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ED 039
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A definição de saudade que coube num olhar de mãe

Da Costa e Silva, de Amarante, no Piauí, abriu o livro Sangue, de 1908, com uma cena de reza em casa e batizou o Parnaíba de velho monge.

Bilhete manuscrito dobrado dentro de um livro sobre mesa de madeira, luz de fim de tarde.

Amarante, 1908: a cena que virou definição

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Saudade! Olhar de minha mãe rezando. Antônio Francisco da Costa e Silva publicou essa linha em 1908, no primeiro livro dele, Sangue, e ela continua sendo o caminho mais curto para explicar a palavra a quem nunca precisou dela: uma cena doméstica, com uma pessoa, um gesto e uma luz, no lugar de qualquer definição de dicionário.

Ele nasceu em Amarante, cidade piauiense à beira do rio Parnaíba, em novembro de 1885. Publicou os primeiros versos aos dezesseis anos, no Grêmio Literário Amarantino, mudou-se para Teresina, terminou o ginásio no Liceu Piauiense e, em 1906, matriculou-se na Faculdade de Direito do Recife. Sangue saiu dois anos depois e pôs o nome dele na conversa literária fora do estado.

Ele entrou por concurso no Ministério da Fazenda, foi jornalista e seguiu publicando: Zodíaco, em 1917, Pândora, em 1919, Verônica, em 1927. Em 1923, o Piauí adotou como símbolo oficial o hino cuja letra ele escreveu, com os versos sobre a esperança nos verdes das matas e a saudade das serras azuis.

O soneto Saudade faz o serviço que o título promete sem nunca dizer o que a palavra significa. São catorze versos de inventário: o pranto que desliza em fio, o caburé com frio piando ao luar, as folhas cantando ao vento, os gemidos dos canaviais, a névoa deitada na serra, o rio de barbas brancas e o mugido dos bois no fim da tarde. A palavra aparece quatro vezes, sempre seguida de uma imagem concreta, e nunca de um adjetivo.

O poeta morreu no Rio de Janeiro em 29 de junho de 1950, o que coloca a obra inteira dele em domínio público no Brasil desde 2021, pela contagem da lei 9.610, que libera o texto setenta anos depois do primeiro dia do ano seguinte à morte do autor. Ler em voz alta, imprimir no convite, gravar na placa: nenhum desses usos pede autorização de ninguém.

A edição de hoje recorta três trechos dele e coloca cada um numa situação concreta de leitura em voz alta: quatro versos para uma homenagem, quatro para uma cerimônia de casamento e três para uma despedida.

A primeira parada é a quadra de abertura, a que troca conceito por cena e funciona em qualquer sala por causa dessa troca.

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I  O Poema do Dia

Quatro versos que definem sem definir

Quem tenta explicar saudade em voz alta costuma empilhar sinônimos: falta, ausência, vontade de voltar, nostalgia. A plateia acompanha e não guarda nada, porque palavra abstrata explicada por outra palavra abstrata deixa a cabeça de quem escuta sem imagem nenhuma para segurar.

Da Costa e Silva resolveu o problema em 1908 com uma cena de dois segundos, uma mulher rezando e o choro escorrendo, e essa cena faz o trabalho que quatro sinônimos não fazem. Imagem se guarda, sinônimo evapora.

Saudade! Olhar de minha mãe rezando,
E o pranto lento deslizando em fio...
Saudade! Amor da minha terra... O rio
Cantigas de águas claras soluçando.

Da Costa e Silva, primeira quadra do soneto Saudade, no livro Sangue, 1908.

Repare que o poeta não descreve o rosto da mãe. Ele escolhe o olhar, o primeiro detalhe que quem entra na sala vê, e prende ali um gesto de oração, que é sempre um pedido por alguém ausente. A palavra saudade já está explicada antes do segundo verso começar.

No terceiro verso a lente abre. Sai a casa, entra a terra natal, e o rio aparece soluçando com cantigas de águas claras. O poeta atribui ao Parnaíba o mesmo choro contido da mãe e junta as duas perdas, a pessoa e o lugar, numa só respiração.

A quadra é feita de versos decassílabos, quer dizer, dez sílabas poéticas contadas até a última tônica de cada linha. A medida constante segura a leitura num passo regular, e quem lê sem pressa entrega o ritmo de reza que o texto já tem embutido.

Os quatro versos levam treze segundos em voz alta. Servem para uma homenagem a alguém que criou a família, para o aniversário de uma casa, para a abertura de um encontro de parentes que moram longe uns dos outros.

O trecho pede um cuidado de contexto. O poema é do interior do Piauí e fala de um rio específico, e numa sala sem nenhuma ligação com o Nordeste vale dizer o nome do Parnaíba antes de começar, ou o terceiro verso passa como paisagem genérica.

Na hora de ler

Pare no ponto de exclamação da primeira palavra. Saudade abre o poema sozinha, como quem nomeia uma pessoa que acabou de entrar, e o silêncio depois dela é o que faz a cena aparecer.

Não acelere as reticências do segundo verso. O choro em fio pede o mesmo tempo lento que a imagem descreve, e a pressa ali transforma luto em pressa.

Diga a ficha em uma frase. Quatro versos piauienses de 1908, do primeiro livro de um poeta de Amarante, sobre o que a palavra saudade mostra quando alguém para de explicá-la.

 
 

II  Pra Ler no Altar

A primavera que cabe numa quadra

Numa cerimônia de casamento, quem lê procura texto que fale de eternidade e de promessa, e acaba entregando aos noivos um juramento que ninguém na sala consegue conferir. O efeito é bonito por trinta segundos e some no caminho do bufê.

