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Balada da Neve, o poema da batida na porta

Augusto Gil ouviu bater de leve, foi ver e achou a neve caindo; Portugal decorou os versos na escola por gerações.

Janela de casa portuguesa com neve caindo lá fora e pegadas pequenas marcadas na rua branca.

A vidraça, a neve e os passos na rua

▼
 

Augusto Gil escreveu em 1909 o verso “Batem leve, levemente”, e a linha ainda explica por que tanta gente em Portugal sabe um poema inteiro de cor sem lembrar onde o aprendeu.

Aprendeu na escola primária. A Balada da Neve entrou nos livros de leitura das crianças portuguesas e ficou lá por décadas.

Avós, pais e netos recitam as mesmas estrofes. Quem passou pela sala de aula sabe o ritmo antes de saber o nome do autor.

O poema começa com um som. Alguém bate na porta, tão de leve que o poeta duvida do próprio ouvido.

Ele pensa em chuva e descarta. A chuva bate mais forte. Pensa em gente e descarta também. Pensa no vento, mas as agulhas dos pinheiros do caminho estavam paradas.

A batida volta a cada estrofe, cada vez mais fraca. O leitor espera um visitante, e o visitante não chega.

Então o poeta se levanta e vai ver. Lá fora, a neve cai do céu cinzento, branca, leve e fria.

O mistério da porta se resolve num verso curto. Ninguém batia: era a neve encostando na madeira e no vidro.

A professora parava a turma nesse ponto. As crianças tinham passado três estrofes atrás de um visitante e descobriam que o visitante era o tempo.

Depois, a balada muda de cor. O poeta olha a rua pela vidraça e vê as pegadas de quem passa marcadas na brancura do caminho.

Entre as pegadas grandes, aparecem pés pequenos e descalços. A neve que era festa vira frio na pele de uma criança pobre.

Muita gente guarda só a primeira parte, a da porta e da surpresa. A segunda parte é a que dói, e é ela que fecha o poema.

O livro saiu em Lisboa e foi reeditado muitas vezes. A balada correu sozinha, em antologias, cadernos escolares e recitais de fim de ano.

Na primeira faixa vêm o nome completo do poeta, a cidade da infância dele e as estrofes da batida, linha a linha.

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I  O Poema do Dia

A neve na vidraça

A resposta de ontem

Quem juntou os poemas da Clepsidra em 1920?

Ana de Castro Osório, escritora e feminista portuguesa, organizou a Clepsidra e a publicou em 1920 pelas Edições Lusitânia, em Lisboa, a partir de cópias manuscritas e de versos ditados por amigos. O filho dela, João de Castro Osório, ampliou o livro nas edições seguintes, a partir de 1945.

Augusto César Ferreira Gil nasceu em 31 de julho de 1873, em Lordelo do Ouro, no Porto, e cresceu na Guarda, a cidade mais alta de Portugal, onde o inverno traz neve às ruas.

O poema abre a leitura porque transforma um som à porta num enigma e resolve o enigma com a paisagem.

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

Augusto Gil, Balada da Neve, Luar de Janeiro, 1909.

A estrofe tem cinco versos, a quintilha da tradição portuguesa. Cada verso tem sete sílabas, a redondilha maior (a medida das cantigas populares e das quadras de feira).

A medida curta explica a memória das crianças. É o compasso das cantigas de roda, e a boca reconhece o ritmo antes de entender a frase.

Repare na rima: levemente, gente e certamente fecham três versos com o mesmo som. O ouvido fica preso nele, como quem escuta a porta.

Na segunda estrofe, o poeta tenta o vento. Mas há pouco, há poucochinho (um pouquinho, no falar português), nem uma agulha bulia nos pinheiros do caminho.

Bulir quer dizer mexer. A paisagem está parada, e a batida continua.

O poeta descarta as hipóteses uma por uma, como um investigador à janela. Cada estrofe tira uma suspeita da lista e deixa a batida mais estranha.

A terceira estrofe repete a dúvida e soma as três hipóteses descartadas: não é chuva, nem é gente, nem é vento com certeza.

Na quarta estrofe, o verbo muda. Fui ver, diz o poeta, e a neve aparece caindo do azul cinzento do céu, branca e leve, branca e fria.

Ele confessa que fazia tempo que não a via, e chama Deus para dividir a saudade. A neve, para Gil, era lembrança da infância na Guarda.

Gil estudou Direito em Coimbra e foi advogar em Lisboa. Lá publicou Musa Cérula, em 1894, e Versos, em 1898, antes de Luar de Janeiro.

A crítica o liga ao neorromantismo, a corrente portuguesa da virada do século que voltou ao campo, à aldeia e ao falar do povo. A Balada da Neve usa palavras da casa e da rua: vidraça, linho, caminho.

Na hora de ler

Diga Batem leve, levemente com os dedos quase tocando a mesa.

Faça a pausa antes de Fui ver, como quem se levanta da cadeira.

