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Bandarra, o sapateiro de Trancoso proibido de profetizar em verso

A Inquisição calou o sapateiro em 1541; as quadras correram de mão em mão e só chegaram à prensa em 1644, em Nantes.

Sapateiro em banca de couro copiando trovas à luz de vela, com a muralha de Trancoso ao fundo.

Trancoso, anos 1530: trovas na banca de couro

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Fernando Pessoa escreveu em 1934, no livro Mensagem, que um sapateiro sonhava o império de Portugal “anónimo e disperso”. O verso resolve um enigma de quatro séculos: como um homem sem estudo, dono de uma banca de couro numa vila da Beira, virou caso de tribunal em Lisboa.

Em 23 de outubro de 1541, a Inquisição portuguesa fez em Lisboa um dos primeiros autos-da-fé (a cerimônia pública em que o tribunal lia as sentenças dos réus) da sua história. O tribunal tinha nascido cinco anos antes, em 1536, a pedido do rei D. João III.

Entre os réus estava um sapateiro de Trancoso, vila de muralha no alto da Beira. Não respondia por roubo nem por heresia declarada. Respondia por versos.

Ele compunha trovas (versos curtos e rimados, feitos pra decorar e repetir em voz alta) sobre um rei escondido que viria salvar o reino. As cópias corriam à mão, de vila em vila, e chegavam à capital.

Quem mais copiava eram os cristãos-novos (judeus convertidos à força em 1497 e os descendentes deles). Nas quadras, eles liam a promessa do Messias, o salvador que a conversão tinha proibido de esperar em voz alta.

O tribunal viu perigo nessa leitura. A sentença não mandou o sapateiro à fogueira: mandou abjurar (renegar em público os próprios erros), proibiu a leitura da Bíblia em português e vetou qualquer nova interpretação de profecia, falada ou escrita.

Ele obedeceu. Voltou para Trancoso, voltou à banca, e as trovas seguiram viagem sem ele, copiadas por mãos que nunca conheceu.

Em 1578, o rei D. Sebastião sumiu na batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos, e as quadras ganharam leitor novo: o povo que esperava a volta do rei desaparecido.

Prensa, só em 1644, na cidade francesa de Nantes, quase noventa anos depois do enterro do autor.

A primeira faixa traz o sapateiro pelo nome inteiro e a quadra mais copiada dele.

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I  O Poema do Dia

O leão já acordou

Gonçalo Anes Bandarra nasceu em Trancoso no começo do século XVI, trabalhou a vida inteira como sapateiro e compôs as Trovas na década de 1530, quase todas em redondilha maior (o verso de sete sílabas da poesia popular portuguesa).

A trova abre a leitura porque mostra, em cinco linhas, como um artesão de vila escreveu profecia sem dizer nome nenhum.

Já o Leão é experto
Mui alerto.
Já acordou, anda caminho.
Tirará cedo do ninho
O porco, e é mui certo.

Gonçalo Anes Bandarra, Trovas, década de 1530, impressas em Nantes, 1644.

Experto, no português antigo, quer dizer desperto; alerto quer dizer vigilante. O primeiro par de versos acorda um bicho que dormia.

O leão é a figura do rei, tirada das profecias da Bíblia, onde reinos aparecem como animais. O porco é o inimigo que o leão vai expulsar. Bandarra nunca diz quem é um, nem quem é o outro.

O segundo verso tem só três sílabas. A técnica se chama pé quebrado (o verso curtinho que entra no meio dos longos), e funciona como uma batida seca de martelo na sola.

Essa falta de nome foi a sorte das Trovas. Cada geração encaixou na quadra o rei que esperava, e o texto aceitou todos sem reclamar.

Segundo o processo da Inquisição, o sapateiro sabia de cor trechos inteiros das Escrituras e discutia esses trechos com cristãos-novos de Trancoso. Para o tribunal, um leigo comentando profecia já era meio caminho até a heresia.

Nenhum manuscrito com a letra de Bandarra chegou aos arquivos. As versões que sobreviveram são cópias de cópias, e cada copista mudou palavras, trocou estrofes e acrescentou quadras com o nome do próprio autor na frente.

Por esse motivo a casa cita a quadra pela forma mais difundida, a da edição de 1644, sem prometer o texto exato que saiu da banca em Trancoso.

A edição de Nantes teve patrono. Portugal tinha se separado da Espanha em 1640, e o novo rei, D. João IV, precisava de prova de que era o escolhido. O embaixador português em França, D. Vasco Luís da Gama, mandou imprimir as Trovas.

A impressão saiu fora de Portugal porque as Trovas seguiam proibidas no reino, e nenhuma oficina de Lisboa podia compô-las sem licença do Santo Ofício (o outro nome da Inquisição).

O leão acordado, lido em 1644, virou D. João IV. O porco virou o domínio espanhol.

Na hora de ler

Diga Mui alerto curto, quase sem respirar.

Respire curto, diga O porco e solte o último verso devagar.