Quatro versos que só nomeiam começo de vida, sem prometer nada, seguram a cerimônia melhor que qualquer juramento, porque a sala inteira reconhece cada elemento citado. O reconhecimento é o que faz a leitura pegar.

Primavera floral das primaveras,
Dos astros, dos rosais, dos passarinhos...
Alegria do verde dos caminhos
Florindo em lianas, fecundando as heras...

Da Costa e Silva, primeira quadra do soneto Rosa Mística, no livro Sangue, 1908.

O título do soneto vem da ladainha católica, onde Rosa Mística, em latim Rosa Mystica, é um dos nomes dados à Virgem Maria. O poeta pega o nome de reza e entrega o poema à primavera, e por causa dessa origem o texto atravessa tanto a cerimônia religiosa quanto a civil sem soar deslocado.

A quadra funciona por acúmulo. São astros, roseiras, passarinhos, caminhos verdes, lianas, que são os cipós que se enroscam nas árvores, e heras. Nenhum elemento é raro, e a sala vai marcando um por um enquanto escuta, o que mantém a atenção presa sem exigir esforço de interpretação.

A leitura leva doze segundos. Cabe na entrada dos noivos, na abertura da celebração, no cartão do buquê, no brinde do jantar, sem trocar nenhuma palavra.

A origem: diga que os versos são brasileiros, de 1908, escritos por um poeta piauiense que tirou o título de uma ladainha e o restante do poema de um mês de maio. Uma frase basta.

O corte: a quadra fecha sozinha no quarto verso. Com mais espaço, leia o soneto inteiro, que tem catorze versos e termina com Nossa Senhora sorrindo de braços abertos entre as estrelas.

O cuidado: liana é palavra pouco usada no Brasil. Se a sala for grande, troque o verso por uma apresentação prévia de uma linha, dizendo que liana é o cipó que sobe pelas árvores, e leia a quadra como está escrita.

Na hora de ler

Segure meio segundo depois de primaveras. A repetição precisa de ar entre as duas palavras, ou as duas viram uma gagueira.

Leia a lista do segundo verso em ritmo igual, sem dar mais peso a nenhum dos três itens. A força vem do acúmulo, e o destaque em um deles derruba os outros dois.

Diga a ficha em uma frase. Quatro versos brasileiros de 1908, de um poeta do Piauí, sobre o começo de tudo num mês de flores.

 

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III  Pra Dizer Adeus

O rio de barbas brancas no fim do poema

Numa despedida, quem fala costuma buscar verso sobre descanso e paz, e entrega à família uma frase que serviria para qualquer pessoa do mundo. A sala escuta uma palavra bonita e sai sem nenhuma imagem daquela pessoa específica.

O trecho que sustenta uma despedida devolve a pessoa ao lugar de onde ela veio, com nome próprio e som próprio, porque paisagem nomeada é o que a família consegue ver de olhos fechados. O lugar é o que fica.

Saudade! O Parnaíba, velho monge
As barbas brancas alongando... E, ao longe,
O mugido dos bois da minha terra...

Da Costa e Silva, terceto final do soneto Saudade, no livro Sangue, 1908.

O apelido velho monge pegou. O Parnaíba, rio que separa o Piauí do Maranhão, é chamado assim até hoje por causa desses versos, e a expressão entrou no vocabulário corrente do estado como nome carinhoso do rio. O poeta viu na espuma clara da correnteza a barba de um religioso antigo e transformou geografia em personagem.

A figura tem nome na retórica: antonomásia, que é trocar o nome próprio de alguém pela qualidade que melhor o descreve. O recurso funciona numa despedida porque faz exatamente o que a família faz na sala: chamar a pessoa pelo apelido em lugar do nome de registro.

O último verso entrega som, não imagem. O mugido dos bois chega de longe, no fim da tarde, e quem cresceu no interior escuta o som antes de entender o verso. Terminar a leitura num som distante deixa a sala em silêncio sem que o texto peça silêncio.

A leitura leva dez segundos e serve para o momento da despedida, para o cartão das flores, para a mensagem enviada à família no dia seguinte e para a placa de uma homenagem.

O trecho: leia só os três versos finais, sem o resto do soneto. As duas quadras anteriores fazem inventário de perdas e, numa despedida, o inventário cansa a sala antes de a imagem do rio chegar.

A linha de apresentação: diga que os versos são de 1908, de um poeta nascido às margens do Parnaíba, e que o apelido velho monge nasceu nesse poema. Uma frase basta, e ela explica por que o rio aparece com barba.

Há uma parte da história que não se sabe, e vale dizer com todas as letras. Não existe manuscrito datado do soneto publicado até hoje, e ninguém consegue apontar o ano exato em que ele foi escrito. O historiador Alberto da Costa e Silva, filho do poeta, registrou que o livro Sangue foi composto ao longo de seis anos, entre 1902 e 1908, e a crítica trabalha com essa janela, sem fechar o ponto.

O que está documentado é a sequência pública. Sangue saiu em 1908 e foi recebido pela crítica fora do Piauí, o hino com letra dele virou símbolo oficial do estado em 1923, e os livros seguintes, Zodíaco, Pândora e Verônica, saíram entre 1917 e 1927.

“Qual verso você diria em voz alta no lugar onde nasceu?”

Ele morreu no Rio de Janeiro, em 1950.

 
 

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