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Camilo de Almeida Pessanha nasceu em Coimbra em 7 de setembro de 1867 e se formou em Direito na universidade da cidade antes de cruzar meio mundo até Macau.
O poema abre a leitura porque põe em quatro versos o som da noite chinesa ouvido por um ouvido português.
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Só, incessante, um som de flauta chora, Viúva, grácil, na escuridão tranquila, Perdida voz que de entre as mais se exila, Festões de som dissimulando a hora.
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Camilo Pessanha, Ao longe os barcos de flores, Clepsidra, 1920.
O soneto descreve uma noite inteira de festa e escolhe ouvir um instrumento só. Os outros sons, risos, conversas e cordas, ficam fora do verso.
Barcos de flores eram as casas flutuantes de música e festa ancoradas nos rios do sul da China, acesas por lanternas. O poeta ouvia a festa de longe, e só uma flauta atravessava a água.
A flauta é chamada de viúva. Grácil quer dizer delicada, e festões são enfeites em guirlanda, aqui feitos de som.
Repare nos sons sibilantes: só, incessante, som, escuridão. O verso imita o sopro do instrumento.
Pessanha estudava a língua chinesa a sério. Em 1914, publicou em Macau as Oito Elegias Chinesas, versões em português de poemas da dinastia Ming (1368 a 1644), com notas dele sobre cada autor.
A versão saiu na imprensa de Macau, com o texto português e comentários longos sobre a vida dos poetas Ming, e quase nenhum exemplar cruzou o oceano até Lisboa.
O trabalho exigiu ler os ideogramas um a um, com a ajuda de um letrado chinês, e reescrever cada elegia em verso português.
O tradutor das elegias nunca preparou um livro com a própria poesia. Guardava os versos na memória e os recitava a pedido, sem caderno na mão.
Os críticos chamam a poesia dele de simbolista: a escola francesa do fim do século XIX, que preferia sugerir a nomear e tratava o verso como música.
Em Pessanha, a escola francesa encontrou a música chinesa. O ritmo curto dos versos e a imagem parada, sem explicação, lembram as elegias que ele traduzia na mesma mesa.
Paul Verlaine, poeta francês da escola, abriu o poema Art poétique (Arte poética), de 1874, pedindo a música acima de tudo. Pessanha levou o pedido para o Oriente.
Na hora de ler
Diga Só, incessante quase num sopro.
Alongue a última sílaba de dissimulando a hora.
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