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Camilo Pessanha, o poeta português de Macau

Chegou em 1894 para dar aula no liceu, ficou 32 anos e verteu oito elegias chinesas enquanto os próprios versos saíam só em revista.

Professor português de terno escuro desembarca no cais de Macau, com juncos chineses ao fundo.

Macau, 1894: o professor desce do vapor

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“Eu vi a luz em um país perdido.” Camilo Pessanha escreveu o verso no fim do século XIX, e a Clepsidra o imprimiu em 1920; a frase explica por que um poeta de Coimbra atravessou o mundo e não quis voltar.

Em 1894, um vapor deixou em Macau um bacharel em Direito de 26 anos, magro, míope, com uma vaga de professor no liceu recém-criado da cidade.

Macau era então um entreposto português na foz do rio das Pérolas, no sul da China, vizinho de Cantão e a poucas horas de barco de Hong Kong.

O bacharel tinha disputado a vaga em concurso público. Levava poucos livros na bagagem e quase nenhum poema impresso.

Os versos dele circulavam de cor entre os amigos de Coimbra. Ele os recitava nas mesas de café e raramente os passava a limpo.

Na viagem, o navio cruzou o canal de Suez, o mar Vermelho e o oceano Índico, com escalas em portos ingleses. A travessia de Lisboa até o sul da China levava mais de um mês.

Em Macau, deu aula de filosofia e de português aos filhos de funcionários e comerciantes. Foi também juiz substituto e conservador do registo predial (o cartório dos imóveis).

Aprendeu chinês com professores locais, comprou bronzes, porcelanas e pinturas e passou a fumar ópio, hábito comum entre os estrangeiros da colônia.

Voltou a Portugal algumas vezes para tratar a saúde. Em todas elas, embarcou de novo para o Oriente.

Os poemas viajavam pelo correio, dentro de cartas, e saíam em revistas de Lisboa e do Porto. Em 1915, Fernando Pessoa escreveu a ele pedindo versos para a revista Orpheu.

Em 1916, a revista Centauro publicou um grupo de sonetos dele. Os leitores de Lisboa conheciam o poeta pelas páginas avulsas e nunca tinham visto o rosto dele.

Ele seguia em Macau, corrigindo provas de alunos e julgando processos de terra, a dez mil quilômetros das revistas que o liam.

A faixa I traz o nome completo, o poema dos barcos de flores e a música chinesa que entrou no verso português.

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I  O Poema do Dia

A flauta no rio

Camilo de Almeida Pessanha nasceu em Coimbra em 7 de setembro de 1867 e se formou em Direito na universidade da cidade antes de cruzar meio mundo até Macau.

O poema abre a leitura porque põe em quatro versos o som da noite chinesa ouvido por um ouvido português.

Só, incessante, um som de flauta chora,
Viúva, grácil, na escuridão tranquila,
Perdida voz que de entre as mais se exila,
Festões de som dissimulando a hora.

Camilo Pessanha, Ao longe os barcos de flores, Clepsidra, 1920.

O soneto descreve uma noite inteira de festa e escolhe ouvir um instrumento só. Os outros sons, risos, conversas e cordas, ficam fora do verso.

Barcos de flores eram as casas flutuantes de música e festa ancoradas nos rios do sul da China, acesas por lanternas. O poeta ouvia a festa de longe, e só uma flauta atravessava a água.

A flauta é chamada de viúva. Grácil quer dizer delicada, e festões são enfeites em guirlanda, aqui feitos de som.

Repare nos sons sibilantes: só, incessante, som, escuridão. O verso imita o sopro do instrumento.

Pessanha estudava a língua chinesa a sério. Em 1914, publicou em Macau as Oito Elegias Chinesas, versões em português de poemas da dinastia Ming (1368 a 1644), com notas dele sobre cada autor.

A versão saiu na imprensa de Macau, com o texto português e comentários longos sobre a vida dos poetas Ming, e quase nenhum exemplar cruzou o oceano até Lisboa.

O trabalho exigiu ler os ideogramas um a um, com a ajuda de um letrado chinês, e reescrever cada elegia em verso português.

O tradutor das elegias nunca preparou um livro com a própria poesia. Guardava os versos na memória e os recitava a pedido, sem caderno na mão.

Os críticos chamam a poesia dele de simbolista: a escola francesa do fim do século XIX, que preferia sugerir a nomear e tratava o verso como música.

Em Pessanha, a escola francesa encontrou a música chinesa. O ritmo curto dos versos e a imagem parada, sem explicação, lembram as elegias que ele traduzia na mesma mesa.

Paul Verlaine, poeta francês da escola, abriu o poema Art poétique (Arte poética), de 1874, pedindo a música acima de tudo. Pessanha levou o pedido para o Oriente.

Na hora de ler

Diga Só, incessante quase num sopro.

