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A moça de Dom Dinis pergunta às flores

Rei de Portugal por 46 anos, Dom Dinis deixou cerca de 137 cantigas, e dezenas delas falam pela boca de uma moça.

Bilhete dobrado com versos copiados à mão, sobre um ramo de pinheiro verde.

Um ramo de pinheiro sobre uma cantiga copiada à mão

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Dom Dinis, rei de Portugal de 1279 a 1325, pôs na boca de uma moça o verso “Ai flores, ai flores do verde pino” (ai, flores do pinheiro verde). Sete séculos depois, a pergunta dela ainda serve a quem espera notícia de alguém que prometeu voltar e sumiu.

O rei governou por 46 anos, um dos reinados mais longos da história portuguesa. Ganhou o apelido de Lavrador (o agricultor) pelas terras que mandou cultivar, e a tradição atribui a ele a ampliação do pinhal de Leiria para segurar a areia das dunas.

Em 1290, fundou em Lisboa o Estudo Geral, a primeira universidade do país, levada para Coimbra em 1308. No reinado dele, a chancelaria (o cartório da corte) adotou o português nos documentos, que antes saíam em latim.

E escrevia versos: os cancioneiros, livros copiados à mão que juntaram a poesia da época, guardam cerca de 137 cantigas atribuídas a ele, mais que a qualquer outro trovador (poeta que compunha e cantava as próprias canções) da língua.

A língua era o galego-português, falado na Galiza e no norte de Portugal. Servia à poesia até na corte de Castela: Afonso X, avô materno de Dinis, compôs nela as Cantigas de Santa Maria, centenas de poemas à Virgem.

Três gêneros dividiam esse repertório. Na cantiga de amor, um homem fala da dama distante. Na de escárnio e maldizer (a sátira), o poeta zomba de um desafeto. Na cantiga de amigo, quem fala é uma moça, e amigo quer dizer namorado.

Quase todos os autores eram homens. Reis, nobres e jograis (os cantores de ofício) emprestavam a voz a uma moça que conversa com a mãe, com as amigas, com o mar ou com as árvores, e conta que o namorado partiu.

Dom Dinis escreveu dezenas de cantigas nessa voz. O homem que assinava leis e tratados de fronteira sentava para escrever como uma moça à espera.

A primeira faixa abre a mais conhecida delas: a moça que pede ao pinheiro notícia do amado, e o jogo de versos repetidos que o rei montou para a pergunta dela.

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I  O Poema do Dia

Quatro perguntas e quatro respostas

A cantiga “Ai flores, ai flores do verde pino”, de Dom Dinis, tem oito estrofes de dois versos, cada uma seguida de um refrão (o verso que volta igual). Nas quatro primeiras, a moça pergunta. Nas quatro últimas, alguém responde.

O poema anda em pares: cada ideia aparece duas vezes, e a segunda vez troca só a última palavra do verso.

Ai flores, ai flores do verde pino,
se sabedes novas do meu amigo!
ai Deus, e u é?

Se sabedes novas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo!
ai Deus, e u é?

Dom Dinis, Ai flores, ai flores do verde pino, cantiga de amigo, Cancioneiro da Vaticana, cópia de cerca de 1525.

Em prosa: ai, flores do pinheiro verde, se tendes notícia do meu namorado, contai. Aquele que faltou ao que combinou comigo! Ai, meu Deus, onde é que ele está?

Sabedes é a forma antiga de sabeis, e novas são notícias. Pôs comigo quer dizer combinou comigo, e u é pergunta onde está.

O jogo dos pares

Na segunda estrofe, a moça repete a pergunta e troca só o final de cada verso: pino vira ramo, amigo vira amado. A rima muda de vogal: pino e amigo ecoam no i; ramo e amado, no a.

O recurso se chama paralelismo (a mesma frase repetida com uma palavra trocada). A explicação mais aceita o liga ao canto em grupo: duas vozes se alternavam, e a repetição ajudava quem dançava a pegar a letra.

O verso que volta

Há um segundo truque, o leixa-pren (deixa e prende, na língua da época). O segundo verso da primeira estrofe reaparece como primeiro verso da terceira: “se sabedes novas do meu amigo” fecha uma pergunta e abre outra.

Cada volta acrescenta um dado. Na terceira estrofe, a moça conta o motivo da aflição: o rapaz faltou ao que tinha combinado com ela. Na quarta, faltou ao que tinha jurado.

Por que o pinheiro

O pinheiro não dá flor de pétala. Na primavera, solta cachos que espalham um pólen amarelo, e são esses cachos as flores a quem a moça pergunta. A cantiga se passa numa estação precisa.

A primavera era o tempo do amor na lírica medieval. O próprio Dom Dinis, numa cantiga de amor, zombou dos poetas da Provença (o sul da França) que só trovavam “no tempo da flor”: esses, escreveu, não sofriam de amor como ele sofria pela sua dama.

Quem responde

Na quinta estrofe a voz muda: “Vós me preguntades polo voss’amigo” (vós me perguntais pelo vosso namorado). Alguém responde à moça com boa notícia, e o texto não diz quem.

A leitura mais comum dá a fala às próprias flores. Outros leitores ouvem a mãe ou uma amiga, figuras frequentes no gênero. Os manuscritos não trazem rubrica (a indicação de quem fala), e a dúvida fica aberta.

A cantiga acaba nessa resposta, sem cena de reencontro. Se o rapaz voltou, Dom Dinis não escreveu.

Na hora de ler

Leia as quatro perguntas num tom e as quatro respostas noutro, um pouco mais firme. O refrão fica igual nas oito estrofes: curto, mais baixo, quase para dentro.

