Sponsored by

Poesia do Dia   Poesia do Dia
ED 044
{{subiu_orn | }} {{subiu_num | }} {{subiu_orn | }}

{{subiu_caps | }}

{{subiu_linha | }}

A vela acesa e a estante que olha

Pedro Kilkerry escreveu É o silêncio em Salvador, publicou em revista e nunca reuniu um livro; os versos só foram juntados em 1970.

Mesa de trabalho à luz de vela, com folhas manuscritas e uma estante de livros ao fundo.

Salvador, anos 1910: vela acesa e estante

▼
 

É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa. Pedro Kilkerry abriu com esse verso o poema É o silêncio, publicado em revista de Salvador na década de 1910, e o que ele resolve hoje é a leitura em voz alta que precisa de um objeto em cima da mesa: quem diz a linha entrega à sala uma chama e uma fumaça antes de entregar qualquer sentimento.

Pedro Augusto Kilkerry nasceu em Santo Antônio de Jesus, na Bahia, em 10 de março de 1885, filho de pai irlandês e mãe baiana, e cresceu em Salvador. Formou-se em direito, trabalhou como jornalista e publicou os poemas soltos, um aqui, outro ali, nas revistas e nos jornais da cidade: Os Anais, A Nova Cruzada, folhas que circulavam entre estudantes e advogados do Terreiro de Jesus.

Ele não reuniu nenhum desses textos em volume. Contraiu tuberculose, passou os últimos meses sem publicar e não chegou aos trinta e três anos: parou em Salvador, em 25 de março de 1917. O que restava dele estava espalhado em coleções de revista guardadas por amigos e por bibliotecas da Bahia, sem nenhuma ordem que o próprio autor tivesse deixado marcada.

O resgate levou décadas. O crítico paranaense Andrade Muricy garimpou os poemas nos anos 1950 para o seu Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro, e o poeta paulista Augusto de Campos publicou em 1970 o volume ReVisão de Kilkerry, que recolheu os versos, comparou as versões impressas em revista e apresentou o baiano como precursor do modernismo. Entre a última publicação em vida e o primeiro livro correram cinquenta e três anos.

Pela contagem da lei 9.610, que libera a obra setenta anos depois do primeiro dia do ano seguinte ao fim da vida do autor, os versos de Kilkerry estão em domínio público no Brasil desde 1988. Ler em sarau, imprimir em programa de cerimônia, gravar em placa: nenhum desses usos pede autorização a ninguém.

A edição de hoje põe três trechos de É o silêncio em situação de leitura em voz alta: a abertura de objeto para começar um sarau, os versos do passo que se aproxima para uma cerimônia de casamento e a linha final da janela para uma despedida.

A primeira parada é a chama que abre o poema.

Continue lendo ↓

 
 

I  O Poema do Dia

A vela acesa no primeiro verso

Quem abre um sarau costuma dizer que a poesia é importante, que a noite promete e que o público está convidado a sentir. A sala escuta a declaração de intenção, bate palma por educação e chega ao primeiro poema sem nada na cabeça.

A abertura de É o silêncio resolve o começo do sarau porque põe três objetos na mesa antes de qualquer emoção: o silêncio, o cigarro e a vela. Quem escuta já tem o que ver quando o segundo verso chega.

É o silêncio, é o cigarro e a vela acesa.
Olha-me a estante em cada livro que olha.
E a luz nalgum volume sobre a mesa...
Mas o sangue da luz em cada folha.

Pedro Kilkerry, primeira quadra do poema É o silêncio, publicado em revista de Salvador na década de 1910.

A segunda linha tem o gesto que faz a quadra funcionar numa sala cheia. A estante olha para quem escreve, e cada livro dentro dela também olha. Um objeto parado recebe a ação do verbo, e o cômodo inteiro fica acordado sem que o poeta precise dizer que está nervoso.

Sangue da luz, na quarta linha, trava o ouvinte de primeira viagem. Vale traduzir na hora: a chama da vela é vermelha, a página branca fica vermelha perto dela, e o poeta chama de sangue o que qualquer pessoa chamaria de reflexo. A metáfora, quer dizer, o nome trocado de propósito, deixa a folha viva e um pouco ferida.

A quadra pertence ao simbolismo, a corrente de poesia do fim do século 19 que trabalhava por sugestão e por som, sem contar história. Kilkerry escrevia em Salvador, longe do Rio de Janeiro dos nomes conhecidos da corrente, e usava as mesmas ferramentas com a mão mais seca.

Quem lê a quadra em voz alta ganha o volume baixo de graça: a palavra silêncio abre o texto e pede que a sala faça a mesma coisa.

