In partnership with

Poesia do Dia   Poesia do Dia
ED 082
{{saudacao | Bom te ver por aqui.}} {{saudacao_nome | }}
              
{{ofensiva_curta | comece hoje}}
Ver ofensiva →

A edição de hoje foi escolhida pela maioria dos leitores na votação de ontem.

{{subiu_orn | }} {{subiu_num | }} {{subiu_orn | }}

{{subiu_caps | }}

{{subiu_linha | }}

As mornas da ilha Brava chegaram ao livro em 1932

Eugénio Tavares escreveu em crioulo as canções dos emigrantes e não viu o livro reunido, impresso em Lisboa dois anos depois.

Cais de pedra numa ilha de Cabo Verde, com um navio a vela ao largo e montanhas ao fundo.

O cais de uma ilha de Cabo Verde

▼
 

Eugénio Tavares deixou escrita, no crioulo da ilha Brava, a linha “Hora di bai, hora di dor” (hora de partir, hora de dor), impressa em Lisboa em 1932. Quase cem anos depois, a frase ainda dá nome ao aperto de quem leva alguém ao portão de embarque e volta sozinho para o carro.

Tavares nasceu em 1867 em Nova Sintra, a vila no alto da Brava, a menor das ilhas habitadas de Cabo Verde, arquipélago africano que era então colônia portuguesa.

Escrevia em português nos jornais e em crioulo nas canções. O crioulo (a língua nascida nas ilhas da mistura do português com línguas africanas) era falado em todas as casas e desprezado nos papéis oficiais, que o tratavam como português estragado.

Tavares defendeu a língua em artigos e provou a defesa na prática. Compôs dezenas de mornas (canções lentas, de violão e violino, o gênero nacional de Cabo Verde) na fala da rua, com as palavras que as mães usavam na cozinha.

As letras corriam de boca em boca. Eram cantadas em serenatas, nos bailes de Nova Sintra e nas despedidas no porto, e muita gente sabia os versos de cor sem saber quem os tinha escrito.

Ele nunca organizou um volume. Os poemas ficavam em folhas soltas, em jornais da colônia e na memória dos cantores, e cada ilha cantava a sua versão.

Tavares morreu em Nova Sintra em 1930, aos 62 anos, sem ver as mornas reunidas. Dois anos depois, uma editora de Lisboa publicou Mornas, Cantigas Crioulas, o primeiro livro com as letras dele.

O volume salvou dos erros de cópia as canções que o povo já sabia. Em 2019, a UNESCO inscreveu a morna na lista do patrimônio cultural imaterial da humanidade, e o nome de Tavares aparece em toda história do gênero.

A primeira faixa abre a morna mais conhecida do livro, Hora di Bai, e o porto da Brava onde os navios americanos vinham buscar marinheiros.

Continue lendo ↓

 

Quem banca a edição de hoje

You built the audience. Can you reach them?

You can have thousands of people following your work and still need an algorithm’s permission to reach them. Creators know the drill: you post, you pray, you check the numbers, you try again tomorrow.

A newsletter changes that relationship. On beehiiv, you can build a subscriber list you own, reach readers directly, and turn their attention into a sustainable business with subscriptions, sponsors, a global ad network, and more.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

I  O Poema do Dia

O porto dos baleeiros

O poema do dia é Hora di Bai, de Eugénio Tavares. Na Brava, a canção acompanhava o momento em que o barco levava um filho, um irmão ou um noivo para a América.

A morna nasceu da partida: a Brava vivia de mandar os filhos embora.

Hora di bai,
hora di dor,
já'n q'ré
pa el ca manchê!

Eugénio Tavares, Hora di Bai, Mornas, Cantigas Crioulas, 1932.

Em prosa: é hora de partir, é hora de dor; eu já queria que ela não amanhecesse.

Manchê é amanhecer, na fala da Brava. Q'ré é querer, com a vogal engolida. O cantor pede que a noite da véspera dure para sempre, porque o barco sai com a luz.

Os navios de New Bedford

Desde o século XIX, navios baleeiros (barcos de caça à baleia) de New Bedford, cidade do estado americano de Massachusetts, paravam na Brava para completar a tripulação.

Os rapazes da ilha embarcavam como marinheiros. Muitos desciam nos Estados Unidos ao fim da temporada e ficavam por lá, em New Bedford e nas cidades vizinhas da costa.

