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Do hospício de Rilhafoles, Ângelo de Lima chegou ao Orpheu em 1915

Internado desde 1901, o poeta do Porto viu seus sonetos na revista de Pessoa e nunca teve um livro só dele.

Janela gradeada de um antigo hospital em Lisboa, com folhas de poema sobre o parapeito.

Um soneto escrito atrás dos muros

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Ângelo de Lima publicou em 1915 o verso “Pára-me de repente o Pensamento”, e a linha ainda descreve o susto de quem perde o fio da ideia no meio de uma frase.

O verso abre um soneto impresso no segundo número da revista Orpheu, em Lisboa. Quem o escreveu não circulava pelas livrarias do Chiado: morava atrás dos muros de um hospital psiquiátrico.

Rilhafoles ocupava um antigo convento numa colina da cidade. Aberto em 1848, foi o primeiro hospital português dedicado só a doentes mentais.

Ângelo entrou ali em 1901, perto dos 30 anos. Esperou catorze anos internado antes de ver um poema seu numa revista, e ficou mais seis depois da estreia.

Lá fora, Lisboa mudava depressa. A monarquia caiu em 1910, a República trocou placas de ruas e de prédios, e o próprio hospital ganhou outra placa em 1911.

Dentro, o poeta escrevia. Punha maiúsculas no meio dos versos, criava palavras e usava uma pontuação que nenhuma gramática da época aceitaria.

Os rapazes do Orpheu procuravam páginas assim. A revista queria escandalizar o leitor acomodado, e conseguiu: os jornais zombaram dela em manchete.

No primeiro número, de março, estavam Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa. No segundo, saído em junho, apareceu um poeta que ninguém do grupo conhecia dos cafés.

Era um interno. Ao lado dele, os jovens de vinte e poucos anos assinavam a vanguarda. Ele tinha 42 e assinava de dentro de uma enfermaria.

A revista parou ali. O terceiro número ficou nas provas da tipografia, sem dinheiro para sair, e Sá-Carneiro partiu para Paris, onde morreu em 1916.

Ângelo de Lima nunca teve livro. Os versos que restam cabem num caderno fino, e os mais conhecidos passaram pelas páginas do Orpheu.

Na primeira faixa estão as duas quadras do soneto, verso por verso, e o caminho do poeta do Porto até a cela de Lisboa.

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I  O Poema do Dia

O cavalo diante do abismo

A resposta de ontem

Em que cidade Magalhães passou os últimos anos?

Em Roma. Gonçalves de Magalhães terminou a carreira diplomática como ministro do Brasil junto à Santa Sé e viveu na cidade das ruínas que tinha cantado nos Suspiros Poéticos. Partiu lá em 10 de julho de 1882, aos 70 anos, já com o título de Visconde de Araguaia.

Ângelo de Lima nasceu no Porto em 30 de julho de 1872, e o soneto que abre esta faixa é a página mais lembrada da obra dele.

O soneto vira poema do dia porque registra o instante em que a cabeça freia, sem explicar e sem pedir desculpa.

Pára-me de repente o Pensamento...
Como que de repente refreado
Na Doida Correria em que levado
Ia em Busca da Paz, do Esquecimento...

Pára Surpreso, Escrutador, Atento,
Como pára um Cavalo Alucinado
Ante um Abismo, ante seus pés rasgado...
Pára e Fica e Demora-se um Momento...

Ângelo de Lima, Pára-me de repente o Pensamento, Orpheu, número 2, 1915.

Correria quer dizer corrida desembestada, sem rumo. O pensamento do poeta corria atrás de paz e de esquecimento quando travou.

Escrutador é quem examina com atenção miúda. A cabeça para e, parada, olha tudo em volta, desconfiada.

A segunda quadra traz a imagem que fica na memória: um cavalo alucinado que estanca diante de um abismo aberto aos próprios pés.

As maiúsculas no meio do verso são a assinatura dele. Pensamento, Paz, Esquecimento e Cavalo ganham letra grande, como se fossem personagens em cena.

A métrica segue o soneto clássico português: versos de dez sílabas e rima abraçada (o primeiro verso rima com o quarto, o segundo com o terceiro). O conteúdo foge, a forma segura.

As reticências fazem o trabalho do freio. Cada estrofe termina suspensa, e o leitor sente a pausa antes de entender o motivo.

O soneto não conta o que acontece depois da parada. Termina no momento suspenso, e o poeta deixa o leitor ali, olhando o abismo junto com o cavalo.

Quem já esqueceu uma palavra no meio de uma conversa conhece a sensação. Ângelo de Lima deu a ela uma forma de catorze versos e um animal assustado.

Do Porto a Rilhafoles

Antes de Lisboa houve um primeiro internamento, ainda no Porto, nos anos 1890. Ele saiu, tentou retomar a vida comum e voltou a adoecer.

Em 1901, já em Lisboa, foi levado a Rilhafoles. Daquela entrada em diante, viveu dentro do hospital sem nova alta.

