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A Harpa do Crente, os versos que Herculano trouxe da guerra

Soldado no cerco do Porto e exilado na Inglaterra, ele publicou os poemas em 1838, antes de virar o historiador de Portugal.

Soldado liberal do século 19 escrevendo versos à luz de vela durante o cerco do Porto, com uma harpa ao lado.

Lisboa, 1838: os versos do soldado

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Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades. Luís Vaz de Camões deixou o verso nas Rimas, impressas em 1595, e ele explica a vida de Alexandre Herculano melhor que qualquer biografia: o rapaz que escreveu poemas de fé terminou a vida fazendo azeite numa quinta.

Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo nasceu em Lisboa em 28 de março de 1810. A família tinha pouco dinheiro, e o menino estudou com os padres oratorianos, aprendendo latim, francês e a disciplina de copiar documentos antigos.

Em 1831, Portugal vivia sob o governo absoluto de D. Miguel. Herculano, com 21 anos, entrou numa revolta liberal de um regimento de Lisboa. A revolta fracassou, e ele precisou fugir.

Embarcou para a Inglaterra e passou meses em Plymouth, no sul do país, entre centenas de refugiados portugueses. De lá seguiu para a França, onde estudou nas bibliotecas de Rennes.

O exílio terminou com uma arma na mão. Herculano juntou-se às tropas de D. Pedro nos Açores e, em julho de 1832, desembarcou com elas na praia do Mindelo, ao norte do Porto.

Os liberais tomaram a cidade e logo ficaram presos dentro dela. Durante um ano, o exército de D. Miguel cercou o Porto: faltou comida, a cólera entrou nas casas e as balas de canhão caíam sobre as ruas.

Herculano serviu como soldado raso durante o cerco. Entre um turno de guarda e outro, escrevia versos.

Na mesma tropa marchava Almeida Garrett, outro poeta exilado. Os dois saíram da guerra com a causa vencida e com cadernos cheios.

Em 1838, já em Lisboa, Herculano publicou A Harpa do Crente, um livro curto de poemas religiosos e patrióticos. O título diz tudo: a harpa é o instrumento do salmista, e o crente é o próprio autor, que acreditava em Deus e na liberdade ao mesmo tempo.

Ele ainda não era o historiador que Portugal conheceria. Os poemas mostram o soldado que voltou e precisou entender o que tinha visto.

O primeiro poema desta leitura saiu desse livro.

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I  O Poema do Dia

A cruz no alto da igreja

Em A Harpa do Crente, Alexandre Herculano dedica um poema inteiro a uma cruz quebrada, e começa por uma declaração de amor ao objeto.

O poema abre bem uma leitura porque começa por um amor dito sem rodeio, a um símbolo que todo leitor já viu.

Amo-te, ó cruz, no vértice firmada
De esplêndidas igrejas;
Amo-te quando à noite, sobre a campa,
Junto ao cipreste alvejas.

Alexandre Herculano, A Cruz Mutilada, A Harpa do Crente, 1838.

Vértice é o ponto mais alto, aqui o topo da torre. Campa é a pedra que cobre a sepultura, e alvejar é brilhar em branco no escuro.

A estrofe mostra a cruz em dois lugares: no alto da igreja, de dia, e no cemitério, de noite. O poeta ama as duas.

A forma alterna verso longo e verso curto. O primeiro e o terceiro têm dez sílabas; o segundo e o quarto, seis. O verso curto cai como um passo que hesita.

O título conta o resto. A cruz do poema está mutilada, ou seja, quebrada, e Herculano a encontrou assim no caminho.

Os liberais que voltaram do exílio fecharam os conventos em 1834 e venderam os bens das ordens religiosas. Muitas igrejas ficaram abandonadas, e cruzes de pedra caíram nas estradas.

Herculano lutou pelo lado que fechou os conventos e, ainda assim, sofreu com as ruínas. O poema guarda as duas lealdades sem escolher uma.

A Harpa do Crente traz outros poemas da mesma fase: Tristezas do Desterro, sobre o exílio, e peças sobre a Semana Santa e sobre Deus. O tom é sempre grave.

A harpa do título vem dos Salmos da Bíblia. A tradição judaica e cristã atribui boa parte deles ao rei Davi, pastor e tocador de harpa, e Herculano se colocou nessa linhagem de quem reza cantando.

No ano anterior, em 1837, ele tinha assumido a direção de O Panorama, revista ilustrada de Lisboa que levava história, ciência e literatura a leitores comuns.

A crítica da época recebeu o livro com respeito. O autor tinha 28 anos e já era conhecido pelo panfleto em prosa A Voz do Profeta, de 1836.

Na hora de ler

Leia os versos longos com voz firme.

Nos versos curtos, abaixe o tom, como quem olha a cruz de perto.

 
 

II  Pra Ler no Altar

A promessa do pastor

Num casamento, Alexandre Herculano cede a página a Tomás António Gonzaga, o poeta de Marília de Dirceu, que morreu exilado em Moçambique em 1810, ano em que Herculano nasceu em Lisboa.