 
 

II  Pra Ler no Altar

Antes de vencer o prazo

Para um casamento, a página fica com a sétima estrofe da cantiga de Dom Dinis: a voz que garante à moça que o amado está bem e chega antes da data marcada.

Os versos servem ao altar porque contam uma promessa cumprida dentro do prazo.

E eu ben vos digo que é san’e vivo
e seerá vosc’ant’o prazo saído.
ai Deus, e u é?

Dom Dinis, Ai flores, ai flores do verde pino, cantiga de amigo, Cancioneiro da Vaticana, cópia de cerca de 1525.

Em prosa: e eu vos digo, com certeza, que ele está são e vivo, e estará convosco antes de vencer o prazo.

Seerá é a forma antiga de será, e vosco quer dizer convosco. Saído, no verso, é vencido: o prazo que saiu é o prazo que acabou.

A palavra prazo

Prazo vem do latim placitum (o que foi acordado). No português medieval, a palavra nomeava o combinado com data e também um tipo de contrato de arrendamento de terras, com dia certo para cumprir cada obrigação.

A moça tinha um trato desses com o namorado, firmado de boca. A resposta garante que ele vai honrar a data.

O casamento do rei

Dom Dinis casou em 1282, em Trancoso, com Isabel de Aragão, filha do rei Pedro III de Aragão. O acordo foi tratado por embaixadores, e a noiva atravessou a península para encontrar o marido.

Ficaram casados 42 anos, até a morte dele. Isabel foi declarada santa em 1625, e a lenda mais contada sobre ela tem flores: levava pão aos pobres escondido no regaço, o rei perguntou o que era, e o pão virou rosas.

É lenda, contada também de outra santa, Isabel da Hungria.

Ninguém datou as cantigas de Dom Dinis. Não há como dizer se a moça do pinheiro nasceu antes ou depois do casamento.

Por que funciona no altar

No altar, a pergunta da cantiga já tem resposta. Quem ouve sabe onde está o amado: na frente da moça.

• O corte: só a sétima estrofe, com o refrão.

• O tom: de quem dá uma boa notícia.

• O leitor: uma amiga da noiva, como nas cantigas.

Na hora de ler

Antes do original, diga numa frase o que ele promete: está são e vivo e chega antes do prazo. Depois leia os dois versos devagar.

No refrão, olhe para o noivo.

 

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III  Pra Dizer Adeus

O livro deixado em testamento

Numa despedida, a página volta à cantiga de Dom Dinis, na segunda estrofe, em que a moça repete às flores do ramo verde a pergunta pelo amado.

Os versos servem ao adeus porque pedem notícia de quem partiu a quem ficou no lugar de sempre: a árvore.

Ai flores, ai flores do verde ramo,
se sabedes novas do meu amado!
ai Deus, e u é?

Dom Dinis, Ai flores, ai flores do verde pino, cantiga de amigo, Cancioneiro da Vaticana, cópia de cerca de 1525.

Em prosa: ai, flores do ramo verde, se tendes notícia do meu amado, contai. Ai, meu Deus, onde é que ele está?

O refrão tem cinco sílabas e cabe num suspiro.

A pergunta à árvore

Quem perde alguém volta ao quintal, ao banco da praça, à árvore de sempre, e pergunta sem esperar resposta. A moça de Dom Dinis faz esse gesto: fala com as flores porque elas estavam lá quando ele partiu.

Numa cerimônia de adeus, leia só a estrofe da pergunta e deixe as respostas de fora. Sem a segunda metade, a cantiga termina na dúvida da moça, e a dúvida dela cabe em quem ficou.

Os últimos anos

Os anos finais de Dom Dinis foram de guerra dentro de casa. Em 1319, o filho legítimo, o futuro Afonso IV, pegou em armas contra o pai, convencido de que o rei queria deixar o trono para Afonso Sanches, um filho de fora do casamento.

A rainha Isabel cavalgou entre os dois exércitos para pedir paz, e a reconciliação veio em 1324. Dom Dinis morreu em Santarém em 7 de janeiro de 1325, aos 63 anos.

O livro do conde

Outro filho de fora do casamento, Pedro Afonso, conde de Barcelos, guardava um Livro das Cantigas. Em 1350, deixou o volume em testamento ao sobrinho, o rei Afonso XI de Castela. Depois do testamento, nenhum registro conhecido volta a citar o livro.

As cantigas do pai chegaram até hoje por outro caminho: cópias feitas em Roma, cerca de 1525, para o humanista italiano Angelo Colocci (estudioso de textos antigos). Uma está no Vaticano; a outra, em Lisboa, comprada pelo governo português em 1924.

As cópias trazem as letras, sem a música. As únicas melodias conhecidas de Dom Dinis apareceram em 1990, quando o pesquisador americano Harvey Sharrer achou na Torre do Tombo, o arquivo nacional em Lisboa, um pergaminho usado como capa de livro, com trechos de sete cantigas de amor e as notas musicais. A melodia de “Ai flores” não estava entre elas.

Na hora de ler

Diga o primeiro “ai” e espere um segundo antes do outro. Leia o refrão mais baixo e pare ali, sem explicar.

Dom Dinis foi sepultado no mosteiro que fundou em Odivelas, perto de Lisboa.

O túmulo ainda está lá.

 
 
 

Quiz da edição

Na cantiga 'Ai flores, ai flores do verde pino', em qual estrofe a pergunta da moça recebe resposta pela primeira vez?

ATerceira estrofe
BQuarta estrofe
CQuinta estrofe
DOitava estrofe

Veja o ranking de quem mais acerta →

 

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