A resposta de ontem Em que cidade Magalhães passou os últimos anos? Em Roma. Gonçalves de Magalhães terminou a carreira diplomática como ministro do Brasil junto à Santa Sé e viveu na cidade das ruínas que tinha cantado nos Suspiros Poéticos. Partiu lá em 10 de julho de 1882, aos 70 anos, já com o título de Visconde de Araguaia. |
Ângelo de Lima nasceu no Porto em 30 de julho de 1872, e o soneto que abre esta faixa é a página mais lembrada da obra dele.
O soneto vira poema do dia porque registra o instante em que a cabeça freia, sem explicar e sem pedir desculpa.
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Pára-me de repente o Pensamento... Como que de repente refreado Na Doida Correria em que levado Ia em Busca da Paz, do Esquecimento...
Pára Surpreso, Escrutador, Atento, Como pára um Cavalo Alucinado Ante um Abismo, ante seus pés rasgado... Pára e Fica e Demora-se um Momento...
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Ângelo de Lima, Pára-me de repente o Pensamento, Orpheu, número 2, 1915.
Correria quer dizer corrida desembestada, sem rumo. O pensamento do poeta corria atrás de paz e de esquecimento quando travou.
Escrutador é quem examina com atenção miúda. A cabeça para e, parada, olha tudo em volta, desconfiada.
A segunda quadra traz a imagem que fica na memória: um cavalo alucinado que estanca diante de um abismo aberto aos próprios pés.
As maiúsculas no meio do verso são a assinatura dele. Pensamento, Paz, Esquecimento e Cavalo ganham letra grande, como se fossem personagens em cena.
A métrica segue o soneto clássico português: versos de dez sílabas e rima abraçada (o primeiro verso rima com o quarto, o segundo com o terceiro). O conteúdo foge, a forma segura.
As reticências fazem o trabalho do freio. Cada estrofe termina suspensa, e o leitor sente a pausa antes de entender o motivo.
O soneto não conta o que acontece depois da parada. Termina no momento suspenso, e o poeta deixa o leitor ali, olhando o abismo junto com o cavalo.
Quem já esqueceu uma palavra no meio de uma conversa conhece a sensação. Ângelo de Lima deu a ela uma forma de catorze versos e um animal assustado.
Do Porto a Rilhafoles
Antes de Lisboa houve um primeiro internamento, ainda no Porto, nos anos 1890. Ele saiu, tentou retomar a vida comum e voltou a adoecer.
Em 1901, já em Lisboa, foi levado a Rilhafoles. Daquela entrada em diante, viveu dentro do hospital sem nova alta.
O diretor da casa, o médico Miguel Bombarda, foi baleado por um ex-paciente em 3 de outubro de 1910, véspera da República. Em 1911 o hospital passou a homenageá-lo na fachada.
Na revista, os sonetos saíram sob o título Poemas Inéditos, sem nota de hospital. A assinatura do interno ficou impressa ao lado das de Pessoa e Sá-Carneiro.
Foi nesse prédio rebatizado que os sonetos saíram para a tipografia do Orpheu. O poeta continuou do lado de dentro.
Na hora de ler
Diga a primeira linha e pare de fato nas reticências.
Acelere em Na Doida Correria e freie de novo em Pára Surpreso, como o cavalo.
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