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Em 1516, uma prensa de Lisboa salvou 880 poemas da corte

Garcia de Resende juntou num só livro as trovas de quase trezentos poetas do paço, versos que viviam em papel solto.

Página aberta do Cancioneiro Geral impresso em Lisboa em 1516, em duas colunas de letra gótica.

Um cancioneiro impresso em Lisboa, 1516

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Garcia de Resende avisou em 1516, no prólogo do Cancioneiro Geral, que muitas “cousas de folgar e gentilezas” se perdiam “sem haver delas notícia”. A frase ainda resume o motivo de um livro inteiro: guardar o que a corte inventava de noite e esquecia de manhã.

A corte de D. João II e de D. Manuel escrevia muito. Nos serões do paço (as noites de festa no palácio), fidalgos trocavam trovas, respondiam motes e zombavam uns dos outros em verso.

Quase nada ia para a prensa. Os poemas corriam em folhas soltas e cadernos de mão, copiados por quem estava na sala; a festa acabava e o papel se perdia.

Resende conhecia o ambiente por dentro. Nascido em Évora por volta de 1470, entrou menino no serviço de D. João II como moço da escrivaninha (o ajudante que escrevia as cartas do rei) e ficou no paço por quatro décadas.

Tocava viola, desenhava, escrevia. Sabia quem tinha composto cada trova porque estava no salão quando ela foi dita.

Durante anos, recolheu esses papéis. Em 28 de setembro de 1516, o impressor alemão Hermão de Campos terminou em Lisboa a impressão do volume, em folhas grandes, com o texto em duas colunas.

O livro reúne cerca de 880 composições de quase trezentos autores. Há cantigas de amor, sátiras contra cortesãos, lamentos, perguntas em verso respondidas por outros poetas e trovas em castelhano, a língua da moda no palácio.

Cada poema vem com uma rubrica (a linha de título em prosa) que diz quem escreveu, para quem e em que ocasião, como uma ata das noites do paço.

Foi a primeira grande antologia de poesia impressa em português. Sem ela, fidalgos como João Roiz de Castelo Branco e Aires Teles talvez só aparecessem em listas de criados da casa real.

O próprio compilador entrou no livro como poeta. Na primeira faixa vem a trova mais famosa que Resende assinou ali, sobre uma dama de Coimbra que Portugal nunca esqueceu.

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I  O Poema do Dia

As trovas de Inês

A resposta de ontem

Qual livraria lançou a terceira edição do Eu, em 1928?

A Livraria Castilho, no Rio de Janeiro. A terceira edição saiu em 1928 com o título Eu e Outras Poesias e o elogio de Órris Soares na abertura, e se esgotou em poucas semanas. Foi a partir dela que o volume de Augusto dos Anjos entrou de vez nas estantes do país e não saiu mais de catálogo.

Garcia de Resende, o compilador do Cancioneiro Geral, pôs no volume as Trovas à morte de Dona Inês de Castro, o poema mais lembrado de tudo o que ele mesmo escreveu.

O poema abre a leitura porque transforma uma história de Estado numa conversa direta com as damas do paço.

Senhoras, s'algum senhor
vos quiser bem ou servir,
quem tomar tal servidor,
eu lhe quero descobrir
o galardam do amor.

Garcia de Resende, Trovas à morte de Dona Inês de Castro, Cancioneiro Geral, 1516.

Galardam é a grafia antiga de galardão, a recompensa que alguém recebe por um serviço. Servidor, na língua da corte, era o homem que cortejava uma dama.

A abertura fala às senhoras da sala. Resende avisa que vai mostrar a elas o pagamento que o amor costuma dar a quem se entrega.

Logo depois, quem toma a palavra é a própria Inês. Ela conta a sua história em primeira pessoa, como se falasse do túmulo.

Inês de Castro era uma dama galega que chegou a Portugal no séquito de Constança, mulher do príncipe D. Pedro. O príncipe se apaixonou por ela, e os dois tiveram filhos.

O rei D. Afonso IV temia a influência da família Castro sobre o trono. Em 7 de janeiro de 1355, com o aval do rei, três conselheiros mataram Inês em Coimbra.

Quando subiu ao trono, Pedro perseguiu os culpados. Mandou levar o corpo de Inês para um túmulo de pedra no Mosteiro de Alcobaça, de frente para o seu.

Pedro declarou que tinha se casado com Inês em segredo. A tradição conta que a fez coroar já morta; os historiadores tratam a coroação como lenda, sem documento que a prove.

Resende escreveu sobre ela um século e meio depois. A distância não esfriou o tema: na corte de D. Manuel, a história ainda fazia chorar.

Uma voz para quem não falou

Dar a palavra a Inês foi a escolha decisiva. Nas crônicas, ela aparecia como peça de política; nas trovas, explica, pede e acusa.

Ela conta que suplicou ao rei com os filhos pequenos ao lado, e que o rei se comoveu e mesmo assim deixou os conselheiros agirem.

O tema seguiu vivo. Camões levou Inês para o Canto III de Os Lusíadas, em 1572, e António Ferreira escreveu a tragédia Castro no mesmo século.

As trovas de Resende estão entre os primeiros versos impressos sobre ela em língua portuguesa.

Na hora de ler

Diga Senhoras devagar, olhando para quem ouve, como quem chama a sala.

