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As liras de Marília saíram de uma cela na Ilha das Cobras
Preso em maio de 1789, o ouvidor de Vila Rica seguiu escrevendo liras para a noiva, e o livro chegou a Lisboa três anos depois.
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Ilha das Cobras, 1789, a cela do ouvidor
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Em 23 de maio de 1789, o ouvidor de Vila Rica foi preso dentro da própria casa. O casamento dele estava marcado para o fim daquele mesmo mês.
Ele tinha quarenta e quatro anos e era o magistrado mais graduado da comarca mais rica da América portuguesa. Respondia por participação na Inconfidência Mineira.
A noiva ficou em Vila Rica. Os dois nunca mais se viram.
Do Rio de Janeiro em diante a história muda de endereço. O preso foi levado para a fortaleza da Ilha das Cobras, na baía de Guanabara, e passou três anos ali antes de ouvir a sentença.
Nesses três anos ele continuou escrevendo para ela. Não eram cartas: eram liras numeradas, com nome pastoril dos dois lados, ele assinando Dirceu e ela chamada de Marília.
A primeira parte do livro saiu em Lisboa em 1792, com trinta e três liras. A segunda veio em 1799, com trinta e oito, e é nela que moram os poemas escritos atrás da grade.
A lira que abre essa segunda parte conta como foi feita. O poeta escreve que a fumaça da candeia, batendo na parede molhada, serve de tinta, e que a ponta de um pé de laranja azeda faz as vezes de pena.
Depois avisa que não pretende perder as horas úteis. Cinco estrofes adiante, no meio da masmorra, ele descreve os olhos, a testa e os cabelos de quem tinha ficado a mais de trezentos quilômetros dali.
O livro atravessou o século seguinte em edição atrás de edição, e o motivo aparece no jeito de dizer: frase curta, palavra de conversa, nenhuma exigência de erudição do lado de quem lê.
A clareza é o que mantém o texto de pé em voz alta hoje, num altar ou numa despedida, sem que ninguém precise explicar o século dezoito para a sala.
O que vem agora é quem assinou o livro, o desenho que a lira tem por dentro e as cinquenta e cinco linhas completas, na grafia das edições modernas.
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I O Poema do Dia
A tinta era fuligem de candeia
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Um magistrado português de quarenta e quatro anos, um casamento desmarcado por uma prisão e cinquenta e cinco linhas escritas dentro de uma fortaleza. Veja quem assinou o livro e o texto completo da lira.
Tomás Antônio Gonzaga nasceu em Miragaia, no Porto, em 11 de agosto de 1744, formou-se em direito em Coimbra e serviu como juiz de fora em Beja, no Alentejo, antes de atravessar o Atlântico.
Em 1782 assumiu em Vila Rica o cargo de ouvidor e provedor dos defuntos e ausentes, que respondia pela justiça da comarca e pelo espólio de quem partia sem herdeiro.
Maria Dorotéia Joaquina de Seixas Brandão nasceu em Vila Rica em 1767, numa das famílias principais da vila. Tinha dezessete anos quando o noivado começou, e ele já passava dos quarenta.
A sentença de 1792 mandou o ouvidor para o degredo perpétuo em Angola, pena comutada em dez anos na Ilha de Moçambique. Ele desembarcou doente e em 1793 casou com a filha do comerciante que o acolheu.
Marília ficou em Vila Rica e não se casou. Viveu até 1853, apontada na rua a vida inteira como a moça dos versos.
A lira que abre a Parte II tem onze estrofes de cinco versos. Os dois primeiros versos de cada estrofe são longos, de dez sílabas, e os três seguintes encolhem quase pela metade.
A rima repete o mesmo desenho nas onze estrofes: o primeiro verso rima com o terceiro, o segundo com o quinto, e o quarto fica sem par. Testa e resta, inspira e Lira.
O verso curto é o que dá o efeito: a frase começa larga e termina apertada.
