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A Mensageira, a revista de poetas que Presciliana Duarte de Almeida dirigiu em 1897

Em São Paulo, uma mineira de Pouso Alegre abriu as páginas a versos de mulheres de vários estados e assinou os próprios poemas nelas.

Mulher do século 19 à mesa de redação em São Paulo, folheando uma revista literária com versos impressos.

São Paulo, 1897: A Mensageira sai do prelo

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Musa, um gesto sequer de dor ou de sincero luto jamais te afeie o cândido semblante: Francisca Júlia da Silva publicou esses versos em 1895, no livro Mármores, e eles ainda mostram o que uma poeta precisava provar para ser lida no Brasil do século 19. Afeiar é enfear; cândido quer dizer puro, sereno.

A crítica da época esperava da mulher um verso de salão: flores, saudade, um suspiro bem medido. Francisca Júlia entregou sonetos duros, na forma parnasiana (escola que buscava o verso exato, frio e polido como pedra).

Conta-se que houve leitores convencidos de que um homem escrevia aqueles poemas sob nome de mulher. A história aparece em biografias dela sem documento que a comprove, e o que se sabe ao certo é que os sonetos continuaram a sair, com o mesmo acabamento, sempre assinados por ela.

Poeta mulher, no Brasil de 1890, publicava pouco. Saía quase sempre em jornal dirigido por homem, num canto de página, entre o folhetim e os anúncios de remédio.

Os livros tinham tiragem curta. Muitos eram pagos pela família da autora e circulavam entre parentes e amigos, sem chegar às livrarias de outras províncias.

Uma poeta do Pará quase nunca lia uma poeta do Rio Grande do Sul. Cada uma escrevia sozinha na sua cidade, sem saber quantas outras faziam o mesmo trabalho em outros estados.

Em São Paulo, uma mineira de 30 anos resolveu montar a página inteira. A revista dela saía duas vezes por mês, com versos, contos e artigos de mulheres de vários pontos do país.

Francisca Júlia esteve entre as colaboradoras. A diretora também escreveu ali, e assinou os próprios poemas ao lado dos das convidadas.

A revista, a mulher que a dirigiu e os versos que passaram por aquelas páginas abrem a leitura de hoje.

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I  O Poema do Dia

Duas vezes por mês, em São Paulo

Presciliana Duarte de Almeida nasceu em Pouso Alegre, no sul de Minas Gerais, em 1867. Em 15 de outubro de 1897, lançou em São Paulo o primeiro número de A Mensageira.

A revista abre a leitura porque juntou numa capa só poetas que até ali escreviam isoladas.

Revista literária dedicada à mulher brasileira

Subtítulo da capa de A Mensageira, São Paulo, 1897.

O subtítulo dizia a quem a revista servia. A circulação era quinzenal (um número a cada quinze dias), e cada número trazia poemas, contos, crônicas e artigos.

As colaboradoras vinham de longe. Júlia Lopes de Almeida, romancista do Rio de Janeiro, mandava prosa; Revocata Heloísa de Melo, que dirigia a revista Corimbo no Rio Grande do Sul, também aparecia nas páginas.

Francisca Júlia levava os sonetos de São Paulo. Zalina Rolim, poeta paulista de versos para crianças, era outra assinatura frequente.

Cada número custava pouco e chegava por assinatura, pelo correio, a leitoras de cidades pequenas. Assim uma professora do interior paulista lia, na mesma quinzena, uma poeta gaúcha e uma romancista carioca.

Os artigos discutiam a instrução da mulher. A tese repetida era simples: moça que estuda escreve melhor, cria melhor os filhos e lê o mundo com os próprios olhos.

Presciliana vivia em São Paulo casada com o primo Sílvio de Almeida, professor e estudioso da língua portuguesa. A casa do casal servia de redação, e boa parte da correspondência com as colaboradoras saía da mesa dela.

Presciliana chegou à revista já com livro. Rumorejos, de 1890, reunia os versos da juventude em Pouso Alegre; o título vem de rumorejo, o murmúrio baixo da água e das folhas.

Dentro de A Mensageira, ela assinou poemas líricos de natureza, de pássaros e de recolhimento. Escrevia com rima e metro regulares, no gosto da época, sem o tom de pedra de Francisca Júlia.

Os poemas que ela publicou na revista não ganharam reedição de fácil acesso. O caminho para lê-los é a coleção de A Mensageira guardada em bibliotecas paulistas e a edição fac-similar (cópia fotográfica, página a página) que o governo de São Paulo publicou no fim do século 20.

Sem acesso seguro a esses textos, esta edição não transcreve versos dela: cita só o que tem fonte firme.

A revista circulou até 15 de janeiro de 1900. Foram 36 números, todos com a mesma diretora.

Na hora de ler

Leia o subtítulo da capa devagar, como quem lê uma placa na porta.