O diretor da casa, o médico Miguel Bombarda, foi baleado por um ex-paciente em 3 de outubro de 1910, véspera da República. Em 1911 o hospital passou a homenageá-lo na fachada.

Na revista, os sonetos saíram sob o título Poemas Inéditos, sem nota de hospital. A assinatura do interno ficou impressa ao lado das de Pessoa e Sá-Carneiro.

Foi nesse prédio rebatizado que os sonetos saíram para a tipografia do Orpheu. O poeta continuou do lado de dentro.

Na hora de ler

Diga a primeira linha e pare de fato nas reticências.

Acelere em Na Doida Correria e freie de novo em Pára Surpreso, como o cavalo.

 
 

II  Pra Ler no Altar

O fogo que não se vê

Num casamento, a página fica com Luís Vaz de Camões e o soneto Amor é fogo que arde sem se ver, impresso nas Rimas de 1595.

O soneto serve ao altar porque define o amor por contrários, e cada noivo reconhece nele um pedaço do que sente.

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

Luís Vaz de Camões, Rimas, 1595.

Ângelo de Lima aprendeu o soneto nessa escola. Os versos de dez sílabas e a rima abraçada do poema anterior descendem destas quadras.

Camões também não viu os próprios sonetos impressos. Publicou em vida Os Lusíadas, em 1572, e partiu em 1580, em Lisboa, pobre.

As Rimas saíram quinze anos depois, montadas por editores que juntaram cópias manuscritas espalhadas por mãos de amigos e leitores.

Cada verso da quadra é um paradoxo (uma afirmação que parece se contradizer). O fogo não aparece, a ferida não se sente, o contentamento chega descontente.

Desatinar é perder o juízo. A dor do último verso enlouquece e mesmo assim não dói, e o noivo entende sem precisar de explicação.

No altar, a lista de contrários funciona como promessa honesta. O casal ouve que o amor dói e alegra ao mesmo tempo, e que os dois lados ficam.

O soneto inteiro termina perguntando como algo tão contrário a si mesmo consegue unir corações. Camões responde pela própria forma: catorze linhas seguram os contrários juntos.

A palavra contentamento ganha força ao lado do descontente. A língua portuguesa da época gostava desses pares, e Camões os levou mais longe do que qualquer colega.

Quatro séculos depois, a primeira linha ainda aparece em convites, cartões e votos escritos à mão. Poucos versos da língua circulam tanto em cerimônias.

• O tom: sereno, sem dramatizar.

• O corte: só a primeira quadra.

• O leitor: um padrinho ou uma madrinha.

Na hora de ler

Diga Amor é fogo e deixe um respiro antes de que arde sem se ver.

Leia o último verso da quadra olhando para os noivos, devagar.

 

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III  Pra Dizer Adeus

A escada estreita

Numa despedida, a página vai para Antero de Quental e o soneto Na Mão de Deus, reunido no volume Sonetos de 1886.

O poema serve ao adeus porque descreve o descanso depois da luta, sem medo e sem pressa.

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Antero de Quental, Na Mão de Deus, Sonetos, 1886.

Antero nasceu em Ponta Delgada, nos Açores, em 1842. Em Coimbra, liderou os jovens da Questão Coimbrã (a polêmica de 1865 contra os poetas mais velhos).

Sofreu a vida inteira de crises de melancolia. Em 1877 foi a Paris consultar o neurologista Jean-Martin Charcot, sem cura.

O soneto fala de um coração que enfim descansa na mão direita de Deus. A ilusão vira palácio encantado, e o poeta desce dele degrau por degrau.

A escada estreita é a vida madura: menos promessa, mais chão. Ninguém empurra o poeta; ele desce no próprio passo.

Numa cerimônia de adeus, a imagem acolhe quem crê e quem não crê. O descanso vem primeiro, e a mão pode ser lida como abrigo.

Os dois tercetos seguintes falam de sonhos que se apagam e de uma criança adormecida no colo. O coração cansado vira menino de novo.

Antero escreveu o soneto na maturidade, depois de largar a militância política. A paz do poema veio tarde, conquistada.

Antero voltou a Ponta Delgada em 1891 e morreu lá em setembro daquele ano, aos 49 anos.

Ângelo de Lima ficou no hospital de Lisboa até 14 de agosto de 1921, data da morte, também aos 49 anos. Nenhum livro assinado só por ele saiu em vida.

Os versos do Orpheu foram reunidos décadas depois por estudiosos da revista, e hoje circulam como a pequena obra completa de um poeta internado.

Na hora de ler

Diga Na mão de Deus baixo, quase para dentro.

Faça a pausa maior antes de Descansou afinal, e só então siga.

Antes de Rilhafoles, outra instituição tinha recebido o poeta, ainda na cidade onde ele nasceu.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Em que hospital do Porto Ângelo de Lima foi internado pela primeira vez?

 
 
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