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A pedra que virou piada nacional por 39 anos
Em 1928, sete versos com uma pedra no meio do caminho viraram chacota de jornal, e o autor guardou cada ofensa até juntá-las num livro.
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Itabira, 1928, a pedra que ninguém perdoou
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Em julho de 1928, uma revista paulista de tiragem pequena publicou sete versos assinados por um funcionário público de vinte e cinco anos que morava em Minas Gerais. O poema tinha menos de quarenta palavras. Repetia a mesma frase quatro vezes. Falava de uma pedra.
A reação não foi silêncio nem elogio. Foi riso. Cronista de jornal transcreveu o texto para provar que a tal poesia moderna era um golpe. Professor leu em voz alta na sala para arrancar gargalhada da turma. Leitor mandou carta perguntando se a redação tinha sido enganada por um trote.
A brincadeira pegou de um jeito que quase nenhum poema brasileiro conheceu. Virou piada de mesa de bar, paródia de revista de humor, exemplo de aula sobre o que não fazer. Quem nunca tinha lido um verso na vida sabia recitar aquele.
O autor não respondeu a nenhuma das ofensas. Não escreveu carta de desagravo, não pediu espaço em jornal, não brigou com crítico. Fez outra coisa, mais fria e muito mais paciente: começou a recortar.
Guardou os artigos, as paródias, as cartas de leitor irritado, as menções de passagem em livro de crítica. Guardou por quase quatro décadas, mudando de casa, mudando de cidade, trocando de emprego, publicando outros vinte livros.
Em 1967, aos sessenta e quatro anos, com a carreira consolidada e o poema já dentro dos livros escolares, ele reuniu o arquivo inteiro e publicou. Saiu um volume dedicado a um único texto de sete linhas, com quase tudo que tinham dito contra ele, na íntegra, sem resposta.
O gesto não é vingança, e é mais interessante que vingança. É um poeta transformando quatro décadas de deboche em documento, e devolvendo o riso ao leitor como material de estudo.
O poema continua ali, do mesmo tamanho, com a mesma pedra. O que mudou foi quem ri. A seguir vêm os sete versos com o que fazer com eles em voz alta, um poema de amor do mesmo autor que resolve uma cerimônia, e um texto curto para quando faltar alguém.
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I O Poema do Dia
Sete linhas, quatro repetições, uma pedra
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O texto que mais rendeu piada na história da poesia brasileira cabe em quatro respirações. Não tem metáfora, não tem rima, não tem palavra difícil.
O poema saiu na Revista de Antropofagia em julho de 1928 e entrou em livro dois anos depois, em Alguma Poesia, o primeiro volume do autor. Carlos Drummond de Andrade tinha vinte e cinco anos e trabalhava no serviço público em Minas Gerais.
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No meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra Nunca me esquecerei desse acontecimento na vida de minhas retinas tão fatigadas Nunca me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho no meio do caminho tinha uma pedra
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Carlos Drummond de Andrade, No meio do caminho, íntegra do poema, no livro Alguma Poesia, Belo Horizonte, 1930.
O escândalo de 1928 tinha um alvo gramatical preciso. A escola ensinava que o certo é havia uma pedra, e o poema insiste em tinha, quatro vezes, do jeito que se fala na rua e na cozinha.
Somado a essa escolha veio a repetição sem disfarce. Um poema que diz a mesma coisa dez vezes soava, para o leitor de 1928, como texto de quem não sabia escrever ou como deboche com a cara dele.
A terceira ofensa foi o assunto. Uma pedra não é o mar, não é a pátria, não é a amada. É o obstáculo mais banal que existe, e o poema não o transforma em símbolo elegante nenhum.
O tempo desfez os três problemas. Tinha virou marca do português falado no Brasil dentro da literatura, a repetição virou o próprio andamento de quem esbarra e volta a esbarrar, e a pedra ficou sendo qualquer coisa que trava a vida de quem lê.
Na hora de ler
Leia devagar e sem impostar. O poema tem doze segundos e a graça está na monotonia, não na emoção da voz.
Não corrija o tinha. Trocar por havia mata o poema, porque a briga com a gramática de escola é metade do texto.
Faça uma pausa curta antes de Nunca me esquecerei. Ali o poema muda de plano, sai da pedra parada e entra na memória de quem viu.
Diga a ficha antes de começar. Uma frase resolve: Carlos Drummond de Andrade, No meio do caminho, do livro Alguma Poesia, de 1930.
O volume que reúne a perseguição se chama Uma pedra no meio do caminho: biografia de um poema, publicado em 1967, quase quarenta anos depois da estreia. Quem quiser contar a história antes da leitura tem ali um começo pronto.
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II Pra Ler no Altar
O verso que não pede permissão
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A ocasião é o casamento em que ninguém quer discurso comprido. Serve no civil, no brinde do jantar, na renovação de votos e na leitura que a irmã da noiva faz antes do bolo.
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O poema tem seis linhas, nenhuma palavra rara e uma frase que se repete no começo e no meio, exatamente o recurso que rendeu chacota em 1928. Aqui a repetição funciona como promessa dita duas vezes.
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O texto se chama As Sem-Razões do Amor e está em Amar se aprende amando, livro de 1985. O autor tinha oitenta e dois anos quando publicou.
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Eu te amo porque te amo. Não precisas ser amante, e nem sempre sabes sê-lo. Eu te amo porque te amo. Amor é estado de graça e com amor não se paga.
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Carlos Drummond de Andrade, As Sem-Razões do Amor, íntegra do poema, no livro Amar se aprende amando, Rio de Janeiro, 1985.
O poema resolve um problema real de cerimônia. Quase toda leitura de casamento justifica o amor por qualidades da outra pessoa, e a lista envelhece mal, porque qualidade some.
Aqui a justificativa é recusada logo na primeira linha. O amor não é pagamento por mérito, e por isso não pode ser cobrado de volta quando o mérito falhar.
A segunda linha é a mais corajosa da peça. Ela admite, em plena festa, que a outra pessoa nem sempre vai saber amar direito, e mesmo assim mantém a decisão.
Estado de graça é expressão da teologia católica: a condição de quem recebeu um bem sem ter feito nada para merecer. Numa cerimônia religiosa a palavra cai em casa; numa civil, funciona como imagem de coisa gratuita.
A troca do nome: não existe nome próprio no poema, então ele serve para qualquer casal sem uma sílaba de ajuste. Quem quiser personalizar, diga o nome antes de começar a ler, nunca dentro do verso.
Na hora de ler
Diga quem assina e de quando é. Uma frase resolve: Carlos Drummond de Andrade, As Sem-Razões do Amor, do livro Amar se aprende amando, de 1985.
Pare depois de cada ponto final. São seis frases curtas e a tentação é emendar tudo numa respiração só, o que apaga a repetição da primeira e da quarta linha.
Olhe para o casal na quarta linha, quando a frase volta. A repetição existe para ser vista, não só ouvida.
Não emende com um comentário depois. O poema leva quinze segundos, fecha sozinho em com amor não se paga, e qualquer frase adicional soa como pedido de desculpa.
Se a cerimônia pedir dois textos, ponha este no fim. Ele encerra em tom de decisão tomada, e é uma boa última palavra antes do beijo.
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