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Em 1601, Lisboa imprimiu um poema de Pernambuco

A Prosopopeia louvou o senhor de Pernambuco em oitavas à maneira de Camões e saiu da prensa sem o autor.

Folha de rosto de um livro antigo impresso, ao lado de um mapa da costa de Pernambuco.

Um poema épico impresso em Lisboa em 1601

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“As armas e os barões assinalados”, escreveu Luís de Camões em 1572, no primeiro verso de Os Lusíadas. Trinta anos depois, um professor de latim de Pernambuco usou essa abertura como molde para cantar um homem só.

O professor se chamava Bento Teixeira. O poema se chamava Prosopopeia e saiu de uma oficina de Lisboa em 1601, impresso por António Álvares, em pouco mais de vinte folhas.

Prosopopeia é o nome grego de uma figura de retórica: dar voz a quem não fala. No poema, quem fala é Proteu, o deus do mar que conhece o futuro. Ele sobe das águas e anuncia os feitos da família Albuquerque.

O herói era Jorge de Albuquerque Coelho, filho de Duarte Coelho, o primeiro donatário de Pernambuco. Donatário era o senhor de uma capitania, um pedaço de costa que o rei de Portugal entregava a uma família para povoar e defender.

Jorge tinha lutado na África ao lado do rei Dom Sebastião, em Alcácer-Quibir, em 1578. Saiu ferido da batalha, foi preso pelos mouros e voltou a Portugal resgatado. Bento Teixeira transformou essa história em matéria de epopeia.

A forma vinha inteira de Camões: a oitava rima, oito versos de dez sílabas, com as rimas na ordem ABABABCC. O poema tem 94 dessas estrofes.

O autor não acompanhou a impressão. Nascido no Porto por volta de 1561, chegou menino ao Brasil, numa família de cristãos-novos (judeus convertidos à força ao catolicismo). Cresceu na Bahia e foi ensinar gramática e latim em Pernambuco.

Em 1593, chegou a Olinda um visitador do Santo Ofício, o tribunal da Inquisição. Bento Teixeira foi denunciado por práticas judaicas, preso e mandado para Lisboa em 1595.

Passou cinco anos nos cárceres da Inquisição. Confessou, abjurou num auto de fé e não saiu mais da prisão. Em julho de 1600, o processo dele terminou com o nome riscado da lista dos vivos.

No ano seguinte, a Prosopopeia ganhou a prensa, com dedicatória ao mesmo Jorge de Albuquerque.

A primeira faixa abre a estrofe de entrada: como Bento Teixeira pegou a voz de Camões e a pôs a serviço de um senhor de engenho.

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I  O Poema do Dia

Cantem Poetas o Poder Romano

A estrofe de abertura da Prosopopeia segue o costume da epopeia: o poeta afasta os cantores antigos para abrir espaço ao herói dele.

Bento Teixeira dispensa Roma e Troia em seis versos e chama Pernambuco para o palco.

Cantem Poetas o Poder Romano,
Sobmetendo Nações ao jugo duro;
O Mantuano pinte o Rei Troiano,
Descendo à confusão do Reino escuro;
Que eu canto um Albuquerque soberano,
Da Fé, da cara Pátria firme muro,
Cujo valor e ser, que o Céu lhe inspira,
Pode estancar a Lácia e Grega lira.

Bento Teixeira, Prosopopeia, estrofe I, 1601.

Em prosa: os poetas cantem o poder de Roma, que dobrou povos inteiros; Virgílio pinte Eneias descendo ao inferno; eu canto um Albuquerque, muralha da fé e da pátria, cujo valor basta para calar a poesia latina e a grega.

O Mantuano é Virgílio, nascido perto de Mântua. O Rei Troiano é Eneias, herói da Eneida. A Lácia lira é a poesia do Lácio, a região de Roma.

O molde de Camões

Camões fez o mesmo gesto. Na estrofe 3 do canto primeiro de Os Lusíadas, mandou cessar as navegações do sábio grego e do troiano, porque o peito ilustre lusitano pedia outro canto.

Bento Teixeira copiou a jogada e trocou a escala. Camões cantava um povo inteiro e a viagem de Vasco da Gama. Bento canta uma família, numa capitania do Nordeste.

A troca diz muito sobre o lugar. Pernambuco, em 1600, era a capitania mais rica do Brasil, com dezenas de engenhos de açúcar em volta de Olinda. Um poema para o senhor da terra era também um pedido de proteção.

A rima em oito passos

Leia as rimas no fim de cada verso: Romano, duro, Troiano, escuro, soberano, muro. Seis versos alternados em duas rimas, e um par final novo, inspira com lira.

O par final fecha a estrofe como uma porta. Camões fazia assim em todas as 1.102 oitavas de Os Lusíadas, e Bento repete o compasso nas 94 dele.

A crítica do século XIX tratou o poema com dureza: imitação fraca, verso duro, bajulação ao patrono. Mesmo assim, a Prosopopeia ficou nas histórias da literatura como o primeiro poema impresso a falar do Brasil a partir do Brasil.

