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A mão que afaga saiu de um soneto
Em 1912, um poeta de vinte e oito anos pagou do próprio bolso o único livro que veria publicado, e a crítica do Rio recusou o volume.
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O único livro que ele viu publicado, em 1912
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Numa discussão de família, sempre chega o momento em que alguém encerra o assunto com a mesma frase: a mão que afaga é a mesma que apedreja. Ninguém cita autor, ninguém cita livro. A frase entra na conversa como provérbio, como se estivesse na língua desde sempre.
A frase tem dono, tem endereço e tem ano. É a décima primeira linha de um soneto de catorze versos chamado Versos Íntimos, impresso no Rio de Janeiro em 1912, dentro do único livro que o autor viu publicado.
O livro se chama Eu, e não saiu por editora nenhuma. Mil exemplares, 550 mil réis de custo, a conta paga fora do circuito comercial, com o irmão do poeta assinando a despesa na gráfica.
A crítica carioca daquele ano recebeu o volume com estranheza. O vocabulário de laboratório, cheio de matéria, verme e micróbio, soou a extravagância e a mau gosto para quem julgava poesia pelos padrões da época. O poeta ficou com fama de caso isolado.
O autor tinha vinte e oito anos quando o livro ficou pronto. Dois anos depois, aos trinta, ele estava numa cidade pequena de Minas Gerais, longe do Rio e longe da Paraíba, sem ter visto uma linha sua virar frase de todo mundo.
Quem repete o verso costuma usá-lo como desabafo, num tom de mágoa já resolvida. O soneto inteiro tem outro temperamento. Ele fala na segunda pessoa, com um amigo recém-derrubado, e não oferece consolo em nenhuma das catorze linhas. A frase famosa é o meio do caminho, não a conclusão.
O verso escapou do poema, perdeu o nome do autor pelo caminho e virou o argumento final de qualquer brasileiro decepcionado com gente próxima. Vem sozinho, sem os outros treze versos, e quase sempre com etiqueta de ditado popular.
O que vem agora é o soneto completo, sem corte, com a história de como o livro foi feito, a data que a primeira edição imprime embaixo do último verso e as duas ocasiões em que o texto serve na sua boca.
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I O Poema do Dia
Rio de Janeiro, 1912, por conta própria
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Um poeta de vinte e oito anos, uma edição paga fora das editoras e catorze versos escritos ainda no engenho da família. Veja como o livro foi feito, e o soneto completo, nas quatro estrofes em que ele foi impresso.
Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu em abril de 1884, no engenho Pau d'Arco, em Cruz do Espírito Santo, na Paraíba. Aprendeu a ler em casa, com o pai, que dava aula aos filhos na varanda e ensinava latim antes de qualquer escola.
Estudou no Liceu Paraibano e se formou em Direito no Recife, em 1907. Advogou pouco, deu aula de literatura na Paraíba e perdeu o posto depois de um desentendimento com o governo do estado.
Em 1910 casou com Ester Fialho e desceu pro Rio de Janeiro, onde deu aula em colégio particular e escreveu de madrugada, com a cidade grande cobrando aluguel e a Paraíba ficando pra trás.
Em 1912 o livro ficou pronto. Chamava-se Eu, reunia poemas escritos ao longo de mais de dez anos e trazia um vocabulário que ninguém usava em verso: micróbio, larva, escarro, matéria, verme.
O soneto que ficou famoso não é o mais estranho do volume. São catorze versos decassílabos, dois quartetos e dois tercetos, na mesma forma que a poesia de língua portuguesa usa desde Camões.
A primeira edição traz, embaixo do último verso, o lugar e o ano em que ele foi escrito: Pau d'Arco, 1901. O poeta tinha dezessete anos quando montou as catorze linhas, e esperou onze anos pra vê-las impressas.
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Vês! Ninguém assistiu ao formidável Enterro de tua última quimera. Somente a Ingratidão, esta pantera, Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera! O Homem, que, nesta terra miserável, Mora, entre feras, sente inevitável Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro! O beijo, amigo, é a véspera do escarro, A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga, Apedreja essa mão vil que te afaga, Escarra nessa boca que te beija!
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Versos Íntimos, de Augusto dos Anjos, do livro Eu, Rio de Janeiro, 1912. O texto acima segue a grafia atualizada das edições modernas, e as vírgulas da terceira linha ocupam o lugar dos travessões da primeira edição.
A leitura inteira leva perto de cinquenta segundos em ritmo de cerimônia, com uma pausa no fim de cada estrofe e dois tempos de silêncio antes da última linha.
A linha de apresentação cabe numa frase: Augusto dos Anjos, Versos Íntimos, do livro Eu, publicado no Rio em 1912. Diga o nome, o título e o ano, espere um segundo e comece a ler.
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II Pra Ler no Altar
O terceto que saiu do livro sozinho
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Um verso vira provérbio quando resolve, numa linha só, a discussão que a pessoa não sabia terminar. O terceto de 1912 encerrou a briga de família do país inteiro, e saiu do livro sem levar o nome do autor junto.
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O julgamento da crítica não durou. Os mil exemplares acabaram, e o livro passou a circular de mão em mão, copiado em caderno e recitado de cor por gente que nunca tinha comprado um volume de poesia.
Em 1920 saiu a segunda edição, pela Imprensa Oficial da Paraíba, aberta pelo Elogio de Augusto dos Anjos, escrito pelo amigo Órris Soares. O texto de abertura acompanhou as edições seguintes, e o livro passou a se chamar Eu e Outras Poesias.
De lá pra cá o volume foi reeditado dezenas de vezes e virou um dos títulos de poesia mais vendidos do país. Nenhuma dessas edições precisou de propaganda: o boca a boca fez o trabalho inteiro.
O terceto do meio saiu na frente do livro. A mão que afaga é a mesma que apedreja aparece hoje em briga de irmão, em demissão, em fim de sociedade e em post de rede social, quase sempre atribuída a ninguém.
A citação chega sozinha e chega torta. Some o verso anterior, o beijo, amigo, é a véspera do escarro, que é quem prepara a linha famosa, e some o quarteto que manda o leitor se acostumar à lama e virar fera entre feras.
Quem cita só a linha do meio usa o poema como consolo. Quem lê as catorze linhas descobre outro texto: o soneto não consola ninguém, ele avisa, e o aviso é duro do primeiro verso ao último.
No altar
Este soneto não sobe ao altar de casamento. Ele fala de decepção, e uma sala em festa não tem onde colocar um verso que trata beijo como véspera de escarro.
A ocasião dele é outra cerimônia: a homenagem a quem levou uma traição de gente próxima e continuou de pé. Formatura de quem voltou a estudar depois de uma queda, posse de quem já foi derrubado do cargo, brinde a um sócio que atravessou um processo.
Leia o primeiro terceto sozinho, três versos, cerca de doze segundos. Comece em Toma um fósforo e pare em apedreja, com uma pausa antes da última palavra, e a sala inteira reconhece a frase antes de você terminar.
O último terceto fica de fora de qualquer cerimônia. Ele manda apedrejar a mão e escarrar na boca, e uma plateia ouve a ordem, não o poema. Guarde essas três linhas pra leitura em silêncio.
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