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Em 1526, Sá de Miranda voltou da Itália com o soneto

Depois de cinco anos entre poetas italianos, um jurista de Coimbra ensinou Portugal a contar dez sílabas por verso.

Folha manuscrita do século XVI com um soneto em português copiado à mão, ao lado de um livro italiano aberto.

Um soneto copiado à mão no século XVI

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Francisco de Sá de Miranda deixou em redondilha os versos “Comigo me desavim, / sou posto em todo perigo”, impressos nas Obras de 1595. A frase ainda descreve qualquer pessoa que volta de uma longa viagem e já não cabe direito no próprio país.

Em 1521, o jurista nascido em Coimbra deixou as aulas de leis em Lisboa e partiu para a Itália. Tinha quarenta anos, alguns poemas no Cancioneiro Geral de 1516 e o ouvido treinado nas cantigas do paço. Era doutor em leis e filho de um cónego da Sé de Coimbra.

A poesia portuguesa daquele tempo andava em redondilha (o verso curto, de sete ou cinco sílabas, fácil de cantar). Era a medida das trovas de serão, dos motes respondidos em roda, das cantigas que um fidalgo decorava na primeira audição.

Na Itália, Sá de Miranda encontrou outra música. Em Roma, Florença, Veneza e Nápoles, os poetas escreviam em versos de dez sílabas e arrumavam o pensamento em formas fixas herdadas de Francesco Petrarca, o poeta toscano do século XIV.

Ficou cerca de cinco anos. Frequentou o círculo de Vittoria Colonna, poeta romana que ele tratava como parente, porque os Sá diziam descender da família Colonna. Os biógrafos antigos registram também encontros com Jacopo Sannazaro, em Nápoles.

Em 1526 estava de volta, com a bagagem cheia de formas novas: o soneto, a canção, a écloga (o poema de pastores em diálogo), o terceto e a oitava. Os portugueses chamaram o conjunto de medida nova, para separar da medida velha das redondilhas.

A troca custou. Os versos novos soavam estranhos a quem tinha crescido nos serões, e o próprio poeta continuou escrevendo nas duas medidas pelo resto da vida.

A primeira faixa abre a caixa que ele trouxe: como se monta um soneto, de onde veio a forma e o que dez sílabas mudaram na respiração do verso.

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I  O Poema do Dia

Catorze versos de Petrarca

O soneto que Francisco de Sá de Miranda levou para Portugal tem catorze versos de dez sílabas, divididos em quatro estrofes: dois quartetos (estrofes de quatro versos) e dois tercetos (estrofes de três).

A forma obriga o poeta a propor, desenvolver e resolver uma ideia inteira em catorze linhas.

Voi ch'ascoltate in rime sparse il suono
di quei sospiri ond'io nudriva 'l core

Francesco Petrarca, Canzoniere, soneto 1, c. 1374.

Em prosa, os dois versos dizem: vocês que ouvem, em rimas espalhadas, o som dos suspiros com que eu alimentava o coração.

Petrarca abre o livro assim, falando direto ao leitor. A expressão rime sparse (rimas soltas) virou um dos títulos do próprio Canzoniere (o cancioneiro), que ele revisou até os últimos anos de vida.

O livro reúne 366 poemas, e 317 deles são sonetos. A forma era mais antiga que Petrarca. Nasceu no século XIII, na corte siciliana de Frederico II, e a tradição atribui os primeiros sonetos ao notário Giacomo da Lentini.

Foi o modelo que os italianos do tempo de Sá de Miranda imitavam, discutiam e corrigiam nas academias de Florença e de Roma.

A conta das sílabas

Na redondilha maior, o ouvido conta sete sílabas até a última tônica. No decassílabo (o verso de dez sílabas), conta dez, com acento forte na sexta sílaba, ou na quarta e na oitava.

Três sílabas a mais mudam a frase. Sete sílabas cabem numa respiração e pedem rima rápida. Dez deixam espaço para uma oração inteira, um adjetivo a mais, uma pausa no meio do verso.

As rimas também seguem desenho fixo. Nos quartetos, o molde italiano usa o esquema ABBA ABBA; nos tercetos, combinações como CDE CDE ou CDC DCD.

Sá de Miranda testou a forma em português nos anos seguintes à volta. Os sonetos dele circularam em cópias de mão durante décadas, porque as Obras só chegaram à prensa em 1595, 37 anos depois da sua morte.

Quem continuou

A medida nova pegou nos discípulos. António Ferreira escreveu sonetos e a tragédia Castro; Diogo Bernardes publicou O Lima em 1596.

Luís de Camões deixou os sonetos mais lidos da língua, reunidos nas Rimas de 1595. O “Amor é fogo que arde sem se ver” segue o molde que Sá de Miranda ensaiou: catorze decassílabos, dois quartetos, dois tercetos.

Na hora de ler

Leia um soneto contando os quatro blocos. Faça uma pausa curta entre os quartetos e uma pausa maior antes do primeiro terceto, onde a ideia costuma dobrar.