 
 

II  Pra Ler no Altar

A parte desejada

Num casamento, a casa cede a página a Luís Vaz de Camões e ao soneto Transforma-se o amador na cousa amada, publicado nas Rimas de 1595, quinze anos depois do enterro do poeta, contemporâneo de Bandarra e também impresso só depois de partir.

O soneto serve ao altar porque diz que quem ama já carrega dentro de si a pessoa amada.

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho, logo, mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Luís de Camões, Transforma-se o amador na cousa amada, Rimas, 1595.

Amador, aqui, quer dizer quem ama, sem o sentido atual de principiante. Cousa é a grafia antiga da palavra de hoje, e na boca de Camões significa a pessoa amada.

O argumento parece de filósofo. Quem ama imagina tanto o outro que acaba virando o outro; se já virou, nada mais falta.

Camões aprendeu esse raciocínio com os poetas italianos, Petrarca à frente, que escreviam sobre o amor como quem resolve um problema de lógica.

Os quatro versos são decassílabos (de dez sílabas poéticas). A rima abraça o quarteto: o primeiro verso rima com o quarto, e o segundo com o terceiro.

Camões nasceu em 1524 ou 1525, data que os biógrafos não conseguem fixar, e passou anos no Oriente. Quando Bandarra respondia ao tribunal em Lisboa, o poeta era um rapaz que ainda não tinha publicado nada.

Os dois tiveram destino de papel parecido. A obra lírica de Camões correu em cópias de mão, e as Rimas só saíram da prensa em 1595, com versos de outros autores misturados aos dele.

Por esse motivo, os editores modernos ainda separam quais sonetos das Rimas são mesmo de Camões. Este quarteto está entre os que nenhum deles contesta.

Há também a vantagem do som. Quase todas as palavras do quarteto terminam em vogal aberta, e a frase corre na voz sem tropeço, mesmo com o nervosismo de quem lê diante de cem convidados.

No altar, o primeiro quarteto basta. Os versos seguintes complicam o raciocínio e pedem leitura de sala de aula.

• O tom: sereno, de quem constata.

• O corte: só os quatro versos acima.

• O leitor: um amigo do casal que goste de ler devagar.

Na hora de ler

Pare depois de Por virtude do muito imaginar.

Diga a parte desejada olhando para o casal.

 

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III  Pra Dizer Adeus

Repousa lá no Céu

Numa despedida, a casa dá a página ao soneto Alma minha gentil, que te partiste, também das Rimas de 1595, o adeus mais conhecido de Luís de Camões.

O soneto serve ao adeus porque separa os dois lugares: quem partiu descansa, quem ficou pode chorar.

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no Céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.

Luís de Camões, Alma minha gentil, que te partiste, Rimas, 1595.

Gentil, no português do século XVI, quer dizer nobre de alma, sem o sentido de educado. Descontente descreve a vida, e não a pessoa: foi a vida que não a mereceu.

A tradição liga o poema a Dinamene, nome poético de uma jovem chinesa que teria afundado num naufrágio no Mekong. Os biógrafos não acharam documento que prove a existência dela, e a ligação segue sem confirmação.

Bandarra não teve soneto de adeus. Partiu em Trancoso em 1556, sem processo novo e sem livro, e as Trovas continuaram vivas nos cadernos alheios.

Em 1581, o índice de livros proibidos da Inquisição portuguesa incluiu as Trovas. A proibição não parou as cópias: os sebastianistas (os que esperavam a volta de D. Sebastião) as liam escondidos.

O padre António Vieira, o maior pregador da língua, usou as quadras no texto Esperanças de Portugal, de 1659, para anunciar que D. João IV, sepultado em 1656, voltaria para governar.

A Inquisição respondeu como respondera ao sapateiro. Vieira foi preso em Coimbra e, em 1667, ouviu a sentença que o proibia de pregar e de tratar de profecia.

Vieira passou dois anos preso. Saiu em 1668, perdoado pelo novo governo do príncipe D. Pedro, e nunca renegou a leitura que fazia de Bandarra.

Mais de um século separa os dois processos, e o motivo era o mesmo: interpretar o verso de um sapateiro de Trancoso.

Em 1934, Pessoa pôs Bandarra na Mensagem, no grupo de poemas chamado Os Avisos, como o primeiro dos profetas de Portugal. A obra de Pessoa está em domínio público no Brasil desde 2006; a de Camões e a de Bandarra, há séculos.

Na hora de ler

Leia Repousa lá no Céu sem pressa.

Baixe a voz em sempre triste, como quem fecha a porta.

“Que verso você copiaria à mão pra alguém guardar?”

Bandarra não viu a prensa.

 
 
Quiz da edição

Segundo a edição, em que ano a Inquisição portuguesa julgou e sentenciou Bandarra, em Lisboa?

A1536, ano em que o tribunal nasceu
B1541
C1578, ano do desaparecimento de D. Sebastião
D1644, ano da impressão das Trovas em Nantes

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