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A doceira de Goiás publicou o primeiro livro aos setenta e cinco
Em 1965, os poemas guardados desde a adolescência viraram livro depois de recusas de editoras do Sul, e a autora vendia doces na porta de casa.
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Goiás Velho, 1965, o tabuleiro e os versos
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Numa casa de porta larga em Goiás Velho, à beira do Rio Vermelho, uma mulher de setenta e poucos anos acordava de madrugada para descascar frutas.
Fazia compota de caju, de figo, de mamão, cristalizava umas coisas em tacho de cobre e vendia tudo ali mesmo, para quem batesse na porta. Era o que pagava as contas da casa.
A escola formal dela tinha parado no terceiro ano primário. Nunca cursou ginásio, nunca frequentou faculdade, nunca fez parte de roda literária nenhuma. Escrevia desde menina, publicava versos em jornaizinhos da província no começo do século, e depois passou décadas fora, em São Paulo e no interior paulista, criando seis filhos e cuidando da vida de um marido advogado.
Voltou para Goiás em 1956, viúva, para a casa onde tinha nascido. Trouxe junto uma pilha de papéis guardados havia meio século. Poemas escritos aos dezesseis, aos vinte, aos quarenta, misturados com anotações sobre becos, lavadeiras, tropeiros e mulheres do lugar.
O caminho até a livraria não foi curto. Editoras do Sul devolveram os originais, com a explicação educada de sempre: poesia de autor desconhecido não vende, e autor de setenta anos não constrói carreira. A edição só andou quando ela mesma entrou com o dinheiro do tabuleiro de doces e a editora José Olympio aceitou imprimir.
O livro saiu em 1965 com o nome de Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais. A autora tinha setenta e cinco anos. Era a estreia dela em livro, e as duas primeiras palavras da capa já avisavam do que se tratava: nada de assunto elevado, e sim o beco, a cozinha, a pedra do rio, o tacho.
Quinze anos depois, uma carta pública de Carlos Drummond de Andrade num jornal do Rio de Janeiro fez o país inteiro procurar o nome dela nas livrarias. Ela ainda estava viva, ainda fazia doce e ainda atendia à porta.
O que vem agora são três poemas dessa mulher, o que cada um serve para dizer em voz alta e as palavras dela que pedem tradução antes de qualquer leitura diante de gente.
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I O Poema do Dia
As pedras que ela mandou juntar
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Uma pedra no caminho vira material de construção, e a receita cabe em quatro verbos. Veja o poema que fez o nome dela virar frase de parede.
Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas nasceu em Vila Boa de Goiás, em 20 de agosto de 1889, e assinava Cora Coralina. O nome de batismo ficou nos documentos; o de poeta ela escolheu ainda moça, e é por ele que o Brasil aprendeu a chamá-la.
O poema mais repetido dela chama-se Aninha e Suas Pedras. Aninha é o apelido de infância da própria autora, o mesmo que aparece em outros títulos do livro.
O texto é um conselho dado em voz baixa, sem rima e sem métrica contada. A força está nos verbos no imperativo, todos práticos, todos de mão.
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Não te deixes destruir... Ajuntando novas pedras e construindo novos poemas. Recria tua vida, sempre, sempre. Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça. Faz de tua vida mesquinha um poema. E viverás no coração dos jovens e na memória das gerações que hão de vir.
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Cora Coralina, trechos de Aninha e Suas Pedras, no livro Vintém de Cobre, 1983.
Repare no meio da lista de conselhos: faz doces. A frase não é figura de linguagem. Era o ofício que sustentava a casa dela enquanto os versos esperavam a vez, e entrou no poema com o mesmo peso de plantar roseiras e escrever.
Duas palavras pedem cuidado na leitura em voz alta. Mesquinha aqui não é sovina, é pequena, sem importância aparente; hão de vir é futuro simples, as gerações que ainda vão nascer.
O ritmo do poema muda de propósito no verso central. Remove pedras e planta roseiras e faz doces vem sem vírgula entre as ações, tudo emendado, e a leitura tem que correr junto para a frase chegar em Recomeça com fôlego curto.
Onde parar: em na memória das gerações que hão de vir. É o fecho que serve para formatura, aniversário redondo e homenagem a professor, porque devolve a plateia ao futuro.
A linha de apresentação cabe numa frase: Cora Coralina, Aninha e Suas Pedras, do livro Vintém de Cobre, de 1983. Diga o nome, o livro e o ano, espere um segundo e comece.
Em voz alta, os trechos acima levam cerca de quarenta segundos. As reticências do primeiro verso pedem pausa maior que a da vírgula, e é ali que a sala silencia.
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II Pra Ler no Altar
O poema que se lê para quem está começando
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Nove versos curtos que resumem uma vida de setenta e cinco anos antes da estreia. Servem em formatura, bênção de jovens e posse de quem assume trabalho novo, e nenhum deles precisa de tradução.
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A ocasião é a passagem. Formatura de ensino médio ou de faculdade, missa de ação de graças por conclusão de curso, aniversário de dezoito, posse de diretoria, despedida de turma.
O poema se chama Oferta de Aninha e traz um subtítulo que já diz o destinatário: aos moços. Não é conselho de quem venceu cedo, é balanço de quem levou setenta e cinco anos para publicar o primeiro livro, e a plateia jovem entende a diferença na hora.
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Eu sou aquela mulher a quem o tempo muito ensinou. Ensinou a amar a vida. Não desistir da luta. Recomeçar na derrota. Renunciar a palavras e pensamentos negativos. Acreditar nos valores humanos. Ser otimista.
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Cora Coralina, trechos de Oferta de Aninha, aos moços, no livro Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, 1965.
O desenho da estrofe é uma lista. Cada linha começa com um verbo no infinitivo, e o sujeito de todas elas é o tempo da primeira frase, não a autora.
Por causa desse desenho, a leitura funciona com pausa igual entre as linhas. Quem acelera transforma a lista em recado motivacional de cartaz; quem respeita a pausa devolve a cada verbo o peso de uma década vivida.
Na hora de ler
Diga antes de quem é e de quando é. Uma frase resolve: Cora Coralina, Oferta de Aninha, do livro de estreia dela, de 1965.
Diga também a idade da autora na estreia. Setenta e cinco anos é a informação que faz o poema mudar de tamanho dentro da cabeça de quem ouve, e sem ela a lista vira frase bonita qualquer.
Não troque os verbos por versão modernizada. Renunciar a palavras e pensamentos negativos soa antigo de propósito, e a escolha antiga é o que separa o texto do cartaz de academia.
Não emende o nome do formando dentro do verso. A estrofe é curta e cadenciada, e o nome no meio quebra a conta e entrega a emenda na hora.
Nove versos levam cerca de vinte e cinco segundos. Se a cerimônia pedir mais tempo, leia a estrofe duas vezes, a segunda mais devagar, em vez de procurar poema maior.
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