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ED 047
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As palmeiras que ele levou para Coimbra

Antônio Gonçalves Dias escreveu a Canção do Exílio em Coimbra, em julho de 1843, e os versos dele estão livres de direitos no Brasil desde 1935.

Palmeira brasileira desenhada de memória sobre um caderno aberto, ao lado de janela de pedra de Coimbra, em luz de manhã.

Coimbra, julho de 1843: a saudade do sabiá

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Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá; as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá. Antônio Gonçalves Dias escreveu essas quatro linhas em Coimbra, em julho de 1843, e elas resolvem hoje um problema prático de quem vai falar de saudade diante de gente sentada: a sala recebe uma paisagem inteira em duas palavras, palmeira e pássaro, antes de receber qualquer sentimento.

Ele nasceu em Caxias, no Maranhão, em 10 de agosto de 1823, filho do comerciante português João Manuel Gonçalves Dias e da brasileira mestiça Vicência Mendes Ferreira. Foi mandado a Portugal ainda adolescente e matriculou-se na Universidade de Coimbra em 1840, no curso de Direito.

A vida de estudante dele dependia de remessa que vinha do Maranhão por navio, e a remessa falhou. Amigos portugueses bancaram parte dos anos finais do curso. Ele se formou bacharel em 1844 e desembarcou de volta no Maranhão em 1845, com sete anos de Europa nas costas e um caderno de versos escritos longe de casa.

Primeiros Cantos saiu no Rio de Janeiro em 1846, e a Canção do Exílio abre o livro. Vieram depois Segundos Cantos, de 1848, e Últimos Cantos, de 1851, o volume com os poemas indianistas mais conhecidos dele. Fora da poesia, ele compilou um Dicionário da Língua Tupi, impresso em Leipzig em 1858.

Gonçalves Dias morreu em 3 de novembro de 1864, no naufrágio do vapor Ville de Boulogne, quando voltava da Europa. Pela conta da lei 9.610, que solta a obra setenta anos depois do primeiro dia do ano seguinte, os versos dele estão em domínio público no Brasil desde 1935: cabem num programa de cerimônia, numa placa de bronze e numa publicação, sem pedir licença a herdeiro nenhum.

A edição de hoje põe três textos dele em três situações de leitura falada: a Canção do Exílio para abrir um sarau, o Leito de Folhas Verdes para um altar e a estrofe final do exílio para uma despedida.

A primeira parada é a paisagem que um estudante de 19 anos montou de memória, num quarto alugado em Portugal.

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I  O Poema do Dia

O sabiá que atravessou o mar

Um sarau começa com a sala ainda conversando, e quem lê primeiro gasta metade do poema disputando a atenção de quem continua de papo aberto na mesa do fundo.

A Canção do Exílio resolve a abertura porque entrega uma paisagem na primeira linha, e paisagem se vê antes de se entender. A sala enxerga palmeira e pássaro em quatro segundos de leitura, e a imagem segura a escuta enquanto o sentido chega.

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Gonçalves Dias, primeira estrofe da Canção do Exílio, no livro Primeiros Cantos, 1846.

Gorjear quer dizer soltar o canto miúdo e repetido dos pássaros pequenos, e o verbo aparece duas vezes em dois versos seguidos, primeiro para as aves de Portugal, depois para as do Maranhão. A repetição é o motor da estrofe: a mesma ação, resultado diferente.

O sabiá do poema é o sabiá-laranjeira, pássaro de peito ferrugem que canta em fevereiro e outubro nas manhãs do Sudeste e do Nordeste brasileiro. Ele viraria ave nacional por decreto federal assinado em outubro de 2002, cento e quarenta anos depois de o poeta o ter posto no verso.

A medida do poema é a redondilha maior, quer dizer, verso de sete sílabas poéticas, contadas até a última tônica. É a medida das cantigas populares e dos cordéis, o que explica por que a estrofe gruda na memória de quem ouve uma vez só: o ouvido brasileiro já conhece esse passo.

Coimbra, onde ele escreveu, é cidade de carvalho, oliveira e videira, com o rio Mondego correndo no vale. Nenhuma palmeira na paisagem, nenhum sabiá na madrugada. O estudante de Direito compôs a terra natal usando o que faltava na janela dele, e por isso o poema é feito de lista curta, não de descrição longa.

A estrofe teve destino incomum: dois de seus versos foram parar na letra do Hino Nacional Brasileiro, assinada por Osório Duque-Estrada e oficializada em 1922, na passagem “nossos bosques têm mais vida, nossa vida, no teu seio, mais amores”. Um brasileiro médio já cantou Gonçalves Dias sem saber.

A leitura das cinco estrofes leva cinquenta segundos, e o poema serve a sarau de bar, abertura de clube de leitura e primeira rodada de microfone livre.

Na hora de ler

Anuncie a cidade e o ano antes do primeiro verso. Coimbra, julho de 1843, um estudante de 19 anos escrevendo sobre uma terra a um oceano de distância: a ficha muda a escuta da sala inteira.

Segure o ritmo na primeira estrofe, sem correr. Ela é uma lista de ausências, e lista lida com pressa vira enumeração de palavras bonitas.

Diga sabiá com a tônica no á, marcada. Muita gente lê esse nome depressa, ele perde o acento e a estrofe perde o bicho.