 
 

II  Pra Ler no Altar

O sonho de olhos abertos

Para um casamento, a página fica com um soneto de amor de Francisco de Sá de Miranda, escrito na medida nova que ele trouxe da Itália.

O soneto serve ao altar porque descreve o espanto de quem olha a pessoa amada e mal acredita no que vê.

Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho,
e vejo o que não vi nunca, nem cri
que houvesse cá, recolhe-se a alma a si
e vou tresvaliando, como em sonho.

Francisco de Sá de Miranda, soneto, Obras, 1595.

Tresvaliar é a forma antiga de desvairar, perder o juízo por um momento. Cri é o passado de crer, acreditar; cá quer dizer aqui, neste mundo.

O primeiro quarteto conta uma cena simples. O poeta olha a dama e vê uma beleza que nunca tinha visto nem imaginava existir na terra.

A reação vem no terceiro e no quarto versos. A alma se recolhe, como quem fecha a porta para guardar o que acabou de receber, e o resto do corpo anda como em sonho.

Repare na pontuação. O quarteto é uma frase só, que corre do primeiro ao quarto verso sem ponto final. O decassílabo aguenta essa respiração longa; numa redondilha, a frase teria de quebrar em mais pedaços.

A imagem vem da escola de Petrarca, em que a amada aparece como presença quase divina e o amante fica sem palavras diante dela. Sá de Miranda aprendeu o tom na Itália e o passou para o português sem enfeite.

A mulher da Tapada

Depois de se recolher ao Minho, Sá de Miranda casou com Briolanja de Azevedo. Uma tradição registrada pelos primeiros biógrafos conta que ela não tinha fama de bonita e que ele respondia ter escolhido pelo juízo.

O casal viveu na Quinta da Tapada, perto de Amares. Ali o poeta recebeu do rei D. João III a comenda das Duas Igrejas (uma renda paga por uma ordem militar).

Viveram juntos cerca de duas décadas. Briolanja morreu em 1555, e o poeta escreveu versos de luto por ela.

Por que funciona no altar

No altar, o soneto entrega uma declaração sem promessa de futuro. Fala só do instante em que os olhos encontram a pessoa.

• O corte: só o primeiro quarteto.

• O tom: lento, em voz baixa.

• O leitor: alguém da família de quem casa.

Na hora de ler

Diga “Quando eu, senhora” olhando para o casal, e faça a pausa depois de “nem cri”.

Deixe “como em sonho” sair mais devagar que o resto.

 

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III  Pra Dizer Adeus

A água que acorda

Numa despedida, a página volta a Francisco de Sá de Miranda e ao soneto mais citado dele, escrito diante de uma queda de água no calor do verão.

O soneto serve ao adeus porque olha para o que passa sem gritar contra a perda.

O sol é grande, caem co'a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que sói ser fria;
esta água que d'alto cai acordar-m'-ia
do sono não, mas de cuidados graves.

Francisco de Sá de Miranda, soneto, Obras, 1595.

Calma, no português antigo, é o calor forte do meio-dia. Sazão é estação do ano, e sói quer dizer costuma.

O primeiro quarteto pinta um dia quente numa estação que devia ser fria. As aves caem de calor, e a água que despenca do alto acordaria o poeta das preocupações pesadas, mais que do sono.

O segundo quarteto abre com “Ó cousas, todas vãs, todas mudaves”. Mudaves é a forma antiga de mutáveis, o que muda. O poeta pergunta que coração pode confiar no que muda tanto.

A resposta vem nos versos seguintes: os tempos passam, dia atrás de dia, mais incertos que os navios ao vento. O soneto termina sem consolo, só com a constatação.

O poeta no Minho

O soneto pertence aos anos do Minho. Depois da volta da Itália, Sá de Miranda viveu um tempo na corte e se afastou dela na década de 1530, desgostoso com a intriga dos palácios.

Na Tapada, escreveu cartas em verso a amigos e ao rei D. João III, criticando a cobiça que a navegação para a Índia trouxe a Portugal.

Os últimos anos foram duros. O filho Gonçalo caiu em combate em Ceuta, em 1553, e Briolanja morreu dois anos depois. Contam os biógrafos que o poeta se fechou na Tapada e quase não escreveu mais.

Nas cartas e éclogas dessa fase, as duas medidas convivem. O homem que importou o soneto seguiu escrevendo redondilhas aos amigos, e a carta a D. João III saiu na medida velha.

Na hora de ler

Diga “O sol é grande” devagar, como quem descreve a paisagem pela janela.

Pare depois de “acordar-m'-ia” e deixe “de cuidados graves” cair sozinho.

Sá de Miranda não voltou mais à Itália.

Morreu na Tapada em 1558.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, em que ano Francisco de Sá de Miranda voltou a Portugal depois da estadia na Itália, trazendo o soneto e a medida nova?

A1555
B1595
C1526
D1521

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