A viagem era de ida longa. Quem partia mandava dinheiro e cartas; quem ficava contava os anos. Quase toda família da Brava tinha alguém na América.

O embarque acontecia de madrugada. A família descia a encosta de Nova Sintra até a baía com o rapaz e a trouxa de roupa, esperava o bote do navio e ficava na pedra até a vela sumir no horizonte. Quem cantava Hora di Bai cantava aquela madrugada.

O autor no cais

Tavares conheceu esse caminho por dentro. Em 1900, depois de um conflito com as autoridades da colônia, saiu da ilha às escondidas e foi viver em New Bedford.

Lá fundou A Alvorada, um jornal em português para os cabo-verdianos da cidade. Voltou à Brava depois de 1910, quando a República trocou o governo em Lisboa.

Quando escreveu Hora di Bai, sabia o peso da mala na mão de quem embarca e o silêncio de quem fica no cais.

A forma da morna

A morna anda devagar, em compasso de dois tempos. O violão marca o passo, o cavaquinho preenche e o violino canta junto com a voz.

A letra de Tavares usa versos curtíssimos, de duas ou três palavras. Hora di bai, hora di dor: a mesma batida duas vezes, com a última palavra trocada. O ouvido guarda a melodia pela repetição.

O ponto de exclamação no fim da estrofe marca o grito contido. Na voz do cantor, ele vira uma nota longa, sustentada pelo violino.

Na hora de ler

Leia os dois primeiros versos no mesmo fôlego e pare antes de já'n q'ré. A pausa curta faz o pedido soar como suspiro.

 
 

II  Pra Ler no Altar

Um amor sem medida

Para um casamento, a página fica com outra morna de Eugénio Tavares, Força di Cretcheu (força do bem-querer), cantada há gerações nas festas de casamento de Cabo Verde.

Os quatro versos servem ao altar porque medem o amor contra Deus e deixam o amor ganhar.

Ca tem nada na es bida
mas grande que amor.
Se Deus ca tem medida,
amor inda é maior.

Eugénio Tavares, Força di Cretcheu, Mornas, Cantigas Crioulas, 1932.

Em prosa: nesta vida não há nada maior que o amor; se Deus não tem medida, o amor ainda é maior.

Ca é o não do crioulo. Bida é vida, com o v trocado pelo b, como se ouve em toda a Brava. Cretcheu é a pessoa amada, palavra que a ilha usa para noivo, marido, namorada e filho pequeno.

A ousadia da quadra

A colônia era católica, e o padre lia a missa em latim. Uma canção popular que punha o amor acima da medida de Deus soava atrevida.

Tavares não negou Deus. Fez uma conta: se o infinito existe, o amor cabe nele e ainda sobra. O argumento é de poeta, e o povo o aceitou cantando.

A estrutura é de silogismo (raciocínio em duas premissas e uma conclusão), o mesmo que os padres ensinavam no seminário. Tavares usou a arma da teologia para chegar a um lugar onde a teologia não ia.

O crioulo no altar

Quando Tavares escrevia, a escola, o tribunal e a Igreja falavam português. O crioulo ficava para a casa, a feira e o namoro.

Ao escrever o amor em crioulo, ele deu à língua da casa a dignidade de poema. Dizer estes versos num casamento repete esse gesto: a promessa sai na língua de quem a faz.

Para os noivos com avós nas ilhas, a quadra soa como a voz da família. Muitos a ouviram pela primeira vez cantada numa sala, num aniversário ou num batizado, bem antes de saber ler.

Por que funciona no altar

A quadra é curta, rima em pares e cabe numa respiração. Quem não fala crioulo entende pela música das palavras, com a tradução dita antes.

• O corte: só a quadra inteira, sem o refrão.

• O tom: firme e lento, como a morna.

• O leitor: alguém da família com raiz nas ilhas.

Na hora de ler

Diga primeiro a tradução, numa frase só. Depois leia os quatro versos em crioulo, olhando para o casal.

Segure a palavra medida e deixe maior sair por último, mais alto.

 

Quem banca a edição de hoje

Your Body, Your Story: Beauty, Health, and Culture, Unfiltered

What shapes the way we see our bodies? Allure Perspectives, hosted by Allure editor-in-chief Jessica Cruel, explores breasts through beauty, health, identity, and culture. Expect expert insights, candid personal stories, and honest conversations about the things we rarely talk about openly.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

III  Pra Dizer Adeus

A noite sem manhã

Numa despedida, a página volta a Hora di Bai, de Eugénio Tavares, e aos quatro versos seguintes da primeira estrofe, os mais doídos da canção.

