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ED 031
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A poeta que assinou a direção do jornal

Narcisa Amália publicou Nebulosas aos vinte anos e, em 1881, fundou A Gazeta de Resende e assinou a direção do jornal.

Primeira página de jornal do século dezenove sobre mesa de redação, ao lado de tinteiro e livro de versos.

Resende, 1881: a direção assinada por ela

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Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Camões deixou o verso nas Rimas, publicadas em Lisboa em 1595, e ele explica o cabeçalho de um jornal impresso em Resende, interior do Rio de Janeiro, em 1881: no lugar reservado à direção estava o nome de uma mulher.

Narcisa Amália de Campos tinha vinte e nove anos e já era conhecida por um livro. Nebulosas saiu em 1872, quando ela tinha vinte, e os versos circularam pelos jornais da corte com uma velocidade incomum para estreia de província. Foi lida, resenhada e citada por homens que raramente citavam mulheres, e a atenção veio acompanhada de um adjetivo que ela passou o resto da vida tentando devolver: a poetisa, sempre no diminutivo de importância.

O jornal foi a resposta. A Gazeta de Resende nasceu em 1881, ela fundou, dirigiu e assinou a direção, e com essa assinatura tornou-se a primeira brasileira a ocupar publicamente o posto num periódico. A assinatura valia mais que uma colaboração ou uma coluna, e dispensava o pseudônimo masculino que várias contemporâneas europeias usavam para publicar. Era o nome dela, inteiro, no alto da folha impressa, onde qualquer assinante batia o olho antes de ler a primeira notícia.

O preço apareceu rápido. A cidade tinha vida política dividida, o jornal tomou lado, e a diretora recebeu ataques que misturavam a linha editorial com a vida privada dela, casada duas vezes, separada, mãe. A Gazeta durou pouco. Narcisa saiu de Resende, foi para a corte, deu aulas de francês e de português, e a produção em verso foi escasseando até parar quase por completo. Morreu no Rio de Janeiro em 1924, aos setenta e dois anos, com um livro publicado e um punhado de poemas espalhados por periódicos.

A edição de hoje leva três textos para três situações práticas de leitura em voz alta. Um poema que todo brasileiro decora sem perceber, um terceto que resolve a leitura de casamento sem prometer felicidade, e uma despedida escrita por um marido velho para a mulher que partiu.

Começa pelo poema mais copiado da língua, escrito por um estudante longe de casa.

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I  O Poema do Dia

O sabiá que ninguém tinha ouvido

Um estudante brasileiro de vinte anos, matriculado em Direito na Universidade de Coimbra, escreveu quatro versos em julho de 1843 e criou o poema mais reproduzido da literatura brasileira. O texto saiu no livro Primeiros Cantos, publicado no Rio de Janeiro em 1846, e desde então foi parar em hino, em discurso de posse, em cartaz de sala de aula e em paródia de humorista.

A estrofe de abertura não descreve o Brasil. Ela compara duas paisagens e coloca a segunda em desvantagem, sem adjetivo nenhum de julgamento. Existe uma palmeira, existe um pássaro, existe um verbo repetido, e existe um advérbio de lugar no fim que faz o trabalho pesado.

O poema funciona porque o argumento inteiro cabe num verbo repetido duas vezes: gorjeiam aqui, não gorjeiam como lá, e a saudade aparece na qualidade que falta ao mesmo som, sem que o poeta precise dizer que está com saudade. A repetição carrega a emoção.

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Gonçalves Dias, primeira estrofe da Canção do Exílio, escrita em Coimbra em 1843 e publicada nos Primeiros Cantos, Rio de Janeiro, 1846.

Repare no aqui do terceiro verso. Ele marca Portugal, o lugar onde o poeta está no momento da escrita, e obriga o leitor a entender que a terra das palmeiras fica longe do falante. Toda a distância do poema está numa palavra de quatro letras que passa despercebida na recitação.

Repare também na letra maiúscula do Sabiá. O pássaro vira nome próprio, sai da condição de espécie e passa a personagem único, o que explica por que o verso sobreviveu a duzentos anos de citação e continua funcionando fora do contexto romântico que o gerou.

A estrofe tem outra virtude prática: ela não pede nenhuma explicação prévia. Numa formatura, numa homenagem a quem se mudou, numa festa de família com parente que veio de longe, os quatro versos são compreendidos por qualquer pessoa da sala na primeira audição, sem apresentação.

Na hora de ler

Segure meio segundo depois de Sabiá. O ponto e vírgula do segundo verso é a dobradiça do poema, e a leitura corrida transforma a comparação numa lista de paisagem.

Diga o lá final mais baixo, não mais alto. A tentação é terminar em nota de orgulho, e a estrofe pede o contrário, porque o que está sendo dito é falta.

Diga a ficha em uma frase. Poema brasileiro de 1843, escrito por um estudante que morava em Portugal e não sabia quando voltaria.

 
 

II  Pra Ler no Altar

Três versos para quem duvida

Numa cerimônia de casamento, alguém na sala não acredita em nada do que está sendo dito. É o parente cético, o amigo divorciado, o irmão que acha a festa cara demais. A leitura que ignora essa pessoa soa para ela como propaganda, e a sala inteira percebe quando metade dos ouvintes desligou.