A estrofe serve ao altar porque é uma promessa feita de frente, sem esconder quem promete.

Eu, Marília, não sou algum vaqueiro,
Que viva de guardar alheio gado;
De tosco trato, de expressões grosseiro,
Dos frios gelos e dos sóis queimado.

Tomás António Gonzaga, Lira I, Marília de Dirceu, 1792.

Alheio gado é o rebanho de outro dono. Tosco trato quer dizer modos rudes, e grosseiro aqui é quem fala sem cuidado.

Dirceu é o nome de pastor que Gonzaga usou no poema; Marília é a moça a quem ele se dirige. Os árcades (poetas que imitavam a vida do campo da Grécia antiga) escreviam assim, vestidos de pastores.

Gonzaga era ouvidor (juiz) em Vila Rica, hoje Ouro Preto. A Marília real chamava-se Maria Doroteia Joaquina de Seixas, e os dois estavam noivos.

O casamento não aconteceu. Em 1789, Gonzaga foi preso na Inconfidência Mineira e mandado para Moçambique, onde casou com outra mulher.

A estrofe sobrevive à história do noivado. O noivo diz o que não é e, nos versos seguintes, diz o que tem: casa, gado próprio e o trabalho das mãos.

A primeira parte de Marília de Dirceu saiu em Lisboa em 1792, com o autor já preso na Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro. O livro foi reeditado muitas vezes no século seguinte.

A geração de Herculano cresceu lendo essas liras. O soldado do cerco do Porto conhecia o exílio por dentro, e o noivo de Vila Rica tinha perdido a noiva para uma sentença.

No altar, a estrofe funciona sem essa história. O noivo afirma quem é, e a noiva ouve um homem que não finge grandeza.

Herculano casou tarde. Em 1866, aos 56 anos, uniu-se a Mariana Hermínia Meira, com quem viveu até o fim.

• O tom: leia como quem se apresenta à família da noiva, sem pressa e sem vaidade.

• O corte: pare no quarto verso. A lira continua por várias estrofes, e o altar pede uma só.

• O leitor: o noivo pode ler, porque o poema fala em primeira pessoa.

Na hora de ler

Diga Marília olhando para a noiva.

Respire no ponto e vírgula do segundo verso.

 

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III  Pra Dizer Adeus

Saudade no exílio

Numa despedida, Alexandre Herculano divide a página com Almeida Garrett, o companheiro de exílio e de cerco, que escreveu na França os versos mais conhecidos sobre a saudade.

O verso serve ao adeus porque dá nome à dor de ficar e trata a falta como algo que ainda dá gosto.

Saudade! gosto amargo de infelizes,
Delicioso pungir de acerbo espinho,

Almeida Garrett, Camões, canto I, 1825.

Pungir é picar, ferir de leve. Acerbo quer dizer áspero, duro.

O poema conta a vida de Camões, mas Garrett escreveu sobre si mesmo: estava exilado em Paris, longe de Lisboa, como o poeta das Rimas tinha ficado longe na Índia.

Os dois versos juntam opostos. A saudade é amarga e é deliciosa; o espinho fere e agrada. Quem perdeu alguém reconhece a mistura.

Herculano e Garrett lutaram juntos no Porto, e os dois mudaram a literatura portuguesa depois da guerra. Garrett ficou no teatro e na poesia, publicou Folhas Caídas em 1853 e partiu em Lisboa no ano seguinte. Herculano largou os versos e viveu mais 23 anos.

Em 1839, Herculano assumiu a biblioteca do Palácio da Ajuda, em Lisboa. Ali leu documentos medievais e preparou a obra que o tornaria famoso: a História de Portugal, publicada em quatro volumes a partir de 1846.

O historiador cobriu o poeta. No primeiro volume, Herculano tratou como lenda a aparição de Cristo a D. Afonso Henriques na batalha de Ourique, em 1139, e o clero o atacou durante anos por causa da dúvida.

Ele respondeu com documentos. A briga ficou conhecida como a polêmica de Ourique, e Herculano não recuou.

Herculano escreveu ainda romances, como Eurico, o Presbítero, de 1844, mas não voltou a lançar livro de poemas novo.

Em 1867, cansado da política, comprou a quinta de Vale de Lobos, perto de Santarém. Lá plantou oliveiras, produziu azeite e recusou os títulos e honrarias que o rei lhe oferecia.

Os vizinhos de Santarém conheciam o lavrador de Vale de Lobos; os leitores de Lisboa, o historiador. Poucos se lembravam do soldado que tinha escrito A Harpa do Crente.

Ele partiu na quinta em 13 de setembro de 1877.

Na hora de ler

Diga a palavra saudade sozinha e espere um segundo.

Leia o segundo verso devagar, pesando acerbo espinho.

“Que verso você levaria de volta de um exílio?”

Ele tinha 67 anos.

 
 
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