A leitura da quadra leva quinze segundos. Ela abre sarau de bar, noite de microfone livre, aula sobre simbolismo brasileiro e roda de leitura em casa, sempre como primeira coisa dita ao microfone.

Na hora de ler

Diga o nome completo do poeta, a cidade e a década antes do primeiro verso. Salvador, anos 1910, um jornalista baiano de vinte e poucos anos escrevendo à luz de vela: a ficha muda a escuta da sala inteira.

Pare meio segundo depois de cada vírgula da primeira linha. São três objetos em sequência, e a pausa entrega um objeto por vez, sem empilhar os três num borrão.

Não explique a palavra sangue antes de ler. Leia a quadra inteira, deixe dois segundos e só então diga, em meia frase, que a luz da vela deixa a folha vermelha.

 
 

II  Pra Ler no Altar

O passo que se aveluda

Numa cerimônia de casamento, quem lê no altar escolhe um texto que descreve o amor como estado permanente, sólido, resolvido. A sala escuta a descrição de uma estátua enquanto duas pessoas de verdade tremem na frente de todo mundo.

Os versos do passo funcionam na cerimônia porque descrevem o instante que todo mundo na sala está vivendo: alguém que ainda não apareceu, mas já está sendo ouvido. É o minuto exato antes da porta abrir.

Tão longe vai! Tão longe se aveluda
esse teu passo,
Asa que o ouvido anima... E a câmara muda.

Pedro Kilkerry, versos do poema É o silêncio, publicado em revista de Salvador na década de 1910.

Aveludar quer dizer ficar macio como veludo, e Kilkerry usa o verbo para o som do passo, não para o tecido. O passo que se aveluda é o passo que vai perdendo o barulho conforme se afasta, ou que chega abafado pelo corredor. Quem lê no altar faz bem em dizer a tradução em meia frase, logo depois do verso.

Asa que o ouvido anima é o desenho central do trecho. O som do passo chega antes da pessoa, e quem escuta completa o resto com a imaginação, como se o ouvido desse asa ao que ainda não viu. Numa cerimônia, a plateia inteira faz esse trabalho enquanto olha para a porta fechada.

Câmara, na terceira linha, é o quarto, o aposento, e não a máquina fotográfica. A palavra vinha do italiano e do latim e já estava velha no português de Kilkerry, que a escolheu pelo som fechado. Câmara muda é o cômodo que emudece, que para de fazer ruído, e o verso entrega ao mesmo tempo o silêncio do lugar e a espera de quem está dentro dele.

A repetição de tão longe, duas vezes na primeira linha, tem uso prático no altar. Ela dá ao leitor um degrau de volume: a primeira vez sai firme, a segunda sai mais baixa, e o trecho termina quase sussurrado, na hora em que a noiva ou o noivo entra de fato.

Kilkerry escreveu os versos sobre uma ausência, alguém que não está no quarto com ele, e a transposição para o altar funciona porque o desenho continua o mesmo: passo ouvido, espera esticada, cômodo que emudece quando a pessoa aparece.

A origem: diga que os versos são brasileiros, escritos em Salvador na década de 1910 por um jornalista que publicava em revista. Uma frase basta.

O corte: pare na palavra muda. O trecho seguinte do poema vira pesadelo de papel, e o clima não serve à celebração.

O cuidado: avise antes que câmara, no verso, quer dizer quarto. Sem esse aviso, metade da sala vai imaginar um fotógrafo.

Na hora de ler

Marque a quebra curta da segunda linha. Esse teu passo é uma linha de três palavras no meio de duas linhas longas, e a queda de tamanho é o que faz a sala prender a respiração.

Guarde a palavra muda para o fim do fôlego. Diga as três sílabas finais no ar que sobrou, e não puxe ar antes delas.

 

Quem banca a edição de hoje

How 2M+ Professionals Stay Ahead on AI

AI is moving fast and most people are falling behind. 

The Rundown AI keeps you ahead of the curve. 

It's a free AI newsletter that keeps you up-to-date on the latest AI news, and teaches you how to apply it in just 5 minutes a day.

Plus, complete the quiz after signing up and they’ll recommend the best AI tools, guides, and courses — tailored to your needs.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

III  Pra Dizer Adeus

A janela que se abre no fim

Numa despedida, quem fala procura uma frase de conforto que sirva para qualquer pessoa e entrega à família uma ideia genérica de descanso. A sala agradece e sai sem levar imagem nenhuma.

O fecho de É o silêncio serve à despedida porque não oferece consolo: ele oferece um gesto, e o gesto é abrir a janela. A família recebe uma instrução que consegue cumprir naquele mesmo dia.

