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O soneto que Francisco de Sá de Miranda levou para Portugal tem catorze versos de dez sílabas, divididos em quatro estrofes: dois quartetos (estrofes de quatro versos) e dois tercetos (estrofes de três).
A forma obriga o poeta a propor, desenvolver e resolver uma ideia inteira em catorze linhas.
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Voi ch'ascoltate in rime sparse il suono di quei sospiri ond'io nudriva 'l core
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Francesco Petrarca, Canzoniere, soneto 1, c. 1374.
Em prosa, os dois versos dizem: vocês que ouvem, em rimas espalhadas, o som dos suspiros com que eu alimentava o coração.
Petrarca abre o livro assim, falando direto ao leitor. A expressão rime sparse (rimas soltas) virou um dos títulos do próprio Canzoniere (o cancioneiro), que ele revisou até os últimos anos de vida.
O livro reúne 366 poemas, e 317 deles são sonetos. A forma era mais antiga que Petrarca. Nasceu no século XIII, na corte siciliana de Frederico II, e a tradição atribui os primeiros sonetos ao notário Giacomo da Lentini.
Foi o modelo que os italianos do tempo de Sá de Miranda imitavam, discutiam e corrigiam nas academias de Florença e de Roma.
A conta das sílabas
Na redondilha maior, o ouvido conta sete sílabas até a última tônica. No decassílabo (o verso de dez sílabas), conta dez, com acento forte na sexta sílaba, ou na quarta e na oitava.
Três sílabas a mais mudam a frase. Sete sílabas cabem numa respiração e pedem rima rápida. Dez deixam espaço para uma oração inteira, um adjetivo a mais, uma pausa no meio do verso.
As rimas também seguem desenho fixo. Nos quartetos, o molde italiano usa o esquema ABBA ABBA; nos tercetos, combinações como CDE CDE ou CDC DCD.
Sá de Miranda testou a forma em português nos anos seguintes à volta. Os sonetos dele circularam em cópias de mão durante décadas, porque as Obras só chegaram à prensa em 1595, 37 anos depois da sua morte.
Quem continuou
A medida nova pegou nos discípulos. António Ferreira escreveu sonetos e a tragédia Castro; Diogo Bernardes publicou O Lima em 1596.
Luís de Camões deixou os sonetos mais lidos da língua, reunidos nas Rimas de 1595. O “Amor é fogo que arde sem se ver” segue o molde que Sá de Miranda ensaiou: catorze decassílabos, dois quartetos, dois tercetos.
Na hora de ler
Leia um soneto contando os quatro blocos. Faça uma pausa curta entre os quartetos e uma pausa maior antes do primeiro terceto, onde a ideia costuma dobrar.
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