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A capa que ela finalmente assinou
Maria Firmina dos Reis pôs o próprio nome na capa de Cantos à Beira Mar, São Luís, 1871, doze anos depois de Úrsula sair sem assinatura.
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São Luís, 1871: a capa com o nome da autora
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Essa liberdade, oh! poeta, canta, que fora o mundo a continuar nas trevas? Maria Firmina dos Reis imprimiu o pedido no livro Cantos à Beira Mar, publicado em São Luís do Maranhão em 1871, e o que ele resolve hoje é a abertura de uma homenagem sem frase de calendário: quem lê entrega à sala um chamado direto, escrito por uma professora negra do Maranhão que aproveitou a capa para imprimir o próprio nome.
Maria Firmina dos Reis nasceu em São Luís, e o Memorial que leva o nome dela e a Universidade Federal do Maranhão adotam 11 de março de 1822 como dia de nascimento, embora parte da bibliografia antiga registre 1825. Ela cresceu na vila de Guimarães, no litoral maranhense, e em 1847 passou no concurso para a cadeira de primeiras letras da vila, cargo público que sustentou a vida inteira dela.
O romance Úrsula saiu em 1859 assinado por "Uma Maranhense". O livro conta a história de um casal de brancos atravessada pela voz de três personagens escravizados, Túlio, Susana e o preto Antero, que falam por conta própria dentro do texto, coisa rara na ficção brasileira daquela década. A autoria ficou escondida atrás do apelido geográfico.
Doze anos depois veio o livro de versos. Cantos à Beira Mar foi impresso em São Luís em 1871, reúne poemas de amor, de solidão, de fé e de liberdade, e traz dedicatória à memória da mãe da autora. Na capa, o nome completo. A professora que publicara ficção sem assinatura passou a responder pela poesia diante da cidade onde dava aula.
Maria Firmina dos Reis faleceu em Guimarães em 11 de novembro de 1917, aos noventa e cinco anos, cega e pobre. Pela contagem da lei 9.610, que libera a obra setenta anos depois do primeiro dia do ano seguinte ao fim da vida do autor, a obra dela está em domínio público no Brasil desde 1988. Ler em voz alta, imprimir no programa da cerimônia, gravar em placa: nenhum desses usos pede autorização a ninguém.
A edição de hoje põe três trechos do livro em situação de leitura em voz alta: um pedido de liberdade para uma homenagem, um poema de nome repetido para um casamento e uma estrofe de praia vazia para uma despedida.
A primeira parada é a estrofe que transforma elogio em encomenda.
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I O Poema do Dia
Um pedido em voz alta a um poeta jovem
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Quem abre homenagem a alguém que começa costuma elogiar o talento da pessoa e desejar sucesso. A sala ouve gentileza, bate palma e esquece a frase antes do cafezinho.
O poema O Meu Desejo resolve a abertura porque troca o elogio por encomenda: o texto lista, em voz alta, o que o homenageado ainda tem para fazer. Quem recebe sai com tarefa, e tarefa gruda mais que cumprimento.
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E a liberdade, - oh! poeta, - canta, Que fora o mundo a continuar nas trevas? Sem ela as letras não teriam vida, menos seriam que no chão as relvas: Toma por timbre liberdade, e glória, Teu nome um dia viverá na história.
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Maria Firmina dos Reis, terceira estrofe do poema O Meu Desejo, no livro Cantos à Beira Mar, 1871, páginas 33 a 35.
O poema tem endereço: a dedicatória diz "a um jovem poeta guimaraense", quer dizer, natural da vila de Guimarães, onde a autora lecionava. A palavra timbre, no verso, carrega o sentido antigo de brasão, marca de honra que alguém assume como divisa própria. Tomar a liberdade por timbre significa adotar o tema como assinatura pessoal, e não cantá-lo de passagem.
O alaúde que aparece nas estrofes anteriores é um instrumento de cordas dedilhadas, herdado dos árabes e usado na poesia romântica como símbolo do ofício de cantar. Quem entrega o alaúde, no poema, é Deus: o talento chega como encargo, não como sorte.
A força do trecho está na pergunta do segundo verso. Uma poeta negra escrevendo no Maranhão escravista de 1871 pergunta o que seria do mundo sem liberdade, e a pergunta chega ao leitor de hoje com a resposta dentro: o mundo continuaria nas trevas.
A leitura dos seis versos leva vinte segundos, e o poema inteiro passa de dois minutos. Serve para abrir entrega de prêmio literário, posse de diretoria, formatura de turma de letras e homenagem a professor.
Na hora de ler
Diga o nome completo da autora e o ano antes do primeiro verso. Maranhão, 1871, professora de primeiras letras: a ficha muda a escuta da sala inteira.
Faça pausa depois do ponto de interrogação. A pergunta precisa de silêncio para o ouvinte responder sozinho na cabeça.
Encerre no último verso e não explique. O verso sobre o nome que viverá na história já entrega a homenagem que a cerimônia quer fazer.
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II Pra Ler no Altar
O nome que se repete na maré
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Numa cerimônia de casamento, quem lê escolhe texto sobre o amor em geral, e a sala escuta trinta segundos de definição abstrata. Ninguém repete depois uma linha do que ouviu.
O poema Seu Nome entra melhor na cerimônia porque não define coisa alguma: repete um nome próprio cinco vezes e mostra o que a repetição faz com quem ama. A plateia associa o gesto ao nome que está sendo dito no altar.
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Seu nome! é minha glória, é meu porvir, Minha esperança, e ambição é ele, Meu sonho, meu amor! Seu nome afina as cordas de minh'harpa, Exalta a minha mente, e a embriaga De poético odor.
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Maria Firmina dos Reis, terceira estrofe do poema Seu Nome, no livro Cantos à Beira Mar, 1871, páginas 71 a 72.
A palavra porvir significa futuro, o tempo que ainda vai chegar, e no verso ela divide a linha com glória para dizer que o nome amado ocupa passado e futuro de uma vez. Na primeira estrofe do poema aparece dúlia, termo da teologia católica para a veneração prestada aos santos, abaixo da adoração devida a Deus: chamar a nota de dúlia é dizer que o nome é venerado sem virar ídolo.
O poema abre listando os lugares onde o nome se repete, a planta, a erva, a fonte, a solidão, o mar e a brisa. Depois sobe ao céu, com o nome escrito em letras de ouro no azul, e desce para a lua debruçada sobre a água.
A última estrofe fecha na própria morte, com os lábios pronunciando o nome no extremo alento. Numa cerimônia de casamento, esse desfecho pesa mais do que a ocasião pede, e o corte na terceira estrofe entrega a promessa sem o luto.
A leitura da estrofe leva dezoito segundos, e o poema completo leva pouco mais de um minuto. Cabe na abertura da celebração, no voto de quem fala primeiro, no cartão preso ao buquê e na placa de bodas.
A origem: diga que os versos são maranhenses, de 1871, escritos por uma professora que publicou o primeiro romance dela sem assinar. Uma frase basta.
O corte: pare na palavra odor. As estrofes seguintes mudam de assunto e levam o texto para o leito de morte.
O cuidado: a palavra embriaga soa forte fora de contexto. Quem ler faz bem em dizer, em meia frase, que a embriaguez do verso é de mente exaltada, não de bebida.
Na hora de ler
Repita o "Seu nome!" do jeito que está escrito, com a exclamação. A repetição é o motor do poema, e quem suaviza a entonação apaga o efeito.
Troque a palavra harpa pelo instrumento que a família reconhece, se quiser comentar depois dos versos. O texto lido fica íntegro, o comentário aproxima.
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