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A cantiga “Ai flores, ai flores do verde pino”, de Dom Dinis, tem oito estrofes de dois versos, cada uma seguida de um refrão (o verso que volta igual). Nas quatro primeiras, a moça pergunta. Nas quatro últimas, alguém responde.
O poema anda em pares: cada ideia aparece duas vezes, e a segunda vez troca só a última palavra do verso.
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Ai flores, ai flores do verde pino, se sabedes novas do meu amigo! ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amigo, aquel que mentiu do que pôs comigo! ai Deus, e u é?
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Dom Dinis, Ai flores, ai flores do verde pino, cantiga de amigo, Cancioneiro da Vaticana, cópia de cerca de 1525.
Em prosa: ai, flores do pinheiro verde, se tendes notícia do meu namorado, contai. Aquele que faltou ao que combinou comigo! Ai, meu Deus, onde é que ele está?
Sabedes é a forma antiga de sabeis, e novas são notícias. Pôs comigo quer dizer combinou comigo, e u é pergunta onde está.
O jogo dos pares
Na segunda estrofe, a moça repete a pergunta e troca só o final de cada verso: pino vira ramo, amigo vira amado. A rima muda de vogal: pino e amigo ecoam no i; ramo e amado, no a.
O recurso se chama paralelismo (a mesma frase repetida com uma palavra trocada). A explicação mais aceita o liga ao canto em grupo: duas vozes se alternavam, e a repetição ajudava quem dançava a pegar a letra.
O verso que volta
Há um segundo truque, o leixa-pren (deixa e prende, na língua da época). O segundo verso da primeira estrofe reaparece como primeiro verso da terceira: “se sabedes novas do meu amigo” fecha uma pergunta e abre outra.
Cada volta acrescenta um dado. Na terceira estrofe, a moça conta o motivo da aflição: o rapaz faltou ao que tinha combinado com ela. Na quarta, faltou ao que tinha jurado.
Por que o pinheiro
O pinheiro não dá flor de pétala. Na primavera, solta cachos que espalham um pólen amarelo, e são esses cachos as flores a quem a moça pergunta. A cantiga se passa numa estação precisa.
A primavera era o tempo do amor na lírica medieval. O próprio Dom Dinis, numa cantiga de amor, zombou dos poetas da Provença (o sul da França) que só trovavam “no tempo da flor”: esses, escreveu, não sofriam de amor como ele sofria pela sua dama.
Quem responde
Na quinta estrofe a voz muda: “Vós me preguntades polo voss’amigo” (vós me perguntais pelo vosso namorado). Alguém responde à moça com boa notícia, e o texto não diz quem.
A leitura mais comum dá a fala às próprias flores. Outros leitores ouvem a mãe ou uma amiga, figuras frequentes no gênero. Os manuscritos não trazem rubrica (a indicação de quem fala), e a dúvida fica aberta.
A cantiga acaba nessa resposta, sem cena de reencontro. Se o rapaz voltou, Dom Dinis não escreveu.
Na hora de ler
Leia as quatro perguntas num tom e as quatro respostas noutro, um pouco mais firme. O refrão fica igual nas oito estrofes: curto, mais baixo, quase para dentro.
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