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A poeta cega que ditava os próprios versos
Delfina Benigna da Cunha perdeu a vista com 20 meses e, em 1834, publicou em Porto Alegre um livro inteiro feito por ditado.
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Rio Grande, 1834: versos ditados
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They also serve who only stand and wait. John Milton publicou o verso em 1673, cego havia mais de vinte anos, e a linha (também serve quem só fica de pé e espera) resolve hoje a pergunta que Delfina Benigna da Cunha ouviu a vida toda: como escreve quem não enxerga o papel?
Delfina nasceu em 17 de junho de 1791 em São José do Norte, povoado que pertencia à vila do Rio Grande, no extremo sul do Brasil. Com um ano e oito meses, pegou varíola. A doença passou e levou a vista dos dois olhos.
Filha de um capitão, cresceu numa casa em que se lia em voz alta. Aprendeu poesia do único jeito que tinha: ouvindo. Guardava de cor os sonetos que liam para ela e media as sílabas batendo os dedos na mesa.
Quando começou a compor, precisou de uma segunda mão. Delfina dizia o verso, alguém da casa escrevia, e ela pedia para ouvir de novo. Trocava uma palavra, pedia outra leitura e só então passava ao verso seguinte.
Assim, de ouvido e por ditado, juntou anos de poemas. Em 1834 saiu em Porto Alegre o volume Poesias Oferecidas às Senhoras Rio-Grandenses, tido como o primeiro livro de poemas de uma mulher gaúcha.
A dedicatória escolhe as leitoras. Numa província em que poucas moças aprendiam a ler, a autora que nunca viu uma página ofereceu o livro às que podiam vê-la.
Um ano depois estourou a Revolução Farroupilha (a guerra de dez anos entre estancieiros gaúchos e o Império). Delfina ficou do lado do imperador, deixou a província e foi viver no Rio de Janeiro, onde publicou uma segunda coleção em 1838.
Os nomes de quem segurou a pena para ela não ficaram registrados. Ficaram os versos, e a pergunta que o soneto de Milton faz sobre a luz perdida é a mesma que atravessa o livro de 1834.
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I O Poema do Dia
O talento guardado no escuro
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Num sarau, soneto sobre cegueira costuma soar como lamento. O de John Milton, poeta inglês que ditou o Paraíso Perdido às filhas e a secretários, começa em queixa e termina em paz, e serve para apresentar Delfina Benigna da Cunha a quem nunca ouviu o nome dela.
O soneto de Milton abre bem uma leitura porque faz em catorze versos a mesma viagem que a poeta do Rio Grande fez numa vida inteira: da raiva contra o escuro até a obra pronta.
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When I consider how my light is spent, Ere half my days, in this dark world and wide, And that one talent which is death to hide Lodged with me useless, though my soul more bent To serve therewith my Maker.
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John Milton, soneto XIX, em Poems, 1673.
Em prosa: quando penso em como gastei a minha luz antes da metade da vida, neste mundo escuro e largo, e no único talento que é um crime esconder, parado em mim sem uso, embora a alma queira servir com ele.
O talento da frase vem da parábola dos talentos, do Evangelho de Mateus: o servo que enterra a moeda recebida é castigado. Milton tinha medo de ser esse servo. Delfina tinha o mesmo medo, e resolveu com a boca.
O método dela pedia memória de sobra. Um soneto tem catorze versos de dez sílabas, com rimas cruzadas. Delfina montava a peça inteira na cabeça, verso a verso, antes de ditar, porque não podia voltar os olhos à linha de cima.
Milton trabalhava igual. Compunha de madrugada, deitado, e esperava alguém chegar para despejar os versos guardados; dizia que precisava ser ordenhado, como uma vaca cheia. A imagem é dele, registrada pelo biógrafo Jonathan Richardson em 1734.
Quem escrevia tinha a função de papel vivo. Lia em voz alta o que já estava pronto, e a autora decidia se ficava. Cada poema do livro de 1834 passou por esse vaivém de voz e ouvido.
Num dos sonetos do volume, Delfina conta a própria cegueira: a noite que caiu sobre ela ainda no berço, antes de guardar a lembrança de qualquer rosto. Ela nunca soube como era o céu que os outros descreviam.
Milton chegou a outra saída no fim do poema. A última linha diz que Deus não precisa das obras de ninguém, e que também serve quem espera. A poeta gaúcha não esperou: pediu pena, papel e uma mão emprestada.
Na hora de ler
Conte antes quem fala: um poeta cego, aos quarenta e poucos anos, com medo de ter desperdiçado o dom.
Leia o inglês devagar e em seguida a versão em prosa. A sala ouve primeiro o som e depois o sentido.
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II Pra Ler no Altar
Fogo que arde sem se ver
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Num casamento, o soneto mais pedido da língua portuguesa é o de Luís de Camões sobre o amor. Ele vem do mesmo molde que Delfina aprendeu de ouvido: dez sílabas por verso, catorze versos, contradição em cada linha.
O quarteto serve ao altar porque define o amor por quatro sensações que o corpo reconhece sem precisar de olhos. Cabe num cartão pequeno.
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Amor é fogo que arde sem se ver, É ferida que dói, e não se sente; É um contentamento descontente, É dor que desatina sem doer.
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Luís de Camões, Rimas, 1595.
Desatina quer dizer enlouquece, tira do juízo. O verso final junta duas ideias que brigam: uma dor que faz perder a cabeça e que, mesmo assim, não machuca.
A figura tem nome no manual de retórica: paradoxo (duas afirmações que parecem se anular e fazem sentido juntas). Camões empilha quatro delas em quatro versos, e o leitor aceita todas.
Para Delfina, o primeiro verso tinha peso literal. Um fogo que arde sem se ver era a única forma de fogo que ela conhecia: calor na pele, estalo na lareira, cheiro de lenha. Os sonetos de amor que ela ditou falam de voz e de toque, raramente de olhar.
O livro de 1834 foi dedicado às senhoras da província, e muitas delas liam poesia pela primeira vez num volume escrito por uma conterrânea. Camões chegava a elas pela escola e pelos saraus; Delfina chegava pelo correio e pela tipografia de Porto Alegre.
O soneto chegou ao Brasil pela boca antes de chegar pelo livro. Nas vilas do sul, em 1800, livro impresso era raro e caro, e muita gente sabia Camões de cor sem ter visto a edição.
A origem: diga que o soneto tem mais de quatro séculos e que uma poeta cega do Rio Grande aprendeu a forma dele só de ouvir.
O corte: leia só o primeiro quarteto. O soneto inteiro termina numa pergunta sobre como o amor pode causar amizade, e a pergunta esfria a cerimônia.
A língua: contentamento descontente é alegria que não se satisfaz. No cartão, mantenha as palavras de Camões e deixe o sentido para a conversa depois.
O ritmo: os quatro versos começam quase iguais. A repetição pede a mesma altura de voz em cada um.
Na hora de ler
Faça pausa depois de sem se ver. O resto do quarteto desenvolve a primeira imagem.
Diga o último verso mais baixo. A dor que não dói fecha o cartão sem enfeite.
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