Cresce-me a estante como quem sacuda
Um pesadelo de papéis acima...
E abro a janela.

Pedro Kilkerry, versos finais do poema É o silêncio, publicado em revista de Salvador na década de 1910.

A estante que cresce é a mesma da primeira quadra, e agora ela ocupa o quarto inteiro. Sacudir um pesadelo de papéis acima descreve o movimento de quem levanta os braços cheios de folhas e as deixa cair, e o poeta usa a cena para dizer que o peso do trabalho passou do limite do cômodo.

A última linha tem quatro palavras e nenhum adjetivo. Depois de um poema construído com reticências, inversões e palavras raras, Kilkerry fecha no português mais comum que existe, e o corte de vocabulário faz a frase soar como alívio numa cerimônia de despedida.

O poema também mostra a forma se desmanchando pelo caminho. Ele começa em quadras de quatro versos e terceto de três, o desenho do soneto, quer dizer, o poema de catorze versos em forma fixa, e depois quebra em linhas de tamanhos desiguais até a frase seca do fim. Augusto de Campos apontou essa quebra em 1970 como o traço que aproxima Kilkerry do modernismo que viria sete anos depois dele.

Um ponto segue sem resposta, e vale dizer com todas as letras: não se sabe em que ano exato É o silêncio foi escrito. Kilkerry publicava avulso em revista, sem datar manuscrito, e as folhas de Salvador daquele período chegaram incompletas às bibliotecas. As datas que circulam vêm do número da revista em que cada poema apareceu, e para vários textos nem esse número sobreviveu.

O percurso público dele, esse está documentado. Kilkerry assinou crônica e poema na imprensa baiana, foi lido por um círculo pequeno de Salvador, sumiu do mapa literário por mais de trinta anos, voltou pela pesquisa de Andrade Muricy nos anos 1950 e ganhou volume próprio em 1970. Hoje é leitura de curso de literatura brasileira.

“Qual verso você guardou sem nunca ter lido o livro inteiro?”

O primeiro livro dele saiu cinquenta e três anos depois.

 
 

Ebook + app · Poesia do Dia

Capa do ebook

o ebook

ensina

+
O app no celular

o app

treina

A Fôrma do Poema, no ebook e no app.

📖O ebook ensina: O método de imitação que faz quem nunca escreveu terminar o primeiro poema em 40 minutos.
📱O app treina: 1 fôrma por dia no celular, marcado e anotado. Atrasou, o plano espera.
 
Quero o ebook + app →
 
Quiz da edição

Quantos anos correram entre a última publicação de Kilkerry em vida e o primeiro livro com os versos dele?

A33 anos
B70 anos
C53 anos
D43 anos

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

🪶🪶🪶🪶🪶  ótima 🪶🪶🪶🪶  boa 🪶🪶🪶  ok 🪶🪶  ruim 🪶  péssima
 
Escolha a próxima edição

Qual edição você quer ver?

1 toque vota. A pauta vencedora vira uma próxima edição.

Voto aberto até 21/09, 15h30

A Cromos de B. Lopes →
B Autopsicografia de Pessoa →
C Sóror Saudade →
D Pauliceia de Mário →
 
Recomendação de Newsletter
Mitologia do Dia

Mitologia do Dia

Todo dia, 12:12. Um mito grego virado do avesso: o padrão que ele descreve, e onde ele aparece em você.

Quero receber →

 
Indique e destrave

Indique essa newsletter para um amigo

Cada leitor confirmado pelo seu link sobe um degrau da escada de prêmios.

  
você1

{{indicacoes_confirmadas | 0}} confirmadas · faltam {{indicacoes_falta | 1}} pra próxima recompensa

● 1
Pack de wallpapers
Pack de wallpapers
■ 3
Edição de Colecionador do mês
Edição de Colecionador do mês
▲ 5
ebook A Fôrma do Poema
ebook A Fôrma do Poema

Pegar meu link de indicação →

 
Sua jornada
🔥 {{streak_atual | 0}} recorde
{{streak_recorde | 0}}

{{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}}

sua patente

{{rank_simbolo | ◆}} {{rank_nome | Aprendiz}}

 

faltam {{xp_falta | 5}} de ouro pra {{rank_prox | próxima patente}}

{{edicoes_lidas | 1}}
edições
{{cliques | 0}}
cliques
{{avaliacoes_feitas | 0}}
avaliações
{{moedas | 0}} de ouro na carteira 🏪 loja e missões no hub
{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}
 
 
 

Leve o texto na mão.

Poesia do Dia

POESIA DO DIA

Dois minutos de arte, todo dia

💬 WhatsApp·📣 Anuncie·✍️ Newsletter