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Numa despedida, a casa dá a página ao soneto Alma minha gentil, que te partiste, também das Rimas de 1595, o adeus mais conhecido de Luís de Camões.
O soneto serve ao adeus porque separa os dois lugares: quem partiu descansa, quem ficou pode chorar.
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Alma minha gentil, que te partiste Tão cedo desta vida descontente, Repousa lá no Céu eternamente, E viva eu cá na terra sempre triste.
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Luís de Camões, Alma minha gentil, que te partiste, Rimas, 1595.
Gentil, no português do século XVI, quer dizer nobre de alma, sem o sentido de educado. Descontente descreve a vida, e não a pessoa: foi a vida que não a mereceu.
A tradição liga o poema a Dinamene, nome poético de uma jovem chinesa que teria afundado num naufrágio no Mekong. Os biógrafos não acharam documento que prove a existência dela, e a ligação segue sem confirmação.
Bandarra não teve soneto de adeus. Partiu em Trancoso em 1556, sem processo novo e sem livro, e as Trovas continuaram vivas nos cadernos alheios.
Em 1581, o índice de livros proibidos da Inquisição portuguesa incluiu as Trovas. A proibição não parou as cópias: os sebastianistas (os que esperavam a volta de D. Sebastião) as liam escondidos.
O padre António Vieira, o maior pregador da língua, usou as quadras no texto Esperanças de Portugal, de 1659, para anunciar que D. João IV, sepultado em 1656, voltaria para governar.
A Inquisição respondeu como respondera ao sapateiro. Vieira foi preso em Coimbra e, em 1667, ouviu a sentença que o proibia de pregar e de tratar de profecia.
Vieira passou dois anos preso. Saiu em 1668, perdoado pelo novo governo do príncipe D. Pedro, e nunca renegou a leitura que fazia de Bandarra.
Mais de um século separa os dois processos, e o motivo era o mesmo: interpretar o verso de um sapateiro de Trancoso.
Em 1934, Pessoa pôs Bandarra na Mensagem, no grupo de poemas chamado Os Avisos, como o primeiro dos profetas de Portugal. A obra de Pessoa está em domínio público no Brasil desde 2006; a de Camões e a de Bandarra, há séculos.
Na hora de ler
Leia Repousa lá no Céu sem pressa.
Baixe a voz em sempre triste, como quem fecha a porta.
“Que verso você copiaria à mão pra alguém guardar?”
Bandarra não viu a prensa.
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