Alongue a última sílaba de dissimulando a hora.

 
 

II  Pra Ler no Altar

Fogo que arde

Num casamento, a casa entrega a página a Luís Vaz de Camões, o poeta português que a tradição põe em Macau no século XVI, e ao soneto do fogo invisível, impresso nas Rimas de 1595.

O soneto serve ao altar porque define o amor por contradições, e quem casa já conhece todas elas.

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

Luís de Camões, Amor é fogo que arde sem se ver, Rimas, 1595.

Cada verso junta dois termos opostos: arder sem ser visto, doer sem ser sentido. A figura tem nome na gramática, oxímoro (a união de palavras de sentido contrário).

Desatina quer dizer enlouquece, perde o tino. A dor do quarto verso tira o juízo e mesmo assim não machuca.

Camões aprendeu a forma do soneto com os italianos, Petrarca à frente. Os quatro versos seguem a medida de dez sílabas, e a rima abraça: ver e doer nas pontas, sente e descontente no meio.

Em Macau, a tradição liga Camões a uma gruta num jardim da cidade, onde ele teria escrito parte de Os Lusíadas. Nenhum documento confirma a estadia.

A gruta ganhou um busto do poeta e segue aberta ao público no Jardim Luís de Camões, no centro antigo de Macau.

Pessanha nunca se casou. Em Macau, viveu com uma companheira chinesa e teve com ela um filho, João Manuel de Almeida Pessanha, reconhecido por ele.

O filho estudou em Portugal e voltou a Macau. A casa de Pessanha misturava a língua portuguesa da escola com o cantonês (a língua chinesa falada em Macau e Cantão) da família.

O soneto de Camões tem catorze versos, e todos os tercetos seguem a mesma lógica dos quartetos. O último pergunta como um amor tão contrário a si mesmo consegue causar amizade entre as pessoas.

No altar, o primeiro quarteto basta: são quatro definições, e cada uma serve de promessa.

• O tom: firme, de quem afirma, sem cantar.

• O corte: só o primeiro quarteto.

• O leitor: alguém que conheça o casal há anos.

Na hora de ler

Pare depois de cada ponto e vírgula.

Diga sem doer devagar, olhando para os noivos.

 

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III  Pra Dizer Adeus

Os passos na areia

Numa despedida, a página volta a Camilo Pessanha e ao soneto dos passos na areia, impresso na Clepsidra de 1920.

O soneto serve ao adeus porque reencontra intacto o rasto de quem passou, e não finge que ele dura.

Quando voltei encontrei os meus passos
Ainda frescos sobre a húmida areia.
A fugitiva hora, reevoquei-a,
Tão rediviva! nos meus olhos baços...

Camilo Pessanha, Quando voltei encontrei os meus passos, Clepsidra, 1920.

Húmida é a grafia portuguesa de úmida. Rediviva quer dizer revivida, trazida de volta, e baços são olhos sem brilho, embaçados.

O poeta volta à praia e acha as próprias pegadas frescas, como se a hora antiga não tivesse passado.

Pessanha viveu esse retorno muitas vezes. Cada viagem a Portugal terminava num navio de volta ao liceu de Macau.

Em Coimbra, ele revia os amigos da faculdade, as ruas da infância e a família. Depois de alguns meses, embarcava outra vez para o Oriente.

Nos últimos anos, a saúde piorou. A tuberculose e o ópio o deixaram magro e quase recluso, em casa, entre as peças chinesas que colecionou.

A coleção ele doou em vida ao Estado português. Parte dela está hoje no Museu Nacional Machado de Castro, em Coimbra, a cidade onde nasceu.

Camilo Pessanha partiu em Macau em 1 de março de 1926, aos 58 anos. Está sepultado no Cemitério de São Miguel Arcanjo, na mesma cidade onde deu aula por 32 anos.

O túmulo fica num cemitério católico de lápides portuguesas, cercado por uma cidade onde quase toda a população falava cantonês.

As Oito Elegias Chinesas tiveram tiragem pequena e quase não circularam em Portugal. A Clepsidra, livro único dele, saiu em 1920, em Lisboa, montada a partir de cópias manuscritas e de versos guardados de cor pelos amigos.

O título vem do grego: clepsidra é o relógio de água, que mede o tempo pelo gotejar de um vaso para outro. O livro tem poucas dezenas de poemas, e vários deles falam de água que escorre e de hora que foge.

Na hora de ler

Diga Tão rediviva com espanto contido.

Baixe a voz em meus olhos baços e pare.

Pessanha nunca preparou o livro com as próprias mãos.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem juntou os poemas da Clepsidra em 1920?

 
 
Quiz da edição

Em que ano Camilo Pessanha publicou em Macau as Oito Elegias Chinesas, suas versões de poemas da dinastia Ming?

A1920
B1894
C1914
D1916

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