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Numa despedida, Alexandre Herculano divide a página com Almeida Garrett, o companheiro de exílio e de cerco, que escreveu na França os versos mais conhecidos sobre a saudade.
O verso serve ao adeus porque dá nome à dor de ficar e trata a falta como algo que ainda dá gosto.
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Saudade! gosto amargo de infelizes, Delicioso pungir de acerbo espinho,
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Almeida Garrett, Camões, canto I, 1825.
Pungir é picar, ferir de leve. Acerbo quer dizer áspero, duro.
O poema conta a vida de Camões, mas Garrett escreveu sobre si mesmo: estava exilado em Paris, longe de Lisboa, como o poeta das Rimas tinha ficado longe na Índia.
Os dois versos juntam opostos. A saudade é amarga e é deliciosa; o espinho fere e agrada. Quem perdeu alguém reconhece a mistura.
Herculano e Garrett lutaram juntos no Porto, e os dois mudaram a literatura portuguesa depois da guerra. Garrett ficou no teatro e na poesia, publicou Folhas Caídas em 1853 e partiu em Lisboa no ano seguinte. Herculano largou os versos e viveu mais 23 anos.
Em 1839, Herculano assumiu a biblioteca do Palácio da Ajuda, em Lisboa. Ali leu documentos medievais e preparou a obra que o tornaria famoso: a História de Portugal, publicada em quatro volumes a partir de 1846.
O historiador cobriu o poeta. No primeiro volume, Herculano tratou como lenda a aparição de Cristo a D. Afonso Henriques na batalha de Ourique, em 1139, e o clero o atacou durante anos por causa da dúvida.
Ele respondeu com documentos. A briga ficou conhecida como a polêmica de Ourique, e Herculano não recuou.
Herculano escreveu ainda romances, como Eurico, o Presbítero, de 1844, mas não voltou a lançar livro de poemas novo.
Em 1867, cansado da política, comprou a quinta de Vale de Lobos, perto de Santarém. Lá plantou oliveiras, produziu azeite e recusou os títulos e honrarias que o rei lhe oferecia.
Os vizinhos de Santarém conheciam o lavrador de Vale de Lobos; os leitores de Lisboa, o historiador. Poucos se lembravam do soldado que tinha escrito A Harpa do Crente.
Ele partiu na quinta em 13 de setembro de 1877.
Na hora de ler
Diga a palavra saudade sozinha e espere um segundo.
Leia o segundo verso devagar, pesando acerbo espinho.
“Que verso você levaria de volta de um exílio?”
Ele tinha 67 anos.
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