Na hora de ler

Leia os quatro primeiros versos num tom mais baixo, quase de lado. Suba a voz em “Que eu canto um Albuquerque soberano”, onde o poeta entra em cena.

 
 

II  Pra Ler no Altar

Um porto tão quieto e tão seguro

Para um casamento, a página fica com a descrição do Recife, o trecho mais citado da Prosopopeia, em que Proteu mostra o porto natural de Pernambuco.

Os quatro versos servem ao altar porque falam de um lugar onde o barco chega e pode ficar.

Junto da nova Lusitânia ordena
A natureza, mãe bem atentada,
Um porto tão quieto e tão seguro,
Que pera as curvas Naus serve de muro.

Bento Teixeira, Prosopopeia, estrofe XVII, 1601.

Em prosa: perto da nova terra portuguesa, a natureza, mãe cuidadosa, arrumou um porto tão calmo e tão seguro que serve de muralha para os navios de casco curvo.

Nova Lusitânia era o nome oficial da capitania de Pernambuco. Pera é a forma antiga de para. As naus eram os navios grandes da carreira das Índias.

O recife de pedra

O muro do poema existe. Diante da costa, uma linha comprida de arrecifes de arenito corre paralela à praia e quebra as ondas antes de chegarem à terra.

Atrás dessa barreira, a água fica mansa. Ali os navios ancoravam para carregar açúcar, e dali nasceu o povoado que daria nome à cidade do Recife.

Bento Teixeira viu esse porto com os próprios olhos. A estrofe tem a precisão de quem embarcou e desembarcou ali muitas vezes.

Três séculos depois, a pedra continua no mesmo lugar. Quem caminha pelo Marco Zero do Recife na maré baixa vê a linha escura dos arrecifes fora da praia, com o farol na ponta, exatamente onde o poema a deixou.

Por que funciona no altar

No altar, o porto fala de abrigo sem dizer a palavra amor. Quem ouve entende a promessa pela paisagem: um lugar onde a tempestade fica do lado de fora.

• O corte: os quatro versos do porto.

• O tom: calmo, de quem descreve um lugar conhecido.

• O leitor: alguém do Recife, ou alguém que mora perto do mar.

A palavra atentada pede um cuidado. Hoje soa como agressão, mas em 1601 queria dizer atenta, cuidadosa. Vale explicar antes, numa frase.

Na hora de ler

Diga “tão quieto e tão seguro” devagar, com uma pausa curta entre as duas metades.

Termine em muro olhando para o casal, sem pressa de sair do verso.

 

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III  Pra Dizer Adeus

Onde o Céu mais serena

Numa despedida, a página volta à mesma estrofe do Recife e fica com os quatro versos de abertura, os que olham para o céu do Sul.

Os versos servem ao adeus porque guardam a calma de um céu visto por alguém que não voltou a ele.

Pera a parte do Sul, onde a pequena
Ursa se vê de guardas rodeada,
Onde o Céu luminoso mais serena
Tem sua influição, e temperada;

Bento Teixeira, Prosopopeia, estrofe XVII, 1601.

Em prosa: para o lado do Sul, onde a Ursa Menor aparece cercada das estrelas que a guardam, onde o céu claro derrama a sua influência mais serena e mais branda.

Influição é influência, palavra da astrologia da época: os astros agiam sobre a terra e sobre as pessoas. Temperada quer dizer suave, sem excesso de calor ou de frio.

O céu do cárcere

A Prosopopeia saiu da prensa quando o autor já estava fora do alcance de qualquer céu. Bento Teixeira escreveu ou terminou parte do poema nos anos de prisão, longe de Pernambuco.

Os estudiosos discutem a data da composição. Uma parte pode ter nascido em Olinda, antes da denúncia; outra, nos cárceres de Lisboa, onde o preso tinha papel e tempo.

Lido nessa chave, o céu temperado do Sul ganha outro peso. É o céu de uma terra que o poeta não tornou a ver.

O que ficou do autor

O processo de Bento Teixeira sobreviveu no arquivo da Torre do Tombo, em Lisboa. Pelas confissões dele, os historiadores refizeram a vida: a infância na Bahia, as aulas em Olinda, o refúgio no mosteiro de São Bento.

Durante séculos, ninguém ligou o réu do processo ao poeta da Prosopopeia. A ligação apareceu no século XX, quando pesquisadores cruzaram os papéis da Inquisição com o nome impresso na folha de rosto.

Numa despedida, os versos pedem pouco de quem ouve. Todo mundo guarda um céu de onde partiu.

Na hora de ler

Leia os dois primeiros versos de uma vez, sem parar em pequena: a frase só fecha em rodeada.

Faça a pausa depois de serena e deixe temperada cair baixo, no fim do fôlego.

Bento Teixeira nunca viu o livro.

 
 
 

Quiz da edição

Quantas oitavas rimadas compõem a Prosopopeia, impressa em Lisboa em 1601?

A100 oitavas, um número redondo para abrir a epopeia
B94 oitavas, no mesmo compasso de rimas de Camões
C1.102 oitavas, as mesmas de Os Lusíadas
D8 oitavas, um poema curto de homenagem

Veja o ranking de quem mais acerta →

 

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