Depois diga os nomes das colaboradoras, um a um, sem pressa.

 
 

II  Pra Ler no Altar

Ouvir estrelas

Num casamento, A Mensageira cede a página a Olavo Bilac, poeta da mesma escola parnasiana de Francisca Júlia, que publicou em 1888 o ciclo de sonetos Via Láctea.

O terceto serve ao altar porque diz que só quem ama consegue escutar o que os outros acham loucura.

Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.

Olavo Bilac, soneto XIII de Via Láctea, Poesias, 1888.

Terceto é a estrofe de três versos que fecha o soneto. Bilac guardou para o fim a resposta da pergunta que o poema inteiro faz.

O soneto começa com um amigo zombando do poeta. Ora (direis) ouvir estrelas, certo perdeste o senso: o interlocutor acha que conversar com estrelas é sinal de juízo perdido.

O poeta responde contando a noite em claro. Abria a janela, falava com as estrelas, e quando o sol nascia ainda as procurava no céu vazio.

Amai está no imperativo (o modo verbal da ordem e do conselho) e no plural: o poeta fala com todos que o escutam, não só com o amigo. No altar, a ordem vira conselho aos noivos e aos convidados.

O amigo pergunta, então, o que elas dizem. A resposta é o terceto acima: o ouvido que escuta estrelas é o ouvido de quem ama.

Bilac tinha 22 anos quando o livro saiu. Poesias fez dele o poeta mais lido do Rio de Janeiro na década seguinte, e o soneto das estrelas virou peça de recital em escolas e saraus.

Via Láctea tem 35 sonetos, todos sobre o mesmo amor visto de ângulos diferentes: a espera, o ciúme, a saudade, a noite sem sono. O das estrelas é o mais lembrado do ciclo.

A geração de A Mensageira cresceu com esses versos. As poetas da revista escreviam na mesma forma, com o mesmo cuidado de rima e de acento, e disputavam o mesmo leitor.

O soneto também trabalha com a métrica: versos decassílabos (de dez sílabas poéticas, contadas até a última tônica), o mesmo metro de Camões. Lido com calma, tem o passo regular de uma caminhada.

Bilac partiu em 1918, e a obra dele está livre para citar no Brasil.

• O tom: íntimo, de confidência; a frase pede calor.

• O corte: leia só o terceto final, os três versos que respondem ao amigo.

• O leitor: um irmão ou uma amiga de infância de um dos noivos.

Na hora de ler

Faça uma pausa curta depois de Amai para entendê-las.

Olhe para os noivos no último verso.

 

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III  Pra Dizer Adeus

O ramo da esperança

Numa despedida, A Mensageira dá a página a Luís Nicolau Fagundes Varela, que escreveu em 1863 o Cântico do Calvário para o filho Emiliano, que partiu com poucos meses.

A estrofe serve ao adeus porque chama de pomba quem se foi e diz o que ela carregava.

Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança.

Fagundes Varela, Cântico do Calvário, Cantos e Fantasias, 1865.

Predileta é a preferida; angústia, aqui, é a aflição que aperta o peito. A imagem vem do dilúvio da Bíblia: a pomba volta à arca com um ramo de oliveira no bico, sinal de que a água baixou.

Varela compara o filho a essa pomba. O menino era o sinal de terra firme num tempo de angústia, e o poema inteiro é o pai repetindo a lembrança para não soltá-la.

O poema tem versos brancos (sem rima) e longos, alternados com versos curtos. Varela partiu em 1875, aos 33 anos.

O Cântico do Calvário circulou em antologias escolares durante décadas. Gerações de brasileiros decoraram a primeira estrofe sem saber da história do menino Emiliano.

Presciliana seguiu escrevendo depois que A Mensageira parou. Nenhuma fonte registra o motivo exato do fim da revista; as pesquisas sobre ela apontam o custo de manter uma publicação sem anunciantes fortes, sem documento da diretora que o confirme. Publicou Sombras em 1906 e O Livro das Aves em 1914, com versos para leitores jovens sobre os pássaros do Brasil.

Em 1909, foi fundadora da Academia Paulista de Letras. Era a única mulher entre os fundadores, e ocupou a cadeira por mais de três décadas, num tempo em que academias de letras no Brasil quase não recebiam escritoras.

Em 1939, aos 72 anos, publicou Vetiver. Vetiver é uma raiz de cheiro forte, usada para perfumar gavetas e roupa guardada.

Ela partiu em São Paulo em 13 de junho de 1944. A obra dela entrou em domínio público no Brasil em 2015.

Na hora de ler

Leia Eras na vida como quem chama alguém pelo nome.

Pare um instante antes de O ramo da esperança.

“Que poeta da sua família ainda escreve sem ninguém ler?”

Vetiver foi o último livro.

 
 

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