Faça a pausa depois de eu lhe quero descobrir, e deixe o último verso cair sozinho.

 
 

II  Pra Ler no Altar

O desejo calado

Num casamento, a página fica com Aires Teles, fidalgo da corte manuelina, e com uma cantiga curta que Garcia de Resende guardou no Cancioneiro Geral.

A cantiga serve ao altar porque o amor dela é tão grande que não pede nada em troca.

Meu amor, tanto vos amo,
que meu desejo não ousa
desejar nenhuma cousa.

Aires Teles, cantiga, Cancioneiro Geral, 1516.

Cousa é a forma antiga de nomear qualquer objeto ou pedido. Ousar quer dizer ter coragem para alguma ação.

Os três versos formam o mote (o tema curto que abre a cantiga). Depois vem a volta, a estrofe que desenvolve o mote e termina retomando a rima dele.

Na volta, o poeta explica o raciocínio. Se desejasse algo, passaria a esperar; se esperasse, incomodaria a dama. Por isso o desejo fica quieto.

Nos serões, era comum um fidalgo propor um mote e outros responderem com voltas próprias. O Cancioneiro guarda várias dessas rodadas, com a rubrica de quem respondeu a quem.

Era a lógica do amor cortês (o código de namoro dos palácios, em que o homem serve a dama sem exigir). O servidor oferece, a dama decide.

Aires Teles aparece no volume com outras cantigas e glosas (respostas em verso ao mote de alguém), sempre nesse registro de serviço amoroso.

A forma também vem do paço. Os versos têm sete sílabas, a redondilha maior, a medida das cantigas populares que os fidalgos levaram para dentro do palácio.

A rima amarra ousa com cousa, e o verso do meio repete o som do desejo no verso seguinte: desejo, desejar.

A redondilha domina o Cancioneiro Geral. Quase todos os vilancetes (cantigas de mote curto desenvolvido em voltas) e as esparsas (estrofes soltas, sem mote) do volume seguem essa medida, fácil de decorar e de cantar com viola.

Por que funciona no altar

No altar, a cantiga oferece uma promessa sem lista de exigências. Quem ama assim não cobra, só fica.

• O tom: baixo, quase confidência.

• O corte: só o mote, os três versos.

• O leitor: a madrinha ou o padrinho.

Quem quiser pode abrir com o apelido do casal no lugar de Meu amor. A métrica aguenta duas ou três sílabas.

Na hora de ler

Diga Meu amor e espere um segundo antes de tanto vos amo.

Leia o último verso mais devagar, como quem guarda um segredo.

 

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III  Pra Dizer Adeus

Os olhos que partem

Numa despedida, a página volta ao Cancioneiro Geral e a João Roiz de Castelo Branco, fidalgo da corte, autor da cantiga de partida mais lida do livro.

A cantiga serve ao adeus porque põe toda a tristeza nos olhos de quem vai embora, sem um verso de queixa contra ninguém.

Senhora, partem tam tristes
meus olhos por vós, meu bem,
que nunca tam tristes vistes
outros nenhuns por ninguém.

João Roiz de Castelo Branco, Cantiga sua partindo-se, Cancioneiro Geral, 1516.

Partindo-se quer dizer indo embora. Tam é a grafia antiga de tão.

O mote faz uma aposta simples. Nunca alguém viu olhos tão tristes por outra pessoa.

A volta empilha adjetivos sobre os mesmos olhos: tristes, saudosos, doentes da partida, cansados, chorosos. Cada palavra pesa um pouco mais que a anterior.

Ao fechar a volta, o mote retorna quase igual. Quem ouve reconhece a frase e sente o adeus fechar o círculo.

Pouco se sabe da vida de Castelo Branco. O que restou dele são os poemas que Resende copiou e mandou imprimir.

Mesmo assim, a cantiga costuma abrir as antologias escolares de poesia portuguesa do século XV. Quatro versos bastaram para guardar um autor quase sem biografia.

Para uma despedida, a cantiga ensina contenção. Quem parte fala só do próprio olhar e deixa o resto sem dizer.

O compilador depois do livro

Garcia de Resende continuou escrevendo. Deixou a Crónica de D. João II, sobre o rei que serviu menino, e a Miscelânea, um poema sobre as novidades que viu em vida.

Na Miscelânea, ele lista em verso o que mudou no mundo enquanto viveu: a chegada à Índia, a imprensa, as terras achadas além do mar.

Ele morreu em Évora em 1536. A crônica só saiu da prensa em 1545, nove anos depois.

Antes do Cancioneiro, em 1514, Resende foi a Roma como secretário da embaixada de Tristão da Cunha ao papa Leão X. O cortejo entrou na cidade com presentes trazidos do Oriente.

Na hora de ler

Diga Senhora baixo, como quem já está na porta.

Pare antes de que nunca tam tristes vistes e deixe o verso final sair sem peso.

Entre os presentes do rei ia um animal vindo da Índia. Roma parou para ver.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Que animal da Índia D. Manuel mandou de presente ao papa Leão X em 1514?

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, quem concluiu a impressão do Cancioneiro Geral em Lisboa, em 28 de setembro de 1516?

AValentim Fernandes
BHermão de Campos
CGermão Galharde
DGarcia de Resende

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