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A lágrima que o velho tupi não perdoou
Em I-Juca-Pirama, de 1851, Gonçalves Dias pôs um prisioneiro tupi diante dos Timbiras e um pai cego que cobra coragem até o fim.
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Maranhão, 1851: o canto do prisioneiro
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Não descende o cobarde do forte. Antônio Gonçalves Dias publicou o verso em 1851, e ele resolve hoje uma dúvida antiga de todo filho: o que um pai perdoa e o que ele não aceita.
O verso sai da boca de um velho tupi, cego, no meio de I-Juca-Pirama, poema longo que o maranhense lançou no livro Últimos Cantos, no Rio de Janeiro. O título vem do tupi e quer dizer aquele que deve ser morto, ou seja, o guerreiro digno de ir ao sacrifício.
O enredo cabe em poucas linhas. Um jovem tupi cai prisioneiro dos Timbiras, povo inimigo. Pela lei da guerra entre as tribos, o cativo seria executado num ritual, diante da aldeia, e precisava encarar o golpe sem fraquejar.
Na hora do canto, o moço pede para viver. Conta que deixou na mata o pai velho e cego, que depende dele para andar, e chora. O chefe timbira manda soltá-lo: guerreiro que chora não serve ao sacrifício.
O filho volta para casa. O pai passa a mão no corpo dele, sente a pintura de guerra e a cabeça raspada dos prisioneiros, e entende o que houve. Leva o rapaz de volta à aldeia inimiga e exige que o matem.
Os Timbiras recusam. Ali o velho solta a maldição, em versos que batem como tambor: Tu choraste em presença da morte? Na presença de estranhos choraste? Não descende o cobarde do forte; pois choraste, meu filho não és!
Cobarde é a grafia antiga de covarde. Na lógica do velho, a lágrima diante do inimigo apaga o parentesco inteiro, e ele prefere perder o filho a perder a honra da tribo.
O poema tem dez cantos, e cada um usa um metro diferente (metro é a contagem de sílabas do verso). O mais famoso deles é o quarto, o canto de morte, em que o prisioneiro se apresenta aos guerreiros que vão executá-lo.
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I O Poema do Dia
Sou filho das selvas
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Num sarau, poema indianista (a poesia romântica que fez do índio o herói nacional) costuma chegar com cara de lição de escola. O canto de morte do prisioneiro derruba a impressão no primeiro verso: é curto, bate forte e pede voz alta.
O canto IV serve para abrir uma leitura porque os versos de cinco sílabas andam em compasso de marcha, e a sala sente o ritmo antes de entender a história.
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Meu canto de morte, Guerreiros, ouvi: Sou filho das selvas, Nas selvas cresci; Guerreiros, descendo Da tribo tupi.
Da tribo pujante, Que agora anda errante Por fado inconstante, Guerreiros, nasci; Sou bravo, sou forte, Sou filho do Norte; Meu canto de morte, Guerreiros, ouvi.
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Gonçalves Dias, I-Juca-Pirama, canto IV, em Últimos Cantos, 1851.
Pujante quer dizer poderosa. Fado é destino. A tribo que anda errante, sem terra fixa, é a dos tupis empurrados pela guerra, e o moço se apresenta como herdeiro de um povo que já perdeu o chão.
O canto de morte existia de verdade entre povos tupis: o cativo lembrava os próprios feitos antes do golpe. O alemão Hans Staden, no livro de 1557 sobre o cativeiro que passou entre os tupinambás, descreveu prisioneiros que desafiavam os captores até o fim.
Gonçalves Dias transformou o costume em forma. Cada verso tem cinco sílabas, a redondilha menor, medida curta de cantiga popular. As rimas em i (ouvi, cresci, tupi, nasci) voltam como refrão e amarram as estrofes.
O moço cumpre o rito até a metade. Depois das estrofes de orgulho, a voz muda: ele conta que o pai o espera na mata e pede para ir cuidar dele. O pedido vem com lágrimas, e as lágrimas decidem o resto do poema.
Quem ouve o canto pela primeira vez costuma se espantar com a virada. O herói que acabou de dizer sou bravo, sou forte, poucas estrofes adiante implora. O poeta pôs a coragem e o medo na mesma boca, sem avisar.
Os Timbiras eram um povo real do Maranhão, terra do poeta. Gonçalves Dias fez deles os captores e deu a eles a última palavra do poema, um gesto de respeito raro na poesia da época.
Na hora de ler
Conte antes quem fala: um jovem tupi, preso pelos Timbiras, diante dos guerreiros que vão executá-lo.
Leia os versos curtos em pé, com pausa em cada vírgula. O refrão Guerreiros, ouvi pede a voz mais firme da leitura.
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II Pra Ler no Altar
Em mim se apoiava
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Num casamento, o verso que mais pega é o de quem promete sustentar o outro nos dias ruins. O prisioneiro de I-Juca-Pirama tem uma estrofe inteira sobre o pai, e ela serve ao altar sem mudar uma palavra.
A estrofe serve ao altar porque repete em mim três vezes seguidas, e cada repetição soa como promessa de apoio. Cabe num cartão pequeno.
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Eu era o seu guia Na noite sombria, A só alegria Que Deus lhe deixou: Em mim se apoiava, Em mim se firmava, Em mim descansava, Que filho lhe sou.
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Gonçalves Dias, I-Juca-Pirama, canto IV, em Últimos Cantos, 1851.
A só alegria quer dizer a única alegria. O filho fala do pai cego, que dependia dele para caminhar pela mata e para comer. O pedido aos Timbiras nasce daí: ele quer viver para não deixar o velho sozinho.
A estrofe explica a lágrima. O prisioneiro chora de amor pelo pai, e os inimigos leem medo. O pai, quando descobre, lê a mesma lágrima do jeito dos inimigos.
O desfecho devolve o filho ao pai. Renegado, o rapaz enfrenta sozinho a aldeia timbira, lutando até o chefe mandar parar. O velho ouve o combate, reconhece a coragem e abraça o moço: Este, sim, que é meu filho muito amado!
O poema não descreve a execução. Salta para o canto X, em que um velho timbira lembra a cena anos depois; o leitor entende que o moço foi ao sacrifício com honra, e o texto não conta mais que o abraço.
No altar, a estrofe muda de lado com facilidade. O guia na noite sombria vira quem escolhe dividir a casa, e em mim se apoiava vira convite.
A origem: diga que os versos são de um filho que pediu para viver só para cuidar do pai cego. A plateia entende o tamanho do amor numa frase.
O corte: leia só esta estrofe. O resto do canto fala de guerra e de cativeiro, e o tom não combina com a cerimônia.
A língua: que filho lhe sou significa porque sou filho dele. No cartão, mantenha a construção antiga e troque filho pela palavra que servir ao casal.
O ritmo: as três linhas com em mim pedem a mesma altura de voz. A insistência é o encanto da estrofe.
Na hora de ler
Faça pausa depois de Que Deus lhe deixou. A sala precisa de um segundo antes das três promessas.
Diga o último verso olhando para quem você escolheu. A frase curta fecha o cartão sem enfeite.
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