 
 

II  Pra Ler no Altar

Os dois cansados

Num casamento, a casa entrega a página a Olavo Bilac, poeta brasileiro contemporâneo de Augusto Gil, e ao soneto do encontro na metade da estrada, impresso nas Poesias de 1888.

O soneto serve ao altar porque conta duas pessoas chegando cansadas ao mesmo ponto e se reconhecendo.

Cheguei. Chegaste. Vinhas fatigada
E triste, e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
E a alma de sonhos povoada eu tinha...

Olavo Bilac, Nel mezzo del camin..., Poesias, 1888.

O título está em italiano e quer dizer a meio do caminho. Bilac tirou as palavras do primeiro verso da Divina Comédia, de Dante Alighieri, escrita no começo do século XIV.

Dante abre o poema perdido numa floresta escura na metade da vida. Bilac pega a mesma metade e põe nela um encontro.

Os dois primeiros verbos ocupam três sílabas e cabem num fôlego. Cheguei, chegaste: a frase mais curta do soneto já conta que os dois vieram de longe.

O segundo e o quarto versos espelham o primeiro e o terceiro. Fatigada e triste, triste e fatigado; alma povoada, povoada alma.

A figura tem nome, quiasmo (a repetição dos termos em ordem invertida, em cruz). No soneto, a cruz desenha duas pessoas iguais vindo de lados opostos.

Bilac nasceu em 1865 e foi o poeta mais lido do Brasil no começo do século XX. Ajudou a fundar a Academia Brasileira de Letras, em 1897.

Noivou com Amélia de Oliveira, irmã do poeta Alberto de Oliveira, e o noivado se desfez por oposição da família dela. Bilac nunca se casou.

O soneto termina numa despedida. Nos tercetos, a mulher segue viagem, e o poeta fica vendo o vulto dela sumir na curva do caminho.

Os noivos ouvem a própria história em quatro versos. Cada um trazia um cansaço e um sonho, e os dois cansaços se encontraram na mesma esquina.

No altar, os tercetos saem do corte. O primeiro quarteto basta, e o espelho dos versos vira promessa.

Quem lê para os noivos repete um gesto antigo: o casamento como chegada, depois de duas estradas.

• O tom: baixo, de quem conta um fato.

• O corte: só o primeiro quarteto.

• O leitor: alguém que viu o casal se conhecer.

Na hora de ler

Diga Cheguei e Chegaste com um segundo de silêncio no meio.

Olhe para um noivo no verso dele e para o outro no seguinte.

 

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III  Pra Dizer Adeus

Os pés descalços

Numa despedida, a página volta a Augusto Gil e às estrofes finais da Balada da Neve, as que muita gente esqueceu desde a escola.

O trecho serve ao adeus porque deixa a tristeza entrar sem explicar e fecha na imagem da neve caindo por dentro.

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
e cai no meu coração.

Augusto Gil, Balada da Neve, Luar de Janeiro, 1909.

Turbação quer dizer perturbação, desassossego. Funda é a forma antiga e poética de profunda.

Antes desse fecho, o poeta olha pela vidraça. A neve pôs tudo da cor do linho, e quem passa imprime e traça os passos na brancura.

Ele conta as pegadas e distingue umas pequenas. São de crianças, e os pés estão descalços no frio.

Gil então se volta para o céu e pergunta ao Senhor por que as crianças padecem assim. O poema guarda a pergunta sem resposta e segue para a última estrofe.

A neve da porta era saudade. A neve da rua é a mesma, e agora fere.

No Portugal de 1909, a maior parte das crianças do campo andava descalça no inverno. O poeta não discursa sobre o assunto: mostra o pé na neve.

A última estrofe junta as duas neves. Cai lá fora, na Natureza com maiúscula, e cai dentro do peito de quem viu.

Para uma despedida, a estrofe diz o que o luto faz. A tristeza entra, fica presa, e a paisagem inteira passa a falar dela.

A rima fecha em turbação e coração, o som nasal mais grave do português. A voz desce sozinha no último verso.

Gil seguiu publicando. Saíram O Canto da Cigarra, em 1910, Sombra de Fumo, em 1915, e O Craveiro da Janela, em 1920.

Nos últimos anos, voltou para a Guarda, a cidade da neve da infância. Augusto Gil partiu lá em 26 de fevereiro de 1929, aos 55 anos.

Rosas desta Manhã, o último livro, saiu depois, em 1930. A Balada da Neve continuou nos livros de leitura e na boca de quem a decorou.

Na hora de ler

Diga Cai neve na Natureza devagar, uma palavra por vez.

Pare antes de e cai no meu coração e baixe a voz.

Gil viveu da advocacia e de um gabinete público na capital.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Que cargo do Estado Augusto Gil ocupou em Lisboa enquanto escrevia os livros de versos?

 
 
Quiz da edição

No poema Balada da Neve, o que o poeta descobre que estava batendo de leve na porta?

AUm vizinho perdido na neve
BA neve encostando na vidraça e na madeira da porta
CO vento batendo nos pinheiros do caminho
DUma criança pedindo abrigo

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