versos olhando para o casal.

Segure um instante a palavra constante e deixe amante sair por último, mais baixo.

 

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III  Pra Dizer Adeus

O doce clarificado

Numa despedida, a página volta a Manuel Botelho de Oliveira e às laranjas da ilha de Maré, o trecho mais saboroso do poema.

Os versos servem ao adeus porque guardam o gosto de um lugar na voz de quem o amou a vida inteira.

As laranjas da terra
poucas azedas são, antes se encerra
tal doce nestes pomos,
que o têm clarificado nos seus gomos.

Manuel Botelho de Oliveira, À Ilha de Maré, Música do Parnaso, 1705.

Pomos são frutos redondos. Clarificar é palavra dos engenhos de açúcar: limpar o caldo da cana no fogo até ele ficar claro e puro.

Em prosa: as laranjas daqui quase nunca são azedas; guardam um doce tão limpo que parece ter passado pela caldeira do engenho, gomo por gomo.

A fruta e o engenho

A comparação não veio por acaso. No século XVII, o Recôncavo baiano vivia do açúcar, e o poeta cresceu entre fazendas que mandavam caixas de açúcar para Lisboa.

Botelho pegou o vocabulário do trabalho mais rico da Bahia e o pôs dentro de uma laranja. O leitor de Salvador sentia o cheiro da caldeira no verso.

Numa despedida, a imagem pede pouco de quem ouve. Todo mundo conhece uma laranja doce, e todo mundo guarda o sabor de uma mesa onde já não senta. O poema deixa a saudade entrar pela boca.

Os últimos anos

Botelho viu o livro impresso aos 69 anos. Seguiu na Bahia, entre a advocacia, a Câmara e as propriedades da família.

Deixou outra obra em manuscrito, a Lyra Sacra, de poemas religiosos. Ela ficou mais de dois séculos e meio guardada e só chegou ao prelo em 1971.

A Música do Parnaso também sumiu de circulação por muito tempo. Exemplares raros sobreviveram em bibliotecas, e a ilha de Maré voltou às antologias brasileiras no século XIX, quando os românticos procuravam os primeiros poetas da terra.

Na hora de ler

Diga “As laranjas da terra” como quem oferece uma fruta na mão.

Faça a pausa depois de “poucas azedas são” e deixe “nos seus gomos” cair devagar.

Manuel Botelho de Oliveira não voltou mais a Lisboa.

Morreu em Salvador em 1711.

 
 
 

Quiz da edição

Por que o título de primeiro poeta nascido no Brasil a publicar um livro de poemas em vida fica com Manuel Botelho de Oliveira, e não com Bento Teixeira ou Gregório de Matos?

APorque a Prosopopeia foi publicada depois da Música do Parnaso
BPorque Bento Teixeira nasceu no Porto, e Gregório de Matos morreu sem ver seus poemas impressos
CPorque Gregório de Matos recebeu proibição do Santo Ofício para imprimir
DPorque Bento Teixeira escreveu suas comédias em espanhol

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