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A moça que subiu à torre e viu duas luas
Ele perdeu a noiva em 1889, virou juiz numa cidade de igrejas e passou trinta anos escrevendo versos para ela.
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Mariana, a torre entre a lua e o mar
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Em 1889, numa casa de Minas Gerais, uma moça de dezoito anos chamada Constança se despediu depois de meses de tuberculose. O rapaz com quem ela ia se casar tinha dezenove anos, era primo dela e estudava direito em São Paulo. A notícia chegou por carta, com dias de atraso.
Ele se formou, prestou concurso e virou juiz de comarca no interior. Serviu em Conceição do Serro e em 1906 chegou a Mariana, cidade de igrejas barrocas e ruas de pedra, onde ficou até o último dia, em 1921. Casou com outra mulher, teve quinze filhos, despachou processos de terra, de gado e de herança por quinze anos.
Fora do fórum, fez outra coisa. Continuou escrevendo para a moça de 1889 como quem mantém correspondência com um endereço que já não recebe. Não foram alguns poemas de luto no ano seguinte, foram três décadas de livros com a mesma ausente no centro, publicados em tiragens pequenas que a capital literária do país quase não leu.
A obra inteira dele cabe num vocabulário curto e teimoso. Lua, torre, sino, virgem, cirio, brumas, mar. As mesmas palavras voltando de livro em livro, como quem reza um terço e não tem pressa de trocar as contas.
Dessa oficina de repetição saiu o poema mais decorado da poesia brasileira, aquele que criança ainda recita em sala de aula sem entender direito por que sente frio no meio. Uma moça sobe numa torre, enlouquece, e vê duas luas ao mesmo tempo: uma no céu, outra refletida no mar.
O nome dela é Ismália. Ela não existiu. E, ainda assim, todo mundo que perdeu alguém reconhece o lugar em que ela está parada: alto demais para desistir do céu, longe demais para alcançar o mar.
O que vem agora são três leituras deste poema. Primeiro a engrenagem que faz ele grudar na memória de quem ouviu uma vez só. Depois a quadra que serve numa cerimônia de casamento, quando duas pessoas olham a mesma luz de lugares diferentes. E por fim os versos de outro poema do mesmo autor, os que funcionam numa despedida.
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I O Poema do Dia
A máquina de quatro versos que ninguém esquece
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Ismália tem cinco estrofes de quatro versos, e cada verso tem sete sílabas poéticas, a medida das cantigas de roda e dos hinos de igreja. É a métrica que a criança aprende antes de saber que existe métrica.
A rima do poema tem só dois sons, céu e mar, e eles se alternam do primeiro verso ao último sem descanso, o que transforma o texto num pêndulo em vez de numa narrativa. Quem ouve não decora a história, decora o balanço.
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Quando Ismália enlouqueceu, Pôs-se na torre a sonhar... Viu uma lua no céu, Viu outra lua no mar.
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Alphonsus de Guimaraens, poema Ismália, recolhido no livro Dona Mística, 1899.
Repare no que a primeira estrofe já resolve. Em quatro linhas o poema entrega a personagem, o lugar, o estado dela e o problema inteiro, sem uma única palavra difícil e sem nenhum verbo de explicação.
O segundo par de versos é a armadilha. As duas luas são a mesma lua, e o poema sabe disso, mas escreve as duas como se fossem coisas separadas. É a definição mais econômica de delírio que a língua portuguesa produziu.
Da metade em diante o pêndulo aperta. Ela quer subir ao céu, quer descer ao mar, está perto do céu, está longe do mar, e cada quadra repete a estrutura com uma palavra trocada, como um mecanismo de relojoaria que vai perdendo folga.
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E como um anjo pendeu As asas para voar... Queria a lua do céu, Queria a lua do mar...
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Alphonsus de Guimaraens, poema Ismália, recolhido no livro Dona Mística, 1899.
O fim divide a moça ao meio. A alma sobe ao céu e o corpo desce ao mar, e as duas luas ficam cada uma com a sua metade, o que faz do desfecho uma solução aritmética para o desejo que a primeira estrofe abriu.
Na hora de ler
Não acelere nas reticências. Elas aparecem no fim de quase todo verso par e são a respiração do poema, três pontos que valem meio segundo cada.
Mantenha o mesmo tom nas cinco estrofes. A tentação é subir a voz no fim, e o texto perde a qualidade de reza quando alguém tenta dar a ele emoção de teatro.
Marque a diferença entre perto e longe. São as duas palavras que carregam a tragédia inteira, e elas passam despercebidas se a leitura correr.
Diga a ficha antes de começar. Uma frase resolve: Ismália, de Alphonsus de Guimaraens, poema de 1899, escrito por um juiz de Mariana.
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II Pra Ler no Altar
A mesma lua vista de dois lugares
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Numa cerimônia, a leitura costuma ser escolhida pelo assunto, e por isso quase todo casamento acaba ouvindo o mesmo punhado de versos sobre amor eterno. A quadra de abertura de Ismália não fala de amor em nenhuma linha, e é justamente por não falar que ela funciona.
Duas pessoas que se casam passaram anos olhando a mesma lua de janelas diferentes, uma no céu de uma cidade e outra refletida no mar de outra, e o altar é o instante em que as duas luas viram uma só. A sala entende a imagem antes de entender a explicação.
A escolha exige um aviso de honestidade: o poema original termina em separação. Quem lê no altar está pegando a imagem emprestada e virando o sentido, e vale dizer a frase de virada em voz alta para ninguém sair achando que a leitura foi mau agouro.
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Viu uma lua no céu, Viu outra lua no mar.
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Alphonsus de Guimaraens, poema Ismália, recolhido no livro Dona Mística, 1899.
Dois versos, catorze sílabas, seis segundos. É a leitura mais curta que uma cerimônia aceita sem parecer pressa, e ela cabe no momento em que os noivos se viram um para o outro.
A palavra que faz o trabalho é outra. Outra lua, outro lugar, outra vida inteira até ali, e o casamento é a decisão de tratar as duas como uma.
A origem: conte que o poema saiu da mão de um homem que passou trinta anos escrevendo para uma noiva que ele perdeu antes do casamento. A informação não entristece a sala, ela dá peso ao voto que vem depois.
O corte: se a cerimônia for longa, use apenas os dois versos. Se houver espaço, leia a quadra inteira e pare antes da segunda estrofe, que já entra no delírio.
A virada: depois dos versos, uma frase de ligação basta. Algo como: hoje as duas luas se encontram, e é por isso que estamos aqui.
Na hora de ler
Separe as duas linhas com uma pausa longa. O efeito depende da sala perceber que a segunda lua é uma segunda descoberta, não uma repetição.
Diga viu com o mesmo peso nas duas vezes. O verbo repetido é o que constrói o espelho, e enfraquecer o segundo derruba a imagem.
Olhe para os noivos na palavra mar. É a última do trecho, e a leitura ganha destino quando quem lê aponta com os olhos.
Diga quem assina e de quando é. Uma frase resolve: Alphonsus de Guimaraens, poema Ismália, de 1899.
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