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Já não cinjo de louro a minha testa; Nem sonoras canções o Deus me inspira: Ah! que nem me resta Uma já quebrada, Mal sonora Lira! Mas neste mesmo estado em que me vejo Pede, Marília, Amor que vá cantar-te: Cumpro o seu desejo; E ao que resta supra A paixão e a arte. A fumaça, Marília, da candeia Que a molhada parede ou suja, ou pinta, Bem que tosca e feia Agora me pode Ministrar a tinta. Aos mais preparos o discurso apronta: Ele me diz que faça do pé de uma Má laranja ponta, E dele me sirva Em lugar de pluma. Perder as úteis horas não, não devo; Verás, Marília, uma ideia nova: Sim, eu já te escrevo, Do que esta alma dita Quando amor aprova. Quem vive no regaço da ventura Nada obra em te adorar, que assombro faça: Mostra mais ternura Quem te ensina, e morre Nas mãos da desgraça. Nesta cruel masmorra tenebrosa Ainda vendo estou teus olhos belos, A testa formosa, Os dentes nevados, Os negros cabelos. Vejo, Marília, sim, e vejo ainda A chusma dos Cupidos, que pendentes Dessa boca linda, Nos ares espalham Suspiros ardentes. Se alguém me perguntar onde eu te vejo, Responderei: No peito, que uns Amores De casto desejo Aqui te pintaram, E são bons Pintores. Mal meus olhos te riam, ah! nessa hora Teu retrato fizeram, e tão forte, Que entendo, que agora Só pode apagá-lo O pulso da Morte. Isto escrevia, quando, ó Céus, que vejo! Descubro a ler-me os versos o Deus louro: Ah! dá-lhes um beijo, E diz-me que valem Mais que letras de ouro.
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Tomás Antônio Gonzaga, Lira I da Parte II de Marília de Dirceu, escrita na prisão e publicada em 1799, aqui na grafia das edições modernas.
Sete palavras pedem tradução: cinjo vem de cingir, cercar a testa; louro é a coroa do poeta premiado; candeia é a lamparina de azeite; ministrar é fornecer; preparos são os materiais que faltam; chusma é bando; o Deus louro é Apolo.
Em voz alta, as cinquenta e cinco linhas levam cerca de três minutos e meio em ritmo de cerimônia, com um segundo de pausa entre as estrofes.
A linha de apresentação cabe numa frase: Tomás Antônio Gonzaga, Lira I da segunda parte de Marília de Dirceu, publicada em 1799. Diga o nome, o livro e o ano, espere um segundo e comece.
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II Pra Ler no Altar
As duas estrofes que valem por voto
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A nona e a décima estrofes formam uma pergunta e a resposta dela. São dez linhas, quarenta segundos de leitura, e entregam a promessa inteira sem que o cenário da cela apareça em nenhum verso.
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A ocasião é a troca de votos: casamento na igreja ou no cartório, renovação de votos, bodas, pedido de noivado diante da família.
O trecho não fala de aliança, de altar nem de noivos em palavra alguma, e é por não falar que ele serve. A sala preenche o resto sozinha.
A nona estrofe responde onde a pessoa fica guardada. Não é numa lembrança nem numa saudade: é num retrato pintado no peito, e o poeta ainda elogia os pintores.
A décima diz desde quando e até quando. O retrato foi feito no primeiro sorriso e só o pulso da morte apaga ele, que é a fórmula do voto de casamento escrita com outras palavras.
Onde começar: no verso Se alguém me perguntar onde eu te vejo. Onde parar: em O pulso da Morte, deixando de fora a estrofe final.
O que vem antes muda o clima da sala. As oito estrofes iniciais falam de lira quebrada, parede molhada e masmorra, e num casamento a cena da cela desmonta a promessa que vem logo depois.
Na hora de ler
Antes de começar, diga quem assina e de quando é. A sala escuta diferente quando sabe que a promessa saiu de um homem que já tinha perdido o próprio casamento.
Combine a última linha com os noivos antes da cerimônia. Ela nomeia a morte, do mesmo jeito que a fórmula do celebrante, e casal nenhum deveria ouvir a palavra pela primeira vez em pé no altar.
Trocar palavra do original para encaixar o nome dos noivos quebra o decassílabo e entrega o truque. Leia as dez linhas como estão e faça a ponte na frase seguinte, em prosa.
Se quiser um trecho ainda mais curto, leia só a nona estrofe. Ela termina em E são bons Pintores, e fecha a resposta sem tocar no assunto do fim.
Sem igreja o corte funciona igual. Cartório, jantar de bodas, pedido em casa: as dez linhas se sustentam em qualquer sala, porque a cena delas é uma conversa, não um rito.
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