 
 

II  Pra Ler no Altar

A espera que vira promessa

Num casamento, quem lê no altar costuma receber o papel na véspera e descobrir na hora que o texto fala de eternidade para duas pessoas que estão tremendo na frente de cem convidados.

O Leito de Folhas Verdes serve ao altar porque descreve um gesto que o casal reconhece na hora: alguém preparou um lugar e está esperando a outra pessoa chegar. O poema inteiro se passa no intervalo entre a cama pronta e o passo que se ouve no bosque.

Por que tardas, Jatir, que tanto a custo
À voz do meu amor moves teus passos?
Da noite a viração, movendo as folhas,
Já nos cimos do bosque rumoreja.

Gonçalves Dias, primeira estrofe do poema Leito de Folhas Verdes, no livro Últimos Cantos, 1851.

Quem fala é uma mulher indígena, e Jatir é como se chama o homem que ela espera. Viração, na terceira linha, quer dizer a brisa que sopra à noite, e rumorejar quer dizer produzir um som baixo e contínuo, como o das folhas mexidas pelo vento.

O poema pertence ao indianismo, corrente da literatura brasileira do século 19 que pôs o indígena no lugar de herói romântico, e Últimos Cantos é o livro em que essa corrente ganha os textos mais lembrados de Gonçalves Dias. Ele conhecia tupi de estudo: o dicionário que compilou saiu sete anos depois deste livro.

Os versos são brancos, quer dizer, sem rima, em decassílabo, o verso de dez sílabas poéticas. A ausência de rima ajuda quem lê no altar: sem o clique do som repetido fechando o verso, a leitura soa como fala e não como recitação de escola.

A origem: diga que os versos são brasileiros, publicados no Rio de Janeiro em 1851, e que a voz do poema é de uma mulher. Sem essa apresentação, a sala escuta o nome Jatir e supõe tradução de texto estrangeiro.

O corte: pare na oitava linha. O desfecho do poema é triste, e vale dizer qual: Jatir não chega, a noite passa, e a última estrofe deixa a mulher deitada nas folhas murchas ao amanhecer. Um casamento não precisa desse final às onze da manhã.

O cuidado: leia Jatir com pausa curta antes, como nome próprio. Dito emendado no verso, vira som solto e a sala perde a pessoa que está sendo chamada.

Na hora de ler

Comece pela pergunta, sem preparação. As três primeiras palavras já são uma cobrança dirigida a alguém, e a sala entende na hora que existe um ausente na cena.

Olhe para quem espera no altar ao dizer a palavra passos. O gesto transfere o poema do bosque de 1851 para o corredor da cerimônia, e dispensa qualquer explicação sua depois.

 

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III  Pra Dizer Adeus

A volta que o verso pediu

Numa despedida, quem fala procura um texto sobre o que vem depois e descobre no meio do caminho que a família não quer promessa, quer o lugar de onde a pessoa veio.

A estrofe final da Canção do Exílio serve à despedida porque fala de retorno a uma terra, não de eternidade. O poema pede um ato concreto, voltar, e terra natal é o que a família consegue guardar.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;

Gonçalves Dias, estrofe final da Canção do Exílio, no livro Primeiros Cantos, 1846.

Primores, na terceira linha, quer dizer aquilo que um lugar tem de excelente. O poeta não lista nenhuma: depois de quatro estrofes falando de palmeira, sabiá, bosque e estrela, ele deixa a palavra genérica fazer o resumo, e quem ouve preenche com a própria memória.

A estrofe inteira é uma súplica, construída num pedido religioso e em duas orações negativas seguidas, sem que, sem que. O poema começa descritivo e termina como reza, e essa virada de tom é o que o torna útil num salão de velório.

O verso deu certo na vida dele. Gonçalves Dias voltou ao Maranhão em 1845, um ano depois de formado, e ainda viajaria à Europa três vezes, a serviço do governo imperial e por tratamento de saúde.

A última dessas travessias terminou mal. Doente, ele embarcou em Bordeaux e o vapor Ville de Boulogne encalhou nos baixios da costa maranhense, perto de Guimarães, na madrugada de 3 de novembro de 1864. Ele foi o único passageiro que não desceu vivo do navio; os outros alcançaram a praia.

Um ponto as fontes deixam em aberto, e vale dizer qual: os relatos divergem sobre em que momento da noite ele foi esquecido a bordo, e a tripulação prestou depoimentos que não batem entre si sobre quem devia buscá-lo na cabine. Ficaram registrados o encalhe, a perda do passageiro e a data.

Numa cerimônia de despedida, leia só estas quatro linhas e diga antes de que terra a pessoa saiu. O nome da cidade faz o poema sair do terreno da literatura e entrar no terreno da vida de quem está sendo lembrado, e a família costuma responder contando a história da mudança.

Na hora de ler

Pare na vírgula depois de morra. A pausa separa o pedido do motivo, e o silêncio ali vale mais que qualquer entonação.

Não levante a voz em primores. A palavra é a única abstrata da estrofe e aguenta pouco peso; dita em volume alto, ela soa como discurso e o salão rejeita na hora.

“Que verso você leria por uma terra que não vê há anos?”

O naufrágio foi na costa do Maranhão.

 
 
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ED 048 · amanhã às 18:18

O poeta fingidor tinha mais duas estrofes

Fernando Pessoa datou a Autopsicografia de abril de 1931, e a quadra que todos citam é só a primeira de três.

 
 
 

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