A leitura que prende o cético é a que começa admitindo a descrença dele em voz alta, porque quem escuta a própria objeção dita por outra pessoa para de formulá-la e passa a esperar a resposta. A objeção citada compra a atenção.

E eu vos direi: Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.

Olavo Bilac, terceto final do soneto XIII da série Via Láctea, publicado no livro Poesias, Rio de Janeiro, 1888.

O soneto inteiro é uma discussão. Alguém acusa o poeta de conversar com estrelas e de ter perdido o juízo, o poeta confirma o hábito sem se defender, e o terceto final devolve a acusação transformada em condição de entendimento.

O verbo entender é o que faz a estrofe caber num casamento. Amor aqui é órgão de percepção, o que permite escutar uma frequência que os outros não captam, e essa definição não promete nada aos noivos, apenas descreve o que passa a existir.

O terceto também resolve um problema de plateia mista. Ele não invoca religião, não cita destino, não fala em para sempre, então funciona em cerimônia civil, em cerimônia religiosa, em segunda união e em casamento de gente que já mora junto há doze anos.

A origem: diga que o soneto é brasileiro, de 1888, e que ele responde a alguém que chamou o poeta de louco. Duas frases bastam, e a segunda já prepara o ouvido da sala para o tom de réplica.

O corte: com pouco tempo, leia só o terceto, que é uma unidade fechada. Com espaço, leia o soneto inteiro, porque a acusação inicial é o que dá sentido à resposta e o efeito dobra.

A troca: para personalizar, apresente com o nome dos noivos e deixe os versos intactos. A métrica é decassílabo regular, e qualquer palavra acrescentada aparece no ouvido de quem estiver prestando atenção.

Na hora de ler

Marque a exclamação do primeiro verso. Amai para entendê-las é ordem, não conselho, e a leitura morna desmancha a virada que o soneto vinha construindo.

Diga o último verso devagar, palavra por palavra. Ele tem quatro verbos em sequência e vira trava-língua quando lido no ritmo da conversa.

Diga a ficha em uma frase. Soneto brasileiro do fim do século dezenove em que o poeta responde a quem o chamou de louco por ouvir estrelas.

 

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III  Pra Dizer Adeus

A carta em verso para quem ficou

Numa despedida, o texto mais difícil de encontrar é o que fala de convivência longa. Quase toda leitura disponível trata de perda recente, de dor aguda, de ausência que acabou de abrir, e sobra pouco para a família que enterra alguém depois de quarenta anos de casa dividida.

O texto que serve à convivência longa é o que descreve rotina, não sentimento, porque a sala reconhece a cena doméstica e chora no detalhe concreto, não no adjetivo. A rotina nomeada faz o serviço.

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração de companheiro.

Machado de Assis, primeira estrofe do poema A Carolina, escrito em 1906 e publicado à frente do livro Relíquias de Casa Velha, Rio de Janeiro, 1906.

O poema foi escrito por um homem de sessenta e sete anos, casado por trinta e cinco, poucos meses depois de a mulher partir. A informação não precisa ser lida em voz alta, mas quem lê precisa saber, porque ela muda o ritmo natural da leitura.

O verbo no futuro do terceiro verso é o centro da estrofe. Aqui venho e virei transforma a despedida em promessa de rotina, e a sala entende que o luto vai ser uma prática diária, não um evento daquela tarde.

A palavra companheiro no quarto verso é a escolha que faz a estrofe caber em qualquer união. Não diz marido, não diz esposa, não diz santo matrimônio, e por causa dessa economia o poema serve para irmãos, para sócios de cinquenta anos e para amigos que envelheceram na mesma rua.

O trecho: para falar em voz alta, use os quatro versos, que levam cerca de quinze segundos. Para o cartão das flores, use o primeiro e o quarto, que emendam sem emenda visível.

A linha de apresentação: diga que o autor escreveu o poema para a mulher com quem viveu trinta e cinco anos. Essa informação sozinha já prepara a sala.

A palavra que pede atenção: derradeiro, no primeiro verso. Significa último, e vale escolher entre traduzir na apresentação ou confiar que a sala pega pelo contexto, dependendo de quem estiver ouvindo.

Um cuidado antes de escolher. A estrofe supõe união longa e soa estranha numa despedida de pessoa jovem, onde a promessa de voltar sempre pesa demais para quem ficou. Nesse caso, os dois primeiros versos sozinhos entregam o gesto sem a promessa.

“Que texto você deixaria escrito para ser lido numa sala onde você não estará?”

Narcisa Amália nunca publicou um segundo livro de versos.

 
 

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Ao assinar a direção de A Gazeta de Resende em 1881, que marca histórica Narcisa Amália alcançou?

AFoi a primeira brasileira eleita para a Academia Brasileira de Letras
BFoi a primeira brasileira a ocupar publicamente o posto de direção num periódico
CFoi a primeira brasileira a publicar um livro de poesia
DFoi a primeira brasileira a assinar artigos com pseudônimo masculino

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