Os versos servem ao adeus porque dizem a vontade de ficar junto de quem parte, sem enfeite.

De cada bez
que'n ta lembrâ,
ma'n q'ré
fica'n morrê!

Eugénio Tavares, Hora di Bai, Mornas, Cantigas Crioulas, 1932.

Em prosa: cada vez que me lembro, eu prefiro ficar aqui e acabar de vez.

Lembrâ é lembrar. Ma'n q'ré junta duas ideias numa sílaba só: mais eu quero, o jeito crioulo de dizer prefiro.

A saudade sem distância

Na Brava, quem partia para a América às vezes nunca voltava. O adeus no cais tinha peso de enterro, e a morna dava forma a um luto sem corpo.

Numa despedida de hoje, os versos servem pelo mesmo motivo. Dizem o desejo de não deixar ir, e não pedem consolo a ninguém.

A estrofe não promete reencontro nem céu. Fica na hora presente, a do cais, e por esse motivo combina com o velório de quem não tinha fé declarada, ou com o adeus a alguém que partiu para longe e não volta.

O livro depois do autor

Eugénio Tavares morreu em Nova Sintra em 1º de junho de 1930. As mornas seguiam vivas nas vozes da ilha, mas espalhadas em versões diferentes.

O livro de 1932 juntou as letras com a grafia que ele usava, de ouvido, sem regra oficial. Por muito tempo, foi a principal fonte escrita do crioulo da Brava.

A Hora di Bai seguiu no repertório dos cantores de Cabo Verde e das comunidades cabo-verdianas de New Bedford e de Lisboa.

Em Nova Sintra, a praça central leva o nome de Eugénio Tavares, e a casa onde ele viveu foi preservada como lugar de memória do poeta.

Na hora de ler

Diga De cada bez devagar, como quem conta. Faça a pausa depois de lembrâ e deixe fica'n morrê cair baixo, quase sem voz.

Tavares não viu o livro.

 
 
Quiz da edição

De qual cidade dos Estados Unidos vinham os navios baleeiros que buscavam marinheiros na ilha Brava, segundo o texto?

ANantucket, Massachusetts
BProvidence, Rhode Island
CNew Bedford, Massachusetts
DBoston, Massachusetts

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

🪶🪶🪶🪶🪶  ótima 🪶🪶🪶🪶  boa 🪶🪶🪶  ok 🪶🪶  ruim 🪶  péssima
 
Escolha a edição de amanhã

Qual edição você quer ver amanhã?

Voto aberto até 28/10, 23h

A Leandro Gomes de Barros →
B Marânus de Pascoaes →
C Lino Guedes →
D Frauta Agreste →
 
Recomendação de Newsletter
Crime Aberto

Crime Aberto

Toda noite, às 20:20, um caso brasileiro que ficou em aberto. O que os autos dizem, o que os autos silenciam e onde o sistema falhou.

Quero receber →

 
Sua ofensiva
🔥 {{streak_atual | 0}} {{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}} recorde {{streak_recorde | 0}}
Seus últimos 6 dias e hoje
{{ouro_linha | Cada edição vale 10 de ouro: voto, quiz e clique.}}

missão de hoje

📨 Mandar seu link pra 1 pessoa (1x por dia) +10
WhatsApp   Copiar link

Confirmou? +100 de ouro: entra no seu ouro à noite.

{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}
{{rank_simbolo | Ⅰ}} {{rank_nome | Aprendiz}} · {{moedas | 0}} de ouro · loja e missões →
 
Clímax da temporada

Maratona dos 7 dias finais

◆◆◆28293031

Dia 4 de 7 · a temporada de outubro fecha 31/10

{{maratona_dias | 0}}
dias feitos
{{maratona_faltam | 6}}
pra fechar

Presença por clique, voto ou quiz. Sem folga na maratona: o seguro do mês cobre 1 dia.

Acompanhar minha ofensiva →

 
 
 

Leve o texto na mão.

Poesia do Dia

POESIA DO DIA

Dois minutos de arte, todo dia

💬 Receba pelo WhatsApp·✍️ Crie sua Newsletter