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A cantiga que dormia na capa de um livro
Martim Codax escreveu sete cantigas de amigo no século XIII, e a música de seis delas apareceu em 1914 na capa de um tratado de Cícero.
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Madri, 1914: o pergaminho sai da encadernação
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Ondas do mar de Vigo, se vistes meu amigo? Martim Codax cantou a pergunta em meados do século XIII, e ela resolve hoje o aperto de quem espera uma mensagem que não chega: a moça pergunta ao mar porque ninguém mais responde.
Codax era jogral (músico que cantava de corte em corte, por paga) na costa da Galiza, no noroeste da Península Ibérica. Escrevia em galego-português, a língua comum da Galiza e do norte de Portugal naquele tempo, avó do português falado no Brasil.
Dele sobraram sete cantigas de amigo (canções em que um homem escreve na voz de uma moça apaixonada). As sete citam Vigo, porto galego plantado numa ria, braço de mar que entra pela terra.
Por séculos, os versos viveram só como texto. Copistas italianos do século XVI os passaram para dois cancioneiros (coletâneas de poemas), hoje guardados na Biblioteca Apostólica Vaticana, em Roma, e na Biblioteca Nacional de Portugal, em Lisboa. A melodia tinha sumido.
Em 1914, o livreiro madrilenho Pedro Vindel desmontou a encadernação de um exemplar do De Officiis (Sobre os Deveres), tratado do romano Cícero, e achou uma folha de pergaminho (couro de animal preparado para a escrita) servindo de reforço da capa.
Na folha estavam as sete cantigas de Codax, em sequência, com pauta musical sobre seis delas. A sexta ficou com as linhas da música vazias, e ninguém sabe se o copista esqueceu ou se a melodia já tinha se perdido.
Até hoje, a folha é a única fonte conhecida com a música de cantigas de amigo. Vindel publicou o achado em 1915, e o pergaminho passou por colecionadores até chegar à Morgan Library, museu e biblioteca de Nova York, onde está desde 1977.
A primeira parada é a cantiga que abre a folha, a das ondas, onde a moça faz ao mar quatro vezes a mesma pergunta.
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I O Poema do Dia
Quatro perguntas ao mar
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Num sarau, cantiga medieval assusta: a sala espera latim, palavra difícil e alaúde. Ondas do mar de Vigo chega com doze versos curtos e uma dúvida só.
A cantiga serve para abrir uma leitura porque cada estrofe repete a anterior com uma palavra trocada, e a sala aprende o poema enquanto ouve.
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Ondas do mar de Vigo, se vistes meu amigo? E ai Deus, se verrá cedo!
Ondas do mar levado, se vistes meu amado? E ai Deus, se verrá cedo!
Se vistes meu amigo, o por que eu sospiro? E ai Deus, se verrá cedo!
Se vistes meu amado, por que ei gran cuidado? E ai Deus, se verrá cedo!
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Martim Codax, cantiga I do Pergaminho Vindel, Galiza, século XIII.
Vistes é o verbo ver na forma antiga de vós: vocês viram. Verrá é virá, e cedo guarda o sentido de logo. A moça pergunta às ondas se viram o namorado e se ele volta logo.
Amigo, nessas cantigas, é o namorado. Levado quer dizer agitado, mar alto; cuidado tem o sentido velho de aflição, a preocupação que tira o sono.
Repare na troca entre as estrofes. A primeira diz mar de Vigo e amigo; a segunda repete tudo com mar levado e amado. Esse recurso se chama paralelismo (a mesma frase dita duas vezes, só com a palavra final trocada), e ele move a cantiga de amigo inteira.
Tem mais um truque. O segundo verso da primeira estrofe, se vistes meu amigo, volta como primeiro verso da terceira. Os estudiosos chamam o passo de leixa-pren (deixa e prende, em galego-português): uma estrofe larga um verso e a seguinte o apanha.
E ai Deus, se verrá cedo é o refrão (verso que volta igual no fim de cada estrofe). Aparece quatro vezes e nunca recebe resposta. A cantiga termina com a pergunta aberta, e o assunto é a espera sem notícia.
No pergaminho, a pauta vem escrita sobre a primeira estrofe; as outras seguem pela mesma melodia, como qualquer canção de refrão tocada hoje.
Sobre Codax, o pouco que existe está nos próprios poemas. Nenhum documento de cartório ou de corte registra nascimento, família ou morte dele; o nome aparece só como assinatura nos cancioneiros e no pergaminho. Por isso os estudiosos o situam pela língua e pela letra do manuscrito, em meados do século XIII.
Na hora de ler
Conte em duas frases de onde vem a cantiga: um músico galego, uma moça na praia, uma folha achada na capa de um livro em 1914.
Leia o refrão sempre no mesmo tom. A graça está na repetição, e a sala começa a dizer junto lá pela terceira estrofe.
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II Pra Ler no Altar
O recado que chegou
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Num casamento, a leitura mais bonita costuma ser a da chegada: depois da espera, a pessoa veio. Codax escreveu essa cena na cantiga que vem logo depois das ondas.
Mandad' ei comigo serve ao altar porque a moça para de perguntar e sai correndo ao encontro de quem ama. Cabe num cartão de seis linhas.
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Mandad' ei comigo ca ven meu amigo: e irei, madr', a Vigo!
Comigo ei mandado ca ven meu amado: e irei, madr', a Vigo!
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Martim Codax, cantiga II do Pergaminho Vindel, Galiza, século XIII.
Mandado é recado, notícia trazida por alguém. Ei é tenho; ca quer dizer porque. Em português de hoje: tenho notícia comigo, porque o meu amado vem, e eu vou, mãe, a Vigo.
A mãe aparece em muitas cantigas de amigo. A moça conta a ela a novidade ou pede licença para sair, e o poema guarda o tom de conversa em casa, de filha para mãe.
A sequência do pergaminho parece contar uma história. Na primeira cantiga ela pergunta ao mar; na segunda chega o recado; nas seguintes chama a irmã e as amigas para a igreja de Vigo, à beira da água, e vai banhar-se nas ondas. Ninguém sabe se Codax ordenou as sete de propósito ou se foi o copista que as juntou assim.
A troca de amigo por amado repete o paralelismo das ondas, e o verso e irei, madr', a Vigo funciona como refrão. Mudou só o sentido: a pergunta sem resposta virou resposta.
No altar, a cantiga cabe inteira em seis versos. Quem lê é um dos noivos, e Vigo passa a ser este lugar: o recado chegou, e eu vim.
A origem: diga que a cantiga tem cerca de 750 anos e sobreviveu dentro da capa de um livro. A plateia gosta de saber que o texto quase se perdeu.
O corte: leia só as duas estrofes do recado. As outras falam de mar bravo e de banho, e pedem uma explicação que a cerimônia não comporta.
A língua: mantenha o galego-português no cartão e diga a tradução logo depois. Madr' é mãe, e a palavra antiga soa bem numa igreja.
O ritmo: os versos têm cinco ou seis sílabas. Leia devagar, porque verso curto dito depressa some.
Na hora de ler
Olhe para a sua mãe na hora de dizer madr'. O verso ganha dono na plateia.
Deixe o último e irei, madr', a Vigo mais firme que o primeiro. A moça já decidiu.
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